Viviana, o princípio das coisas

 
  romance em versão integral  
     
 
1

Ela foi até à cama e sacudiu o homem que dormia entre os lençóis enxovalhados:
– Acorda, acorda! – disse a mulher, enganchando-lhe os dedos no pulso.
Ele abriu os olhos e fitou-a mudo, como se ainda sonhasse, acabando por dizer, com a língua entaramelada:
– Que se passa? – perguntou. – Que raio é isto?
– Não sei – respondeu ela. – Não sei nada. Estiveste aí muito tempo sem acordar, mas não sei dizer ao certo por quantos dias. Já não me lembro. Desde que aconteceu aquilo… parece que não voltou a anoitecer. Os dias deixaram de ser normais. Não sei explicar. O ar perdeu a transparência a que estávamos habituados. Tenho saudades da noite, da escuridão, da visão das estrelas, da crista das ondas ao luar. Enquanto estiveste a dormir, perdi a noção das horas e do tempo. Não me perguntes como porque não sei. Não sei nada. Vai à janela e olha.
– Mas o relógio está a funcionar… – argumentou ele.
– Pois está. Mas como podemos saber se a hora que marca corresponde à noite ou ao dia? Estas tardes são quentes e moles…
– Não comeces! Há qualquer coisa de diferente em ti. Não pareces a mesma pessoa. Olha-me, por favor: dá a impressão de que estamos soterrados, apesar de nunca escurecer completamente.
Dirigindo-se a uma das janelas, ele acrescentou que, vista dali, a cidade parecia estar dentro de uma gruta enorme e perguntou, em voz alta, como se falasse para alguém no exterior, em que estado se encontrava o resto do mundo.
– Será que é desta que tudo vai acabar? – continuou, agora em voz quase inaudível para os seus botões. – Sim…, talvez seja mesmo desta que as coisas se vão resolver.
– Lá estás tu a exagerar – replicou ela. – Nem sabemos o que se passa. O sol tem aparecido, embora raramente, e está sempre pálido, muito pálido, quando aparece agora sobre a cidade. Às vezes, ponho-me mesmo a pensar se aquela esfera luminosa não será a Lua, mas logo a seguir percebo que se trata do Sol. Já não sei a quantas ando. Apesar de enfraquecido, aquilo só pode ser o Sol, caso contrário não se justificaria este calor sufocante. Sinto o corpo derreter e o juízo fugindo para outros sítios.
O homem deu uma volta à casa, certificando-se da posição dos objectos, da sua resistência à nova situação que então se vivia. Olhou de novo pela janela: aquilo era uma tempestade, um estado do tempo, sem sombra de dúvida. Mas, estranhamente, havia calma, muita calma, lá por fora. A poeira levantara-se e ficara assim no ar como se fazendo escárnio das casas, ruas e jardins. O dia tinha a cor do cobre, dando a ideia de que o Sol se desintegrara à hora do crepúsculo, misturando as suas partículas com a respiração agitada da Terra. Tudo estava envolvido por uma névoa de ferrugem e chocolate. O calor pairava no quarto como uma massa sólida, ondulante, invisível, derretendo-se à medida que se passava por entre as coisas.
Ardendo, o homem levou as mãos à cabeça, rasgou o pijama, mas nem por isso transpirava. O calor parecia vindo de uma fogueira que seca e suga as reservas de água do corpo mole, deixando em desespero o pensamento. O dia tornara-se uma espécie de sempre crepúsculo, mas sem as cores vivas e berrantes dos verdadeiros crepúsculos.
Todos os objectos na casa mantinham as suas posições iniciais, salvo uns leves desvios, tombos, sobressaltos, que o homem corrigiu. Depois, abriu a porta de um dos quartos – gostava de lhe chamar o quarto das sombras – e viu lá dentro as coisas deformadas, reflexos móveis, entontecidos, ligeiramente ondulantes, mas fixos, porque, afinal, nunca mudavam de sítio. Há anos que aquela porta não se abria. Olhando-a, agora, ele não conseguia evitar uma singular e profunda sensação de vómito. Sentia a garganta apertada e pancadas secas desabando-lhe no cérebro, como o martelo agredindo umas solas na oficina da memória.

…Do princípio de tudo, ele recordava-se de um grande clarão, fazendo lembrar o disparo de uma câmara gigantesca, que fulminara a cidade, as casas, o pensamento. Um clarão silencioso, que abalara paredes, telhados, consciências, objectos que repentinamente mexiam como se tivessem vida própria. Ele perdera a noção das coisas. Agora, dava voltas ao miolo procurando entender o que se passara.
Não sabia quanto tempo havia decorrido. Mas decorrera tempo, com certeza, porque a mulher lhe dissera que ele se deixara dormir, interminavelmente, como uma onda imóvel, entre os lençóis.



2

Mireu foi certificar-se se o relógio estava a funcionar correctamente, não fosse dar-se o caso de o pêndulo estar assim a balouçar para lá e para cá só para troçar dele, agora que era sempre de dia e sempre calor. Olhando para o relógio, cujo pêndulo parecia uma borboleta metálica repetindo a mesma rota sem fadiga, ele distinguiu um vulto reflectido no vidro do mostrador. Era Terrez que acabara de entrar.
Antes da catástrofe, Terrez costumava visitá-los de madrugada, antes do nascer do sol, por isso, e partindo do princípio de que o velho não perdera os seus hábitos, naquele momento devia ser madrugada.
Terrez pôs-se a acenar jovialmente, como de costume, a fim de chamar a atenção para a sua entrada, não fossem pensar que se tratava de outra pessoa. Depois, Terrez desatou a balançar o corpo no sentido oposto ao do pêndulo do relógio e Mireu coçou a cabeça quente como um torresmo.
– Sou eu – disse Terrez, enquanto se aproximava do relógio, sem esconder a sua intenção de deter o pêndulo: agarrou a haste fina com uma mão e com a outra pôs-se a acenar, de novo, mas desta vez na direcção do relógio, pôs-se a acenar como alguém que vai de viagem e não se cansa de abanar o lenço no cais. Terrez parou mesmo o relógio e sentenciou:
– Já não precisam disto. Agora, mais vale não saberem nada, mais vale não terem noção das horas…
Sem o tic-tac do relógio, dava a ideia de a casa ter ficado a flutuar de repente num estranho vazio, um vazio que queimava, devorando as têmporas.
Terrez estendeu as mãos para Mireu, parecendo aumentar de estatura ridiculamente, e disse:
– Como vão esses ossos, meu caro? Estás doente? Nunca te vi com tanta falta de cor. Não me digas que Arueta anda a exigir demasiado de ti!... De qualquer modo, não tenho dúvidas de que é uma excelente pessoa. Sou capaz de pôr as mãos no fogo por ela.
Descuidadamente, Terrez sentou-se no sofá que se encontrava a pouco menos de um metro e continuou:
– Tenho muitos amigos, amigos de todas as idades e feitios… Não te rias, Mireu, estou a sério. Livra, que calor está nesta casa, até parece que estamos numa farra daquelas que eu cá sei. Não seria má ideia, diga-se. Estás a ver aonde quero chegar? – perguntava com os olhos em busca de Arueta. – Se pensam que estou doido, enganam-se redondamente – afirmava, martelando as palavras. – Fumo que nem um tresloucado, é certo. Não é por nada. É que certo dia descobri que o fumo era o meu melhor amigo e de então para cá habituei-me a pensar a vida e as coisas em diálogo com ele. Antes falar com o fumo do que falar sozinho. O pior que me poderia acontecer era não ter ninguém com quem trocar umas ideias. No meio de toda esta situação é fundamental termos alguém como interlocutor. Que idade me dás, Mireu? Não faças essa cara. Estou perto dos noventa, pois estou. Mas ninguém diz. Para se manter a juventude, é importante olhar de frente as vidraças, as janelas, todas as superfícies transparentes que nos permitem ver as coisas limpas e puras. Quando digo alguma asneira, receio que a vidraça se solte dos caixilhos e rebente com violência contra os meus tutanos. Foi assim que fui ganhando juízo. Rodeei-me dos amigos certos, podes ter a certeza. Mas, voltando ao fumo, quero dizer-te que não é só o fumo, esse amigo que sobe ao céu em forma de espirais como um preguiçoso. Há mais, podes crer. Chupo no cigarro que me consolo. O tipo da tabacaria já sabe: quando me vê entrar, traz logo três macinhos, sem eu lhe pedir nada. Assim é que é, pianinho, e depois escapo-me sem ninguém dar por isso. Vejo que estás alterado, Mireu. Estás excitado. Vou-me já embora. Mas, olha, não te esqueças disto que te vou dizer: os lençóis são uns grandes amigos meus! Muitas vezes, nem consigo dormir porque se estão sempre a meter comigo, não me deixam um minuto sossegado, andamos no derriço durante toda a noite. Já reparaste nas minhas camisas? Todos os dias visto camisas diferentes, camisas lavadas e de cores berrantes. Gosto delas frescas, apalpando-me todo, fazendo-me cócegas, dizendo-me segredos. Ora, Mireu, qualquer dia fartas-te de Arueta e entras na minha onda. Não uso cuecas. As cuecas apertam-me os testículos, retorcem-mos todos. Gosto é das calças, que são as minhas amigas preferidas. Quando me sinto deslizar por dentro delas, imagino que estou nu naquele momento e uma mulher com calças iguais às minhas se encosta toda aqui ao velho. Ela é que está vestida, Mireu, eu estou nu, e então levanto logo! Uma autêntica maravilha. Já alguma vez fizeste a experiência? As calças são amigas óptimas, os tapetes, os talheres, os pratos, enfim, amigos lá da cozinha, mas amigos de verdade, amigos que nunca nos deixam mal. Sou amigo dos meus dentes postiços, mas confesso que não gosto muito quando estou a dar à língua numa senhora e eles me saltam fora do lugar. Fico embaraçado, claro, não vá a mulher notar alguma coisa e ficar ainda mais embaraçada do que eu. Então, mando os dentes postiços de novo para o lugar. Já imaginaste o problema que seria se eu deixasse ir os dentes por ali dentro?! Seria lixado, depois, ver parir uma dentadura. Pior ainda seria eu ter de assumir a responsabilidade pela educação dela. É que não deve ser nada fácil orientar uma dentadura neste mundo. Ah, vou já sair, Mireu, mas deixa-me falar-te da Jane. Nunca fui para a cama com ela. A Jane é só uma companhia para as refeições. Ela olha-me nos olhos, ri, endireita o cabelo e comprime os lábios…, com aquele ar de quem me compreende melhor do que ninguém. Já notei que espera alguma coisa de mim, mas estou na fase de me fazer caro. Quero que ela se prenda, primeiro. Depois, veremos. Mas tenho a certeza de que não vai falhar. A Jane há-de tornar-se um ás na cama. Jane é uma cadeira. Já te deves ter apercebido do estilo de amigos com quem me dou. Nada de confusões. Trouxe Jane de Nova Iorque e nunca me arrependi. Com todos os diabos, Mireu, este calor está de matar. Sabes o que me apetece nestas alturas? O frigorífico, o frigorífico é um amigo especial e refrescante. Ponho-me dentro dele, claro, e percebo que a experiência nem sequer lhe desagrada. Até fica agradecido. Noto-lhe um ar feliz como se tivesse um filho no ventre. A vida é finória, Mireu. A vida é gozadona, a vida é verdadeiramente minha amiga. Aprendi isto em criança quando andava de rabo ao léu por aqui e por ali. Sei que estou a ser chato e que nada do que digo faz muito sentido. Mas já me conheces. Tenho fama de louco e digo estas coisas pela boca fora. Queres ir deitar-te com Arueta e eu estou aqui que nunca mais me calo. Pronto, até logo.
Terrez deu meia volta, não sem antes ter dado um empurrão no pêndulo do relógio e mesmo à beira de sair a porta, voltou-se para Mireu:
– Experimenta fazer umas cócegas no clítoris da pasta de dentes! Vais ver que é uma sensação levada da breca. Nunca pensei. A fulana derrete-se toda que nem uma gata. Só lhe falta mesmo gemer. Vês como não me faltam amigos e mulheres com quem me divirto à brava?
Terrez acenou com uma mão, depois com a outra em sentido contrário, parecendo que acabara de accionar dois pêndulos em desacordo. Mireu acompanhou o seu reflexo no mostrador das horas, só desviando os olhos quando Terrez se perdeu no eco empoeirado da cidade apodrecida.



3

Mireu notou que tinha os pés a inchar. Esfregou-os contra o tapete de corda, que tinha um aspecto de abandono e ardume, como escovas de arame derramadas pelo corpo, fazendo desaguar a tristeza nas formas ásperas e geométricas que se lhe colavam aos pés inchados, enquanto as fibras de corda cediam sob a pressão da pele esticada.
Mireu abstraiu-se de si próprio e pousou o olhar na mesa à sua frente, um móvel frágil de cana, com borbulhas vistosas em distâncias incertas. Para lá da mesa, umas pantufas velhas, esbranquiçadas de lama e suor. Apoiou o pé direito sobre o outro e transportou maquinalmente a visão da mesa de cana para as sombras que o candeeiro projectava para além do tempo dentro de casa.
Desde que o dia era sempre dia e a terra parara a sua marcha à hora do crepúsculo, Arueta e Mireu desvelavam-se em cuidados para que não lhes faltasse a luz do candeeiro. Era como se imaginassem a noite ausente nos reflexos alaranjados da lâmpada eléctrica sobre as coisas.
À esquerda de Mireu, estava Arueta nua da cintura para cima, sentada, com uma perna encolhida, a outra balouçando sobre o abismo que ia da cadeira ao tapete.
Entre as coxas de Arueta e o assento, havia uma linha escura, como o traço firme de um lápis de carvão.
Sobre uma estante de livros, encontrava-se um aquário dentro do qual três peixes vagueavam à procura do infinito. Os peixes dobravam os corpos, mansamente, e, subindo, deixavam-se ficar suspensos pelas bocas na superfície da água, deitando ao mundo olhares nos quais se adivinhava a dor das flautas e das harmónicas. As suas escamas brilhavam ao calor e a luz do candeeiro escoava-se na ondulação do líquido amarelado.
Lá fora, a cor barrenta dos dias prolongava-se numa infindável serpente em que cada um dos anéis era como os dias sempre iguais no calendário. Dias aureolados de poeira, calor e silêncio.
Na cidade, as sombras multiplicavam-se de casa em casa, rua em rua, portas, janelas, canteiros, jardins, parques agora imersos na monotonia repentina que os clarões geram ao entardecer.
Privilegiada pelo calmo crepúsculo agitado, a casa de Arueta e Mireu repousava de janelas fechadas numa transversal apagada da cidade.
A porta da casa era um quase borrão e nas janelas os vidros pareciam olhar espantados por entre a poeira grávida. Do pátio para a porta, sobrepunham-se cinco degraus de madeira, rangendo uns sobre os outros. Em frente à escada enegrecida, havia um automóvel amarelo, alaranjado de velhice, com desordenadas manchas metalizadas cobrindo-lhe a ferrugem (a inevitável doença dos corpos cedendo à humidade, ao trabalho esgotante de percorrer as estradas, arrancar, travar, obedecer às curvas) e com os quatro pneus vazios enrugados pela falta de ar, espremidos sob o peso da carroçaria teimosa em resistir à idade. O tejadilho sucumbira aos pulos e danças dos rapazes em outros tempos, ouvindo-se então os batuques, os sons, ritmos de pernas e guinchos no pátio, à mistura com o cantar dos grilos.
O automóvel finou-se ali no dia em que a tempestade rebentou e fazia agora lembrar um laranjal encolhido, cujos frutos tinham virado pequenas manchas de prata e ferrugem, desde as noites em que as estrelas brilhavam e contavam histórias às crianças sobre a cidade.
Mireu levantou-se. Despiu as calças e atirou-as para as costas da cadeira de vimes, ouvindo-se o tilintar de moedas nos bolsos da ganga enxovalhada. Ao receber o que Mireu lhe atirara, a cadeira pareceu mudar de feição, como alguém que subitamente e por vergonha olha em todas as direcções, inclinando depois a cabeça invisível para a frente, a fim de mirar a almofada que tinha no regaço ou o bico erecto do próprio seio.
Mireu teve a nítida sensação de observar um leve, suave, quase indizível rubor na face da cadeira de vimes que, nessa altura exacta, pareceu fechar os olhos, como numa íntima aceitação de um prazer repentino.
Nas costas da cadeira, entrelaçavam-se os vimes, sobrepunham-se, chocavam-se, perdiam-se em rumos certos, previstos, como os dias reduzidos a números no vazio do mundo.



4

Junto ao sofá, de riscas pretas e brancas, cresceu uma árvore dentro de casa, num vaso estrategicamente colocado perto da janela. Ao longo do tempo, com método e paciência, irrompeu pela terra, levantando ligeira nuvens de pó, que se haviam de ir juntar àquelas que a tempestade semeara.
Com ramos secos, mas firmes e vibrantes, a árvore cresceu envolta num silêncio aflito e perturbador, como se não pudesse descansar enquanto não atingisse o limite. Parou quando as folhas e os ramos mais altos tocaram o tecto ressequido da casa.
Havia ocasiões em que a árvore parecia de vidro, como se para evitar que a tarde de chumbo explodisse nos seus ramos.
Um dia, estava Arueta a descansar reclinada no sofá, quando entrou pela casa dentro um homem baixo, de cerrada barba negra e pele muito branca. Antes que alguém lhe pudesse dizer alguma coisa, escondeu-se atrás da árvore e poucos segundos após deu um salto em frente, perguntando:
– Já reparaste no meu presente? Esta árvore cresceu aqui porque todos os dias me dou ao trabalho de a regar para ti. É uma forma de estar contigo. Acredito que não estavas à espera de me ver. Se calhar, pensaste que eu me tinha perdido na tempestade. Será que, no fundo, preferes que eu desapareça? Serei assim tão incómodo? Dá a impressão de viveres como se eu não existisse. Não podes adiar a verdade eternamente. De certa forma, creio que andas a esconder o que sentes. Mas até quando o farás? Até quando terei que esperar pelo fim da tua indecisão? Não seria mais interessante assumires o que sentes? Há tanto tempo que me vejo obrigado a esconder os meus sentimentos, só para não colidir com a tua vida. Às vezes, penso que sou mesmo um fantasma, à espera de que me procures, à espera de que dês com os meus olhos a piscar por entre este nevoeiro de pó que nos caiu em cima. Dei todas as voltas possíveis e imaginárias à cabeça pensando em algo que te fizesse feliz. Descobri que podia ser uma árvore, esta árvore, que fiz crescer, mesmo em condições adversas. Julguei que adivinharias as minhas intenções e que te sentirias impressionada pelo meu poder. Há anos que procuro mil e um caminhos para chegar a ti, sempre em vão. Mas, agora, agora que chegámos a um ponto em que não sabemos quanto mais tempo teremos de vida, pensei que, ao veres-me, te lançarias ao meu pescoço e me cobririas de beijos. Afinal, estás muda como um desenho. Como sempre estiveste. Que mais hei-de fazer para te possuir?
– Continuas a ser uma criança – replicou Arueta, ao fim de um tempo. – O que tu queres é arreliar-me, Artujo. Como chegaste aqui? Realmente, pensei que não voltaríamos a ver-nos.
– Venho salvar-te – disse Artujo. – Venho arrancar-te ao perigo deste calor, deste sei lá… Se vieres comigo, levamos também a árvore. Não quero que te sintas só. Arrisquei a pele por ti de uma forma que já ninguém faz. Venci todos os obstáculos, todos os medos, todas as perseguições. Vamos para outro lado. Esta cidade já não tem remédio. As notícias sobre o futuro são assustadoras. De que estás à espera, Arueta? De um milagre?
– Não quero ir, Artujo. Não saio daqui. Quero ver e entender tudo até ao fim. Não me interessa acompanhar a morte à distância. Prefiro vivê-la de perto. Quando a vida era normal nas cidades, esquecíamos as coisas com facilidade, perdíamos o fio à meada, vivíamos maquinalmente, vivíamos quase só por viver ou quase só por nos terem trazido ao mundo. Quando o movimento da Terra fazia que o Sol se levantasse e se pusesse, sabíamos sempre que era assim e era assado, tudo estava previsto, calculado, medido a cronómetro, espiado pelas máquinas. A natureza perdera a sua graça. Poucas surpresas já nos eram reservadas. Agora, é diferente. O calor veio maior do que nunca e mudou o curso normal das coisas. Tudo passou a ter um significado próprio e inesperado. Agora, vê-se mais claramente, apesar da poeira. Esta poeira é como se não fosse poeira. Este crepúsculo permanente que desabou sobre nós como uma estrela estilhaçando-se contra as casas é uma outra forma de ver mais longe. Ao menos, agora, fica tudo às claras. Este inferno assusta, é certo, mas faz-nos ver o que antes não víamos e julgávamos ver. Estou bem assim, meu caro Artujo. Sinto-me tão bem que não quero ir contigo a parte alguma. Ficarei nesta casa até ao fim, até ao instante do último suspiro. Aqui, vou saboreando as coisas que sucedem em visíveis acidentes perpétuos. Esta tragédia, ao menos, teve a virtude de acabar com uma vida sempre igual, de acabar com a monotonia, o cansaço, os dias sensaborões. Deixa-me gozar este calor! Quero sufocar aqui mesmo. O amor é esta espontaneidade macia e dócil como a poeira. Gosto muito da tua árvore. É, sem dúvida, uma forma original de me amares. Mas não me apetece discutir contigo indefinidamente. Se antes nunca me decidi por ti, não é agora que o vou fazer. Tens a tua vida, eu tenho a minha. Para te dizer a verdade, neste momento, só me apetece comer. Estou com uma fome danada. Há carne e salsichas no frigorífico. Faz qualquer coisa e vê lá se perdes essas manias ultrapassadas de transpor o cinema para a realidade.
Como se estivesse em sua própria casa, Artujo dirigiu-se à cozinha, rodou o botão de gás do fogão, premiu-o, deixou sair o gás como um zumbido de libélula e permitiu que a chama saltasse, fazendo pum e pondo-se a dançar como uma bailarina desengonçada.



5

Terrez apareceu, entrando sem bater à porta, como sempre, e trazendo ao ombro uma velha bicicleta enferrujada, sem pedais nem pneus, nem assento, só com o quadro e os arcos das rodas. Encostou-a à parede, no lado oposto onde se encontrava a árvore, voltou a sair e, de regresso, trouxe duas abóboras, colocando-as silenciosamente no chão, uma de cada lado da bicicleta. Depois, sentou-se no sofá e pôs-se a coçar a cabeça com a polpa dos dedos.
Arueta disse-lhe:
– Tira a camisola, Terrez. Não sei como suportas este calor – e, enquanto falava, avançou para o velho e desatou a puxar-lhe a camisola de lã, tentando tirá-la pelo pescoço.
Terrez ficou de braços no ar, como se alguém lhe apontasse uma arma, e dizia:
– Olha que isto, para mim, é uma brincadeira, Arueta. Qual calor, qual treta! Não vês que o amor é mesmo assim?
Arueta puxava, puxava, fazendo rir Terrez de rosto enterrado na camisola.
Mas, de repente, o velho paralisou os braços e os risos. Tinha o corpo tenso e duro como o tronco de um castanheiro. Teve uma visão: estava acocorado no peitoril de uma janela, pelo lado de dentro, e ele, sempre ele, inclinando a cabeça para trás. O calor secava-lhe a garganta apertada, contraída por uma grande emoção. A janela aonde Terrez subira não tinha vidros, estava aberta de par em par, mas não se podia sair por ela. Era como se tivesse barras sem as ter. Um cheiro galopante, cheiro a pólvora e cavalos, entrou-lhe violentamente pelas narinas dilatadas.
– Os cavalos…, a pólvora… – disse Terrez, ao mesmo tempo que se atirava aos pulos sobre o sofá, com a camisola enfiada na cabeça e os braços erguidos, imitando o voo de uma ave. Arueta pediu-lhe que se deixasse daquilo, que saísse dali, mas sem resultado. Terrez não a ouvia. Estava longe, muito longe. Saltou do sofá para o chão do cubículo a que a sua visão o transportara e estendeu-se sobre o cimento com os cheiros das coisas agigantando-se indefinidamente.
Juntou algumas cascas de laranja dispersas pelo quarto e pôs-se a trincá-las como quem saboreia um chocolate. Dentro de um sapato, encontrou duas latas de conserva. Abriu-as e levou-as à boca, golpeando os lábios, mas sem ligar ao sangue que lhe escorria pelo queixo. Comeu as sardinhas avidamente e despejou o azeite pelas goelas, de olhos fechados, parecendo imaginar que aquilo podia mesmo ser cerveja.
Ouviu-se bater uma porta. Muitas portas. Nitidamente, alguém batia em portas com vigor e desespero. Portas longínquas, mas próximas. Ouviam-se vozes, gemidos, gritos, que se confundiam com o eco das mãos batendo na superfície metálica das tardes quentes.
Terrez descontraiu-se. Despiu a camisola de lã, para fazer a vontade a Arueta. Depois, tirou também as calças e o resto. A seguir, levantou-se do sofá, e disse:
– Por uma destas é que eu não esperava! Pensei que já tinha esquecido esta visão. Por favor, tragam-me o esquecimento e tudo se resolverá. Estou lixado. Agora é que são elas. Mas, afinal, que estou aqui a fazer? Que vergonha! Estou murcho, murcho como um figo passado.
Terrez foi à porta, esquecendo-se por completo da presença de Arueta, bem como da bicicleta e das abóboras que trouxera, e saiu, abalando nu para dentro da cidade, até desaparecer ao longe por entre o pó agitado, aos pulinhos como se o vento o levasse, mas vento não havia depois do grande clarão. Só crepúsculo e casas desmoronando-se.



6

Ouviu-se um barulho no exterior da casa. Mireu foi à porta que dava para o pátio e, com a mão sobre o trinco, espreitou pelo minúsculo olho de vidro incrustado na madeira: do outro lado, estavam três corpos arredondados, como se figuras de plástico insufladas de ar, abauladas, escuras. Gente de uma deselegância assustadora e macabra. Mireu hesitou. Mas acabou por abrir, sustendo-se muito pálido. Os três corpos mantinham a aparência deformada e bruta que ele visionara antes de abrir a porta e que julgara ser causada pela superfície convexa do olho de vidro. Eram realmente monstruosos e, agora, a dois passos dele, sem a barreira da porta pelo meio, algo os tornava ainda mais repelentes: os olhos. Enormes, os olhos, quase saltando das órbitas, raiados por veios cor de lilás que se entrecruzavam em todas as direcções e dividiam as pupilas e íris em pequeníssimos gomos de cereja ou cristais de sangue. Amparavam-se uns aos outros pelos braços e ombros, as pernas sumindo-se nas roupas esfarrapadas. À volta dos tornozelos, saltavam à vista feridas arroxeadas do tamanho de maçãs, como se aqueles seres, antes presos por correias electrificadas às cadeiras da morte, tivessem escapado às primeiras descargas desferidas pelo carrasco. Mireu coçou uma perna e massajou o músculo retraído.
Um dos homens quebrou o silêncio:
– Na estação, indicaram-nos esta casa. O calor está insuportável. Viemos bater à sua porta porque não temos para onde ir. Dê-nos abrigo!
– Não estou a perceber – retorquiu Mireu. – Indicaram-lhes a minha casa na estação? Mas quem? Quem lhes indicou a minha casa? Quem se atreveu a isso? Que pensam vocês que isto é aqui? Um hotel? Estão muito enganados. A minha casa é bastante pequena e não está preparada para servir de abrigo a ninguém!
– Temos falta de ar – disse o homem do meio. – E estamos inchados por causa do calor. Queremos ar! Só ar! Dê-nos um pouco do seu ar. Nem precisamos de comer. Este calor é o fim. Até a morte seria bastante melhor do que esta situação. Não temos maneira de voltar para casa. Ardeu tudo. Perdemos filhos, mulheres e bens. Deixe-nos apenas descansar em sua casa, para podermos respirar melhor. Estamos vivos, como pode verificar. Mas há quem diga que somos almas penadas!
– Isto quer dizer que também corro o risco de ficar sem ar. Não me encontro em melhor situação do que vocês. Se vos deixo consumir o meu ar, acabo por ficar com menos reservas. Mas se acham que a morte é preferível a esta situação, de que estão à espera para resolver o assunto?
– Isso queríamos nós! – responderam os três em uníssono. – No entanto, morrer não é tão fácil como parece. Além disso, não podemos ter a certeza de que, depois de mortos, não continuaremos a respirar. Depois desta catástrofe, tudo mudou. Já nada é como era. Temos que desconfiar, temos que desconfiar…, meu amigo. Ainda há pouco ouvimos dizer que não há diferença entre um cadáver e um ser vivo. Ou porque não havemos de pensar que os cadáveres estão vivos como nós, só que respiram calor em vez de ar? Calor, sempre calor é o que encontramos em toda a parte. Passamos a respirar calor como os cadáveres, quase sem darmos por isso, e, a certa altura, deixamos de existir simplesmente. Onde fica a morte no meio de tudo isto? Vem aos poucos ou vem de repente?
– O que me parece é que estou perante três cadáveres andantes! – disse Mireu.
– Não! Ainda não! – protestou o primeiro a contar da esquerda. – Ainda respiramos calor misturado com os restos de ar que escasseia na cidade. Só quando entrarmos na fase em que respiraremos exclusivamente calor passaremos a ser considerados cadáveres. Mas é bem possível que continuemos a respirar mesmo depois de mortos. Não sei se digo isto por influência da situação em que nos encontramos ou se as minhas palavras fazem mesmo algum sentido. Ouve-se dizer muita coisa desde que aconteceu esta desgraça. E não sabemos em que havemos de acreditar. Já nos disseram que a morte consiste apenas na subida da temperatura dos corpos, lançando todos os seres em agonia. E garantem-nos que esta é a pior morte que pode haver. Depois, passamos directamente do estado de agonia ao de poeira.
– Tenho de fechar a porta – disse Mireu – de contrário, o pouco ar que ainda tenho dentro de casa escoar-se-á.
– Deixe-nos entrar por uns momentos, só por um instante – pediram os homens.
– Cá dentro, também tenho problemas de calor – ripostou Mireu. – Isto não tem solução. Vocês não são os únicos a precisar de ar. Ainda quero fazer uma quantidade de coisas.
Os homens, porém, não desistiram. Avançaram e forçaram a porta, por detrás da qual Mireu se refugiou. Na escaramuça que se seguiu, os homens rolaram sobre os degraus da escada de madeira e caíram de costas no pátio, de bocas abertas, secas, as línguas contorcendo-se para lá das gengivas desdentadas, saboreando o calor por entre gritos que faziam eco na carroçaria do automóvel alaranjado de velhice.
No pátio, cheirava a carne queimada e borracha. Os três corpos jaziam estendidos no asfalto, a pele rebentando aos poucos, arroxeando nas articulações, clareando nas superfícies mais lisas e moles.
Mireu foi espreitar pela janela: os ventres dos monstros respiravam, iam abaixo e acima, abaixo e acima, os ventres dos cadáveres agonizando.



7

Era um resfolegar aflito, assanhado, do outro lado da vidraça, que ficava mesmo à beira da cama. Um gato miava com insistência lançando olhares de fogo para dentro de casa, enquanto saltitava no peitoril exterior da janela. O bicho estava eriçado, como se os seus pêlos fossem milhares de agulhas afiadas prontas a fazer estoirar a atmosfera, movendo a cabeça em círculos, agitando a cauda, mostrando os dentes aguçados.
Arueta dormia, com a mão direita fechada e o dedo indicador espetado, parecendo adivinhar um destino em que a casa surgiria renovada, completamente outra, para lá do tempo, um destino no qual Mireu se havia de perder para todo o sempre.
Mireu estava de papo para o ar, dormindo a seu lado e tossindo. Tossir era um dos seus hábitos quando dormia.
Arueta e Mireu estavam muito próximos um do outro, permitindo que os lábios dela roçassem no ombro esquerdo dele.
O gato não desistia e investia ferozmente contra a vidraça empoeirada, expelindo sons numa linguagem qualquer, da qual ficava a impressão de se entender algumas expressões, mas que perdiam o sentido no meio da irritação do animal.
Atraído pelo barulho, um vulto destacou-se, vindo do fundo da casa, um vulto de alguém visivelmente incomodado pela poeira e claridade baça do crepúsculo. Era o vulto de uma mulher, que não era ainda bem mulher, embora não se pudesse dizer que fosse menina. Tinha os seios pequenos, salientes, pontiagudos e trazia uma saia quase transparente que deixava ver a forma elegante das ancas.
Tinha o ar de se chamar Luana, e assim era. Dirigiu-se primeiro à janela e, depois, subiu para a cama onde Arueta e Mireu dormiam, procurando esquecer a tempestade que mudara tudo. Luana fez um sinal ao gato, comprimindo o dedo indicador da mão direita sobre os lábios carnudos. Em seguida, quase flutuando sobre a cama, pôs-se a fazer gestos, como se dizendo:
– Acalma-te, deixa-te de coisas, não tens nada que estar aí a espiar, vai-te embora, desaparece, não perturbes a vida de quem tem mais que fazer.
Luana abriu as duas mãos e ergueu-as à altura do rosto. Contou pelos dedos qualquer coisa, qualquer ideia que lhe surgiu, procurando desviar a atenção do felino enraivecido. Apontou para a cidade. O gato olhava, ora para a urbe devastada, ora para os sinais que Luana lhe fazia, enquanto ia progressivamente acalmando, deixando de miar, serenando. E sentou-se na janela, à espera da madrugada.
Luana desceu cuidadosamente da cama, calçou as pantufas de Mireu e saiu do quarto pé ante pé. Atravessou a cozinha, flanqueou a porta de entrada da casa, que rangeu, quase se desconjuntando. O gato entrou e saltou para os braços de Luana, que o beijou nas orelhas, nos olhos inflamados, enquanto voltava a colocar as pantufas junto à cama onde Arueta e Mireu dormiam, e desapareceu com o gato para os fundos da casa, para lá da porta do quarto onde se ocultavam as sombras móveis, de repente fixas, ondulantes.



8

Dois alguidares de barro, com bordas retorcidas, foram postos sobre a mesa. Nícora pôs-lhes farinha dentro e, depois, Zava tratou de lhes vazar as doses certas de manteiga. Nícora voltou com um grande saco de açúcar e despejou metade em cada alguidar. Acrescentaram mais alguns gestos ao ritual e puseram-se as duas com as mãos dentro da massa, calcando, espremendo, calcando, espremendo. Ritmicamente, davam socos, puxões e abanos de meter dó na massa disforme em que as suas mãos se misturavam. Foram desaparecendo os grânulos e bolhas iniciais. A massa tornou-se mole e elástica. Nícora e Zava puxavam-lhes as faces, como se fossem bochechas, e sacudiam-nas contra as bordas dos alguidares. Derramaram leite sobre a massa estafada e pálida.
No fim de tudo, estavam as duas mulheres cansadas, mas por detrás das bagas de suor adivinhava-se prazer nos seus rostos. Nícora e Zava tinham línguas de massa coladas às mãos e pulsos, como tumores na pele.
No lavatório, ouviu-se o barulho da água no chuveiro, batendo contra os azulejos subitamente despertos. As mulheres riam e falavam alegremente, ensaboando os corpos nus. As suas palavras saltitavam molhadas e respigavam contra as paredes escorregadias da banheira.
– Às vezes, ponho-me a pensar… – disse Zava. – Ponho-me a pensar na paz das coisas que, muitas vezes, não é paz nenhuma. Repara que os azulejos reagem aos respingos da água como se repetissem com ironia as palavras inúteis que dizemos! As coisas paradas à nossa volta captam aspectos que nos escapam. Estamos sempre a mexer, enquanto os objectos se limitam a olhar, observar, analisar, para compreender melhor o que se passa. Distraímo-nos com todo o tipo de palavreado, deixamo-nos levar facilmente por delírios, conjecturas, pressentimentos.
Enquanto ensaboava um dos ombros, deu ideia de que Nícora se preparava para acariciar o seio esquerdo de Zava, mas o esboço do gesto não passou de uma simples ilusão.
– O nosso cérebro é maior do que o dos outros animais – continuou Zava – embora esse crescimento seja provocado por uma sabedoria falsa que a nada nos tem conduzido. Quando alguma coisa cresce sob pressão de um estímulo artificial torna-se uma realidade estranha ao equilíbrio e ao discernimento. Não será o pensamento esse artifício? A passividade dá-nos um profundo entendimento da vida. As coisas estáticas, inanimadas, vivem em perfeita harmonia, não entram em conflitos, não se atropelam umas às outras, não são afectadas por neuroses nem por outras doenças mentais. Não trabalham, não mexem, não vivem em permanente angústia. Quem me dera ser um azulejo, um bidé, uma torneira.
– Apetece-me tocar-te e apalpar-te – disse Nícora. – Mas tenho receio que interpretes mal o meu gesto. Prefiro tocar-te do que tocar numa mesa ou numa vidraça. Sei que tens sangue correndo dentro de ti e um coração pulsando no peito. És quente e vibrante, ao contrário da maioria dos objectos que nos rodeiam. Tens alma, sensibilidade, inteligência. Prefiro a carne viva, mesmo que eu não tenha coragem de fazer deslizar as minhas mãos com o sabonete sobre a tua pele. Mesmo assim, és tudo, agora, és tudo o que me rodeia, tudo o que conta. A vida reduz-se a nós as duas nesta banheira, vivendo sob a mesma água, embora cada uma no seu mundo íntimo. O tempo parece ter parado, é certo. Ou terá sido o sol, o dia, não interessa. Pode ser tudo uma impressão nossa, uma vivência passageira para a qual ninguém estava preparado. Se tivesse sido assim desde o princípio, se esta fosse realmente a regra das nossas vidas, não teríamos envelhecido tão depressa. E podemos mesmo especular sobre a possibilidade de neste intervalo de tempo as nossas células não se encontrarem em processo de degradação. Como vês, nem tudo é negativo no actual estado de coisas. Talvez por isso eu te sinta mais viva e vibrante neste momento. Repara que, agora, não nos damos conta de qualquer monotonia, apesar de nada de especial estar a acontecer entre nós, só a água correndo no chuveiro. O que irritava era a anterior agitação da cidade, por contraste com o tempo de harmonia que agora partilhamos.
– Esfrega-me as costas – pediu Zava, voltando os rins para Nícora. – Às vezes, sinto que sou tantas coisas ao mesmo tempo; às vezes, julgo que posso ter tudo o que os meus olhos atingem. É como se tivesse dezanove sentidos – ia dizendo Zava, enquanto Nícora lhe ensaboava as costas meigamente.
Os dois alguidares continuavam imóveis sobre a mesa, envoltos por grossas mantas, entaladas entre o barro e a madeira. A massa levedava sem se dar conta, pouco a pouco, de forma invisível, até que, ao fim do dia, havia inchado como uma mulher à espera do parto.
Na cozinha, Nícora surgiu em trajes menores, nervosa e apressada, a fim de apagar o fogão, em cujo forno um frango assava, indiferente ao que acontecia em redor.
O calor que envolvia a cidade fazia lembrar o inferno. A memória das labaredas medonhas permanecia, deixava-se estar, quer os relógios estivessem parados ou em movimento, assentava como a própria existência na alma das coisas, uma existência para além da qual só havia ser, sempre existência.



9

As ruas estendiam-se, desertas, entrecruzando-se em esquinas abandonadas à inquietação dos reflexos. Viam-se algumas flores dispersas, doentes, sufocadas, com a cor dos moinhos de vento, refugiadas nos canteiros desta ou daquela casa. Do antigo jardim, que ficava a meia-dúzia de passos da casa de Mireu, nada restava. A verdura sumira, afundando-se na tristeza da cidade.
Mais do que a ausência de pessoas, era a maneira estranha como as casas se olhavam na ligeira obscuridade do pôr-do-sol que deixava aquela sensação de abandono a quem se atrevia a andar na rua. A cor acobreada dos dias levava a uma invulgar comunicação entre as coisas. Os postes de luz, o alcatrão das ruas, as pedras desalinhadas de quando as crianças brincavam nos parques, os muros baixos de cabeleira desgrenhada, tudo isso convergia para as casas silenciosamente inquietas. Nas janelas, cicatrizes de poeira infiltravam-se pelas vidraças. As casas alinhadas ao longo das ruas deixavam um hálito de agonia pairando sobre a cidade.
Arueta caminhava por uma ruela aparentemente sem direcção. Detinha-se junto às árvores secas, encostava-se aos seus troncos esfomeados, mas firmes, ainda. Escorregava as mãos numa carícia pelas rugas que o calor deixara nas árvores. Passeava, indiferente aos efeitos e perigos da tempestade. Depois de um período em que praticamente não saiu de casa, receosa dos acontecimentos, decidiu sair para ver realmente o que se passava. Os seus movimentos davam mostras de uma profunda compreensão das coisas, como se o seu ventre fosse a chave para a porta do entendimento.
¬¬– Mireu é um insatisfeito e não sei o que verdadeiramente procura – murmurou Arueta, olhando a copa despida de um arbusto. – Nada pode existir para além desta tempestade. No fundo, é inútil procurar ter ideias sobre as coisas. Nunca se chega a qualquer conclusão alimentando teorias e raciocínios. Pensar, pensar, tem sido o mal dos Homens. Para quê pensar se temos tanto para fazer à nossa volta? O único conhecimento possível está em tocar e sentir as coisas como elas são. O resto não interessa. Não dependo de Mireu no que quer que seja. Nunca admitiria uma tal situação. Até na cama posso substitui-lo com a maior das facilidades. Se um dia quiser ter um filho, não me faltarão maneiras de o conseguir.
Arueta vislumbrou qualquer coisa na porta de uma casa. Era um bilhete, suspenso num pedaço de adesivo amarelado. Leu-o, guardou-o e sentou-se pensativa num degrau do patamar, com os cotovelos nos joelhos e o queixo apoiado nas mãos. À sua frente, via-se o parque infantil, sem crianças a pular. Mas o parque lá estava, existia, fazendo recordar bibes, calças, camisas, saias, deslizando vertiginosamente nos escorregadouros, viajando em círculos mirabolantes no carrossel. O parque lembrava era uma roda-viva, mesmo na ausência de crianças. Os corpos haviam dado lugar ao calor que, para aumentar o inferno, parecia vestido com roupas coloridas de crianças mortas, desaparecidas. Rodopiando sobre o seu eixo, o cogumelo enferrujado parecia uma nova maneira de pôr a roupa a secar.
Arueta tomou o caminho do areal, evitando com os pés as feridas do alcatrão abrasador. Na berma das ruas, viam-se ramos secos caídos sobre a relva enegrecida, sacos de lixo esburacados por cães vadios, automóveis abandonados às portas das garagens. Dos esgotos, vinha um cheiro insuportável a galinhas assadas.
Arueta sentou-se sobre a areia molhada, vendo a água amolecer à sua frente em ondas frágeis. A agonia prolongava-se da cidade para o mar imenso. Observou em volta para se certificar se realmente a tempestade que desabara sobre as casas conseguira roubar às ondas a força da espuma. Percorreu com os olhos as ruas cheias de lixo, os carros parados, as casas com aquele meio sorriso dos cadáveres e as esquinas de longe sabendo a cinza.
Arueta levantou-se. Não conseguia estar sentada por muito tempo. Havia no ar moribundo um peso que a angustiava. O sol do crepúsculo espreitou por entre a colcha maciça de nuvens, fazendo brilhar algumas estrelas de suor na sua pele. As manchas de óleo no mar faziam lembrar pequenas lagoas de prata, mas o dia não demorou a sua eterna cor de chocolate enferrujado.
Arueta regressou a casa, sem mais nada, cantarolando, apenas, em bemóis sussurrados nos lábios secos. A sua saia ondulava, como se a alegria e a espuma anteriores à tempestade tivessem passado do mar para o corpo dela. Uma vaga, ténue esperança, animava-lhe os passos, em contraste com a cidade calorenta e arruinada.



10

Artujo desatou a vomitar no meio do quarto, salpicando o tapete de corda de pequenas bolhas amarelas. Gemia e contorcia-se, protegia o estômago com as mãos. Havia uma lama pastosa tipo mel sobre o soalho. Artujo meteu os dedos na boca e vomitou mais como se gostasse do que fazia.
– O arvoredo – disse Artujo. – É o arvoredo, Zava! Porque não hei-de falar nestas coisas? De que vale engolir em seco toda a vida?
Artujo insistia que era importante, pedia que ela o ouvisse, e dizia que tinha a nítida recordação de se atirar em desatino por entre o arvoredo, de esfolar os joelhos, de violar com os pés a folhagem seca, que era uma espécie de algodão sobre a terra fria e fresca. Andava sempre com os sapatos cheios de nódoas, explicava ele, e partia os galhos das árvores com as mãos como se atacado por uma febre que o fazia respirar em excesso. Encontrava cogumelos repousando à sombra da tarde, fugindo logo a seguir, petrificado de medo. Diziam-lhe que era o pão do demónio e ele acreditava. Fugia como se visse o demónio em pessoa. As pedras musgosas dos muros enevoavam-lhe os olhos. Procurava subir as paredes agarrando-se à saliência das pedras, escorregava, caía, batendo com a nuca na terra dura. Levantava-se, corria vingativamente contra o vento, contra o tempo, galgando pequenas colinas que o rebentavam por dentro. Enfiava as mãos na terra e vinham-lhe raízes coladas nos dedos. Procurava ovos de galinha em toda a parte.
Certa vez, sentou-se, estafado e desiludido. Fechou os olhos. Ao abri-los, mais tarde, viu a seu lado quatro ovos brancos como bolas de golfe. Pegou neles e desatou a correr aos gritos pela vereda. As moscas tropeçavam-lhe na garganta, o suor ardia-lhe como sumo de limão debaixo dos braços. Deixou os ovos entre os lençóis de Luana, que ainda dormia, e foi esconder-se o resto da tarde na cova do castanheiro, rodeado de espadanas que lhe rodeavam a intimidade, à espera de Luana dentro da camisa suja.
Quando ela chegou, trazia figos passados nas mãos esguias e brancas. Sentou-se junto dele e ambos se puseram a comer os figos. Artujo mirou-lhe os joelhos e aproximou-se dela para lhe cheirar os cabelos. Levantou-lhe a saia e acariciou-lhe as pernas brancas. Vigiou por entre a verdura, para se certificar de que estavam realmente sós e disse:
– Mostra-me a tua coisa…
Ela acendeu os olhos, como se esperasse por aquele pedido há muito tempo e respondeu que o corpo dele cheirava a areia da praia. Depois, Luana deitou a cabeça sobre as pernas de Artujo e os seus cabelos pareciam um bocado de noite que o vento fizera desprender do castanheiro. Ela desapertou-lhe o cinto, desabotoou-lhe as calças, puxando-as para os joelhos, beijou-lhe as pernas, o que lhe aumentou o ritmo respiratório como se lhe tivessem chicoteado o coração e desatou a lambê-lo, enquanto falava do areal. Disse várias vezes que o corpo dele era um areal. Andou às voltas com a língua nos seus joelhos, prometendo que nunca o esqueceria.
– És a pessoa mais importante da minha vida – garantiu Luana, com olhos de quem fazia uma jura para a eternidade e fazendo que a sua saliva deixasse sobre as pernas dele veios de humidade e brilho como os caracóis. Artujo esbugalhou os olhos para o céu e viu as nuvens passando alto e rindo a bandeiras despregadas do prazer que Luana semeava na sua vida. Estendeu uma mão e acariciou os lábios de Luana, que toda se desvaneceu, arrepiada com o gesto dele. A seguir, ela agarrou-lhe um dos dedos com os dentes e mordeu-o nas articulações. O dedo de Artujo parecia uma lagartixa na boca de Luana, um animal de vento que se perdia na superfície húmida da sua língua sem limites. Luana engoliu-lhe o dedo até à garganta, prometendo amor e beijos, à sombra da verdura oscilante.
– Quero o teu mel – dizia ela, nos intervalos em que tirava e metia na boca o dedo de Artujo. – Quero o teu mel e tudo o que tens dentro de ti…
Mas Artujo não ouvia nada, nem podia ouvir, porque estava quase inconsciente de ter na boca o dedo de Luana. Nunca lhe tinha acontecido uma sensação daquelas. O calor da garganta de Luana inundava-lhe os sentidos até perder a noção do que se passava.
Ela levantou-se e foi sentar-se junto às grossas raízes do castanheiro, que pareceu cambalear na sua grandeza, como se empurrado por uma vertigem mais aguda. E sem que nada o fizesse prever, ela desceu as calcinhas, acocorou-se e urinou sobre a terra, fazendo um minúsculo ribeiro que descia por entre os insignificantes acidentes do solo.
Artujo não se atreveu a olhar, como se dele dependesse o destino do mundo, ou como se o seu futuro pudesse atravessá-lo naquele preciso instante.
¬– Não te esqueças desta parte, agora – disse Artujo para Zava – porque tenho as palavras exactas para descrever o que então se passava nesses dias em que o meu amor por Luana era alimentado sob o segredo de um castanheiro.
Ao entardecer, partíamos de corpos frescos como duas aves rebocando nuvens e como se nada antes tivesse acontecido ou a vida se resumisse àquele momento sem história. Então, debruçávamo-nos os dois à janela da casa e esperávamos, esperávamos horas, até que surgissem as ovelhas, e até que passassem, até que desaparecessem na curva mais longínqua da estrada. Talvez não acredites, Zava, mas a verdade é que não tínhamos a mínima dúvida de que as ovelhas, ao passarem diante da janela, nos saudavam do fundo da alma, com os seus guizos estridentes e os seus olhares matreiros, por detrás dos quais se ocultavam as mais indizíveis cogitações.



11

Silécio estava recostado sobre a cama e não dizia palavra. A seu lado, Artujo falava sem compassos de espera, gesticulando exageradamente com as mãos. Estava desfigurado, como se não soubesse onde encontrar forças para suportar o calor. Tinha os cabelos e a barba quase por completo derretidos.
Silécio olhava-o insistentemente, como era seu costume fazer, mas sempre calado e sem esboçar qualquer reacção. Silécio não era, evidentemente, uma pessoa comum. Tinha pernas esguias e longas como as mulheres mais belas, ancas salientes, rigorosamente desenhadas. O peito peludo, o nariz achatado, braços musculados. Usava o cabelo cortado à escovinha e a face completamente rapada. Olhos muito claros, quase transparentes. Andava sempre de tronco nu e dos seus ombros corria uma espécie de água que escorria por entre os pêlos do peito até aos mamilos e umbigo. Era transpiração. Mas uma transpiração pesada, carregada de momentos por explicar. Nunca emitia juízo ou palavra, mas sabia-se que não era uma simples estátua pela água que lhe corria dos ombros (uma água que o calor nunca tivera artes de secar) e por alguns acessos de fúria que o levavam a percorrer toda a casa, movimentando os braços em círculos, apontando coisas, dizendo que “não” e “sim” com a cabeça, ajoelhando-se, deitando-se, rebolando no chão. Tudo isto sem o menor som ou ruído.
Artujo, por seu lado, falava como se Silécio fosse seu amigo de há longa data:
– Estávamos sentados na casa da lenha, o velho e eu, no meio do silêncio e da escuridão. A casa era feita de grandes pedregulhos, que deixavam passar a claridade da noite pelas reentrâncias desguarnecidas. A porta era uma simples abertura na parede, que dava para a quinta e nos deixava ver as estrelas luminosas que percorriam o céu, estás a ouvir-me Silécio? – perguntava Artujo, desconfiado de não ter a atenção do outro. – A certa altura, perguntei ao velho Terrez se ele pensava que os homens viriam naquela noite. Era natural que ele soubesse melhor do que eu. Terrez respondeu-me que devíamos estar atentos a ver se detectávamos algum rastejar sobre a fuligem. Depois, calou-se, apesar de eu lhe ter perguntado o que tencionava fazer quando os homens aparecessem. Creio que Terrez não tinha ideias muito claras sobre o assunto. A casa onde pernoitávamos estava praticamente em ruínas. No tecto, havia teias de aranhas dependuradas como estalactites de nylon. Com o vento, os fios das teias balouçavam e roçavam o nariz de Terrez, que se mexia, aborrecido, tapando o rosto com as mãos, invadido de repente por uma culpa insuportável. O vento chegava a sacudir-lhe a cabeça, embora aquele me parecesse um vento fraco, o que me fez então pôr a hipótese da leveza das ideias de Terrez. Estávamos deitados sobre a lenha. Terrez puxou o chapéu para os olhos e reclinou a nuca sobre as mãos cruzadas. Mas reparei que ele não dormia. Mais tarde, estava eu quase a adormecer, quando o vi soerguer-se e acender um fósforo, sem razão aparente. Terrez tinha manias assim, fazia coisas absurdas, com frequência. Quando riscou o fósforo, uma nuvem de pó de ouro surgiu entre o meu rosto e o dele. “Lembra a tua mãe para dar de comer aos porcos!”, disse-me Terrez. Nessa mesma altura, ouvi ladrar na horta. Ouvi mesmo ladrar e fiquei com um medo que nem calculas. Terrez disse-me que aquilo não era nada, que fora simples impressão minha. Mas não me satisfiz e fui à porta vigiar. Sabes o que vi? Fumo, muito fumo, fumo branco subindo na noite. Corri logo a avisar Terrez. Ele foi ver e respondeu-me que aquilo não era fumo nenhum. “Aquilo são nuvens, meu palhoco”, explicou. No outro dia, acordámos com um cheiro a sangue invadindo a casa da lenha. Corremos os dois para a horta. Entre os caules esmagados e o verde áspero das folhas rasteiras pisadas, havia melancias destruídas, mortas, esquartejadas, com marcas de dentes e dedos humanos. O sumo vermelho parecia sangue escorrendo tristemente por entre os poros da terra. Estava um dia muito claro, mas não víamos o sol, não, isso não víamos. Terrez chorava em altos berros e eu também. Pensei que ele estava com mais medo do que eu, mas hoje não tenho a certeza de ter sido mesmo assim. Terrez afastou-se das melancias decepadas e caminhou para uma parede lateral da quinta. Nessa altura, pensei que ele tinha perdido o juízo. Mas eu estava enganado. Pelo menos, naquela altura, eu estava redondamente enganado. Dirigindo-se sempre para a parede, Terrez continuava a fixar a casa da lenha, com uma mão sobre os olhos, procurando evitar as feridas que a luz intensa provocava. Junto à parede, abriu a braguilha e pôs-se a urinar contra os musgos e as pedras.
Silécio desaparecera sem que Artujo se desse conta. Mas voltou. Tinha ido buscar uma laranja, que se pôs a descascar.
– Não ouviste o resto da história – disse Artujo.
Silécio não respondeu. Partiu a laranja em duas, oferecendo a Artujo uma das metades. Comeram os dois. E ficaram a olhar-se, sem palavras.



12

– Tenho ouvido ruídos esquisitos dentro de casa e lá por fora – disse Mireu. – Se há ruídos é porque há movimento e que é a vida se não o movimento das coisas? Não consigo tirar da ideia o que me disseram aqueles monstros acerca da agonia e do calor.
Mireu achava ter agora os dados suficientes para encontrar uma solução para o problema da morte. Observando bem o que se passava na cidade, dava a impressão de os corpos, as casas, as sombras, os reflexos, os detritos, não estarem completamente destruídos. Estaria ele a ser influenciado pelo que lhe tinham dito? Em vez de morte, realmente, o que pairava sobre a cidade podia ser uma agonia generalizada.
– Os corpos não mexem devido ao calor – disse Mireu a Arueta. – É possível que a morte seja isso mesmo: uma respiração muito suave, calma, maliciosa; uma respiração tão frágil que seja mesmo imperceptível para quem está de fora.
Mireu tinha dúvidas em relação ao que se passava nos cemitérios, onde os corpos jaziam duros, pálidos, inchados, tísicos. No fundo, não estariam eles vivos, semivivos pelo menos, respirando como num quase segredo? Vendo bem as coisas, a agonia podia ser o fim de tudo. Se assim fosse, a morte não existia, só a agonia, daí se passando directamente ao estado de decomposição, que já não era agonia, mas também não era morte (por ser decomposição). A morte, na melhor das hipóteses, só caberia nos milésimos de segundo em que um indivíduo deixava de respirar, passando depois ao estado de desagregação. Mas Mireu achava que assim não poderia ser, porque o último respiro ainda pertencia à fase de agonia e o que logo de seguida acontecia era já o primeiro momento da decomposição. Mireu considerava que não havia mesmo lugar para a morte. E as pessoas tinham vivido assustadas e aterrorizadas durante anos sem motivo para isso.
As situações de excepção, de anomalia, levavam-nos a poder verificar como as coisas eram, realmente. Se a morte existisse, isso significaria uma paragem no movimento, uma abstracção pura, porque o movimento é algo de concreto e palpável, não podendo lidar-se com ele ao nível da teoria.
– O movimento não se pensa – disse Arueta. – Estamos nele e o que fazemos é segui-lo, senti-lo. Há que ver as coisas por um prisma de ligação física com a terra e não de meros raciocínios infundados e abstracções falsamente construídas. E por que havemos sequer de falar nestas coisas? Penso que basta senti-las. É uma futilidade tentar traduzi-las por palavras. Não faz sentido comunicar aos outros as experiências íntimas por que passamos. O modo como sentimos as coisas e o seu movimento é indizível. Quando tentamos dizer o que não se diz estamos a falar de coisas diferentes daquelas que pretendíamos realmente dizer.
– Estás a insinuar que me devo calar? – perguntou Mireu.
– Não é preciso tanto – respondeu Arueta. – Falemos de coisas banais. Mesmo que o não queiras, falando do movimento, da morte, da vida, nunca deixas de ser banal. Guarda para ti o prazer de viver e sentir. Eu entenderei tudo o que me queiras transmitir pelo bulir dos teus músculos, pela intensidade dos teus olhares. Estarei atenta ao mínimo pormenor que exprima dor ou alegria no teu corpo. Por este caminho, chegaremos a algum lado.
Mireu estava sentado à mesa e aparentava dificuldade em respirar. Tinha o corpo tenso e as mãos crispadas na borda da cadeira. Fazia caretas, abrindo muito as narinas à procura de ar. No seu rosto seco e prematuramente enrugado, notava-se uma mancha vermelha, que podia ser sangue ou mercurocromo. Um raio de sol incidiu na moldura metálica de um quadro na parede e, mudando de rumo, fez a mancha vermelha brilhar no rosto de Mireu, que apoiou a cabeça na mesa, sacudiu-a várias vezes, pondo-se a esfregar o nariz na madeira. Dava safanões e batia com o rabo no assento.
Ouviu-se claramente raspar no telhado da casa. Mireu ficou pálido, o que realçou a mancha vermelha de mercurocromo, ou sangue, na sua face, dando-lhe um ar de palhaço.
Mireu refugiou-se nos olhos de Arueta. Lá fora, as árvores mexiam. A poeira e o sol agitavam as coisas e entravam pela janela, empalidecendo a surpresa dos olhares inquietos, num fim de tarde que parecia estar longe do termo.



13

Luana desviou a mesa de cana e pô-la a um canto do quarto. Sentou-se no tapete de corda, encolheu as pernas e inclinou-se para trás, até encontrar o conforto da superfície áspera na qual desaguavam todos os passos da casa. Os seus cabelos negros confundiram-se com a massa de corda entrançada. Os olhos de Luana davam a ideia de mil lâmpadas se terem repentinamente acendido à sua frente. O seu corpo contorcia-se como o de um moinho de vento em tardes de calor e monotonia. A certa altura, o tapete de corda pareceu enrubescer sob os movimentos de Luana, dando a ideia de que se distendia para gozar as delícias dos seus músculos. Luana movia-se como um mar de carne embravecido e as suas ondas retesavam o tapete por entre gemidos perturbados. Luana estendeu as pernas. Abelhas de desejo subiram-lhe pelas coxas e rins. A agitação fazia estremecer a bicicleta enferrujada e as abóboras. Luana pegou em duas pontas do tapete e cobriu-se, por completo, vendo-se o entrançado de cordas vibrando e ondulando ao sabor das suas formas, que só se explicavam pela fúria das vértebras dobrando-se como círios aquecidos, tudo no meio do maior silêncio e discrição.
Artujo entrou no quarto e vendo o tapete enlouquecido com Luana lá dentro sentiu grandes marteladas nos miolos. Tapou o nariz com a mão para evitar o cheiro a galinhas assadas que voava pelo quarto. O tapete completamente enrolado sobre Luana parecia-lhe um pénis monstruoso cheio de ar.
Artujo saiu do quarto furioso e entrou numa ventania pela casa de banho. Encontrou Terrez a urinar, segurando o pénis nas mãos calosas. Artujo deteve-se estupefacto e disse:
– O teu pénis é tão grande como um tapete com uma pessoa lá dentro! Isso é feito de borracha? Até parece que estás doente. Para te dizer a verdade, não queria ter esse defeito dependurado entre as pernas! Um pénis normal, Terrez, deve ser do tamanho do meu, pouco ou nada maior do que um clítoris. Elas gostam é dos pequenos. Estás lixado, meu caro. Tramaram-te a valer! Ainda não mataste ninguém com uma coisa desse tamanho descomunal? Vês como Luana geme, coitada? É o tapete de corda, que por ser tão monstruoso, está a magoá-la. É demais. Uma crueldade. Vamos libertar Luana! Vem ajudar-me, Terrez. A miúda não aguenta um exagero daqueles.
Olhando boquiaberto para Artujo, Terrez disse-lhe:
– Não deves estar bom do juízo – e desatou em sonoras e metálicas gargalhadas que ecoaram por toda a casa.
Artujo saiu da sala de banho, atravessou o quarto onde Luana e o tapete de corda continuavam infernalmente enrolados um no outro e acocorou-se num canto da cozinha, chorando copiosamente, em silêncio, para que não o ouvissem.
– Nunca vi pénis tão grandes – dizia entre soluços. – Ninguém tem um tão bonito como o meu. Pode ser pequeno, mas é bonito. Eu é que sei dar prazer a sério. Não tenham dúvidas de que Terrez não sabe metade do que eu sei. Se Arueta estivesse aqui, confirmaria tudo o que digo. O que eles querem é lixar-me a vida. Têm inveja de não serem tão bons na cama como eu. Quero lá saber que tenham aquelas monstruosidades dependuradas. É tudo fogo de vista. São grandes, mas, se calhar, não funcionam. Ao menos, as miúdas não se queixam de que as magoo e quando as galanteio faço-o sempre com originalidade.
No quarto ao lado, Luana rebolava-se dentro do tapete de corda, os joelhos, os ombros, os cotovelos, comprimindo-se nas dobras das fibras agrestes como se electrificadas, e enrodilhava as pernas até lhe gemerem os ossos de prazer.
O tapete abriu-se, enfim, e Luana surgiu estendida, pálida, de olhos revirados sobre as cordas húmidas. Mantinha-se agarrada ao tapete, vendo-se uma espécie de mel deslizando sobre os seus rins como água fresca numa nascente. Luana deixou-se ficar deitada sobre o tapete como se fosse uma dobra natural do corpo agora inerte e imenso.
O peitoril da janela tinha-se enchido de pássaros e lagartixas, que gracejavam e riam entre si. As primeiras folhas caíram das árvores e, na queda, o calor atirou-as para o infinito. Outras quedaram-se a meio da viagem, entre os galhos e o chão, e ficaram a boiar no ar empoeirado, brilhando como frágeis estrelas a apagar-se.



14

Mireu sentou-se na cadeira de vimes, perto da árvore que Artujo costumava regar e da janela onde era frequente aparecer o gato de pêlo eriçado. Mexia-se constantemente sobre a almofada, como se quisesse extrair dela as sensações de quem monta um seio gigante. Pôs-se a mirar as pernas. Apalpou os joelhos, os tendões. Experimentou as articulações dos dedos dos pés. Coçou uma variz e massajou os músculos com vigor. Nos seus lábios esbranquiçados havia um sorriso coalhado como o dos cadáveres.
Mireu notou a presença de Silécio sentado no sofá de riscas brancas e pretas. Por vezes, as pessoas iam e vinham, surgiam e desapareciam, sem ele dar por nada, sem saber exactamente de onde chegavam e para onde partiam. Mas ninguém se preocupava com isso, ninguém procurava saber os motivos pelos quais havia momentos em que a casa estava cheia e outros em que parecia um verdadeiro túmulo.
Silécio observava Mireu, que lhe pagou com a mesma moeda, olhando-o de forma provocadora, primeiro para os seios, depois para as pernas esguias. Os joelhos de Silécio brilhavam ao calor. O seu queixo parecia mais agudo que nos outros dias. O cabelo cortado à escovinha assemelhava-se a uma miniatura do tapete de corda.
Mireu desviou o olhar surpreendido para um carrinho de mão que Silécio desta vez trouxera. Braços de madeira escurecidos pelo sol, duas pernas curtas e rijas, desajeitada no eixo a roda envolta em borracha apodrecida, matéria porosa com borbulhas que nunca desapareceram com a idade, antes se foram sempre dilatando. Frinchas abertas pelo calor e pregos ferrugentos, que Mireu sentiu acariciarem-lhe inesperadamente a memória.
Na cidade, as ruas silenciosas, depenadas, por entre a abundância de cadáveres e lixo. Não havia maneira de a maré vazar. Quem diria que as marés haviam de perturbar de tal forma o mundo? Por quanto tempo se prolongaria aquela situação abrasadora?
Mireu pensou que devia estar com febre, provavelmente provocada pelo nevoeiro e pelos insuportáveis tempos de calor que asfixiavam a cidade. Afagou com as mãos trémulas os vimes entrelaçados da cadeira mole. Entretinha-se a enxugar os ombros molhados de transpiração com a ponta dos dedos delicadamente grossos, lambendo-os depois como se para aquecer a língua esbranquiçada.
Mireu voltou a olhar furtivamente na direcção de Silécio. Envolvia-o um sentimento obscuro, indefinido. Era como se antes tivesse visto Silécio em qualquer parte, sem se lembrar onde nem quando. Não valeria a pena perguntar-lhe. Silécio era mudo ou tentava passar por tal e limitava-se a fixá-lo com os seus olhos claríssimos. Os olhos de Silécio eram verdes. Mas não eram verdes como os que habitualmente se vêem por aí que às vezes se misturam com castanho, azul ou cinzento. Eram mesmo verdes. Verdes como os de uma mãe, que nos rouba os maiores segredos e vagueia eternamente dentro das casas, dos sonhos, dos desejos mais ocultos. Mas Silécio era diferente de uma mãe, apesar de tudo. O seu mutismo constante dava a impressão de se estar perante uma montanha de gelo. Silécio tinha aquela segurança que dói como uma forquilha na garganta. Porém, atravessava, por vezes, os quartos da casa, percorrendo-os em todos os sentidos possíveis e imaginários, gesticulando febrilmente, batendo os pés no chão sem que se ouvisse qualquer ruído, humedecendo os dedos no suor que lhe corria dos ombros e esfregando as mãos entre as pernas, como se se masturbasse, em grandes passadas, através da casa.
O corpo de Silécio praticamente não fazia sombra, tal a sua volatilidade, mas a sua pele brilhava nos pulsos, braços, pescoço, ombros.
Na presença de Silécio, Mireu perdia todas as certezas. E até esquecia os princípios em que fora rigidamente educado. Pensou que houvesse um secreto conluio entre Arueta e Silécio. Ela mudara muito nos últimos tempos e ele aparecia agora lá por casa mais do que nunca.
Mesmo quando Silécio se sumia sorrateiramente depois de uma visita prolongada, Mireu sentia grandes dificuldades em recuperar terreno, em ganhar a costumada segurança interior. Via-se grego para de novo formular opiniões claras sobre as coisas e as pessoas, achava-se muito esquecido, quase tonto como o velho Terrez.
Depois da conversa que tivera com Arueta, os objectos tinham voltado às suas habituais posições fixas dentro de casa. De qualquer maneira, era possível que houvesse alguma combinação entre Arueta e Silécio para o impedirem de raciocinar com lógica. Quer Silécio vagueasse, ou não, pela casa, quer Arueta estivesse com ele ou ausente, Mireu sentia-se, ao fim e ao cabo, deprimido, em baixo, destruído, como se nem um minuto da sua vida tivesse valido a pena. Tudo parecia estar articulado para o aniquilar. A maré teimava em não vazar. O cheiro a galinhas assadas nos esgotos. Os dias de poeira e da cor de chocolate. O parque infantil cheio de roupas só com ar por dentro num festim macabro. O gato eriçado perseguindo Arueta pelas janelas da casa. Os três homens monstruosos que procuravam abrigo da tempestade que parecia ter mudado o natural rumo das coisas. Tudo aquilo podia ser um plano arquitectado por Silécio para o confundir, para o liquidar lentamente, para o destruir de forma metódica e implacável, nem que para tal tivesse que o levar à loucura.
Por outro lado, Silécio recordava-lhe a mãe, uma associação psicológica que não deixava de ter o seu significado. Porém, a mãe não poderia desejar o seu mal. Bem pelo contrário.
Então, Mireu hesitava. Talvez não houvesse qualquer plano para o destruírem. Talvez não passasse tudo de uma ficção construída por ele mesmo. Podia aquilo ser algo que de momento ele não atingia. Estava a tornar-se muito desconfiado. Excessivamente.
A partir daí, Mireu decidiu ser mais arguto e preciso nos seus raciocínios e análises. Decidiu não perder a calma.
Onde estaria Arueta?, interrogou-se, olhando em volta. Ela desaparecia de repente. E essa era uma das razões por que tinha dúvidas. Arueta assemelhava-se a Silécio em muitos aspectos, conforme Mireu se ia dando cada vez mais conta.
– Estou a ser comido pelas costas – disse Mireu em voz alta, embora sabendo que ninguém o ouvia. – Silécio anda com muito influência junto de Arueta. Tenho a impressão de que vou acabar os meus dias sozinho –. Estava visivelmente abatido, quase a desconjuntar-se como uma porta de casa depois da passagem de um vendaval. Pôs-se de novo a apalpar as pernas, os músculos. Dobrava os joelhos, repetidamente.
– Pensar é uma chatice – afirmou Mireu para consigo mesmo. – Porque não dei abrigo aos fulanos que me apareceram aqui agoniados? De qualquer forma, tenho a certeza de que não os matei. Já quase nem respiravam, os pobres. Eles próprios confessaram o estado lastimável em que se encontravam. Foram as moscas que os assaltaram no pátio, confundindo-os com cadáveres andantes, muito possivelmente. Não sinto remorsos. Julgo que perdi o sentido da moral. É um progresso esquisito da minha parte. Assim, sou levado a entender o mundo de modo diferente. Sou um pateta. Comporto-me como se tudo girasse à volta dos meus raciocínios. Não saio de casa porque tenho medo de ser assaltado pelas moscas que, decerto, me haviam de confundir com um cadáver. Receio ver com os meus próprios olhos ao que o mundo chegou. E nós que pensávamos ter tudo na mão! Será que estou a delirar? Tento perceber tudo à última hora. Seria assim se não tivesse acontecido esta tempestade? Pensarei desta maneira por saber que só tenho reservas de ar para mais uns dias? Resta-me acalentar a esperança de que tudo se resolva de um momento para o outro, que apareça um Messias qualquer e volte a pôr as coisas no lugar certo. Estou a ser cobarde, apegando-me a um mito, ao desconhecido, ao medo, ao infortúnio. Tornei-me um oportunista de primeira grandeza. Não mereço estar com Arueta. Não mereço mesmo.
Mireu estava lívido e secava por todos os poros. Mas ainda teve forças para exclamar que era preciso resolver aquela situação de uma vez para sempre.
– Ou se vive ou se morre! – decretou Mireu, como se tivesse necessidade de esclarecer algumas dúvidas consigo próprio. – Os pés continuam a inchar-me. Não sei onde isto vai dar. Já vi as coisas mais bem encaminhadas. Vou deixar de acreditar em tudo o que para aí se diz. Silécio não passa de um frustrado que pretende assustar-me com a sua muda arrogância. Esta tempestade não faz sentido. Representa uma mudança qualitativa aberrante. É impossível. A situação tem de voltar ao que era dantes.
Mireu levantou-se e dirigiu-se para a janela que dava para o pátio. Nuvens de bronze acumulavam-se ameaçadoras sobre as casas em decomposição. Os caixilhos das janelas apodrecendo. As paredes esventradas. Uma aterradora ausência de cores na paisagem. As moscas formando novelos de raiva por entre a poeira. As rãs acocoradas, silenciosas, sobre o tejadilho do automóvel alaranjado de velhice. As rãs que outrora lhe alegravam as noites, agonizando, naturalmente, engolindo o calor e a tarde sem um pio.



15

Terrez prendeu uma pedra no extremo da corda e agitou-a em círculos cada vez mais rápidos, até se perder de vista a pedra, que lhe rodava como uma hélice à volta do braço rijo. Depois, abriu a mão, fazendo a pedra subir como um cometa por entre as folhas da árvore gigantesca.
Artujo olhava de boca aberta como se não pudesse prever o que aconteceria a seguir.
Pois bem, a pedra parou lá no alto como uma cabeça de serpente e a corda contorceu-se indecisa.
A pedra caiu em vertical pelo outro lado da árvore, enquanto a corda balouçava como uma serpente moribunda de cabeça perdida e Terrez a segurava pela cauda, dizendo: “Já está!, é só mais um bocadinho, vês Artujo?, assim é que se faz uma retouça!”
Depois de se ter safado da pedra, Terrez uniu os dois extremos da corda, ajeitou uma almofada velha na dobra inferior do enorme colar dependurado da árvore e lá sentou Artujo, que estava transido de medo.
Terrez agarrou Artujo fortemente pela cintura, retesou os músculos e atirou-os bruscamente para fora de si, para longe, como se estivesse o Diabo sentado na retouça.
Artujo subiu, subiu, com as duas mãos coladas às cordas trementes de susto. Despenteado pela aragem repentina, aquilo era um relâmpago no seu coração de galinha, um Inverno de fogo sobre os seus rins. Muito pálido, Artujo subia, subia, como a pedra antes arremessada por Terrez. Parecia uma pedra perdida nas alturas.
Chegada a retouça lá muito acima, Artujo deteve-se por uns segundos, sempre imitando a pedra, e disse para si mesmo: “Se isto rebenta, estou feito”.
Parecendo ouvi-lo, a corda desceu vertiginosamente como um pêndulo trazendo Artujo às cavalitas. “Que ventania é esta?”, pensou Artujo. Aquilo era como levar choques eléctricos e ter canivetes enfiados no umbigo. As orelhas de Artujo eram duas pequenas hélices que não paravam de rodar, fazendo andar o baloiço. De outro modo não poderia ser porque Terrez não gozava assim de tanta força e saúde.
Quando Artujo passou em baixo, esticou as pernas numa tentativa de travar o movimento endiabrado da corda, mas Terrez aproximou-se e empurrou-o de novo para as alturas da árvore, rindo e dizendo que não o deixaria parar mais, enquanto batia nos joelhos com as mãos grossas e acrescentava, vociferando: “Vês como gostas? Estas coisas são assim…”.
Artujo olhava para baixo e Terrez parecia-lhe um anão dotado de uma força descomunal que o fazia levantar voo para lá de todos medos.
“Ele está a ver se me assusta”, pensou Artujo. “Vou fechar os olhos para não cair. Se a minha mãe me visse aqui ainda ia pensar outras coisas”.
Artujo gritou que não queria mais, suplicou a Terrez que parasse e ameaçou que não falava mais com ele.
“Da próxima, ainda vai ser mais forte”, disse Terrez para si mesmo. “Hei-de vê-lo ultrapassar a ramagem da árvore e talvez o faça desaparecer de vez! Tudo é possível”.
Quando Artujo passou por ele com a velocidade de uma ave em queda depois do tiro, Terrez deu-lhe o maior safanão que as suas forças permitiam, a corda rangeu e Artujo subiu por entre a folhagem rogando pragas em direcção às nuvens.
E Terrez rezava: “Leva-o Senhor, leva-o contigo”.
Artujo desapareceu por entre os ramos agitados da árvore, deixando a corda a balouçar sozinha, e o que se seguiu foi um grande silêncio no entardecer, como se tivesse havido uma morte. O mais certo, contudo, era Artujo ter conseguido agarrar-se a um galho e arranjado um poleiro algures, assim evitando uma queda desastrada.
Terrez, porém, esfregou as mãos de contente, pensando que nem tão cedo veria Artujo de volta. Regressou a casa e disse para Zava:
– Estou com fome. Traz-me sardinhas e vinho doce.
– Onde está Artujo? – perguntou Zava.
– Foi apanhar umas laranjas – respondeu Terrez bem humorado.
Artujo regressou horas mais tarde, numa altura em que Terrez tinha saído. Foi procurar Zava e encontrou-a pensativa sentada à mesa da cozinha. Abraçou-se-lhe ao pescoço, mordiscou-lhe a orelha.
– Vamos agora! – disse Zava. – Hoje, ele virá mais tarde do que o costume.
Zava e Artujo foram para uma das arrecadações da casa e deitaram-se sobre uns sacos de farinha.
– Ensina-me as coisas que Luana te faz – pediu Zava.
Artujo assim fez e Zava correspondeu como se já tivesse grande experiência na matéria. Até custava a acreditar. “Que confusão”, pensou Artujo. Uma mulher na casa dos quarenta a pedir que ele lhe ensinasse coisas. Zava fora mãe de quatro filhas e todas elas bonitas de morrer. “Se Terrez soubesse disto…”, cogitava Artujo para os seus botões, “matava-me… já se vê”.
Mas Artujo tinha a ideia de que o velho era ingénuo. “Se calhar, pensa que se livrou de mim empurrando-me com toda aquela força no balouço. Imagino a cara dele quando eu lhe aparecer pela frente como se nada tivesse acontecido”.



16

Com o calor, algumas traves de madeira começaram a desprender-se do tecto. Mireu acorria angustiado, tentando apará-las na queda. Vivia em constantes sobressaltos, à espera de que a próxima viga desabasse, trazendo consigo flocos espantados de cal ressequida. Ouvia-se a poeira estalar de secura no telhado.
À medida que caíam, as traves eram amontoadas junto à parede onde estava encostada a bicicleta enferrujada. Mais tarde, Mireu decidiu cortar as vigas pela altura do quarto, a fim de as erguer como colunas improvisadas, não fosse o tecto desabar na totalidade e ele ficar inesperadamente soterrado.
Mireu trouxe o serrote e pôs-se a cortar as traves pelo tamanho rigoroso da altura do quarto. Forçava o músculo e enterrava na madeira a lâmina metálica de dentes aguçados. A certa altura, parou, gelado pela ideia de que aquela trave podia muito bem ser uma perna ou um braço humanos. Era o que fazia lembrar o ruído provocado pelo corte da lâmina na madeira. O pó da serradura que saltava era exactamente da cor da sua pele.
Aterrorizado, Mireu não se mexeu de onde estava. Olhou de soslaio para a cadeira de vimes. Imaginou Silécio arroxeado de cólera, Terrez a puxar os próprios cabelos e a gritar de fome na cozinha. “Muito comia aquele Terrez”, pensou Mireu no preciso momento em que o candeeiro de pinho se apagou, deixando-o sozinho à luz do crepúsculo.
Ouviu-se música de uma estação de rádio no quarto ao lado. “Quem seria?”, interrogou-se Mireu. Depois, ouviu-se um barulho de unhas a arranhar numa parede.
Mireu levou as mãos à cabeça e abanou-a loucamente, não podendo controlar o sentimento que o agitava. Foi à cozinha e bateu com a testa no frigorífico.
Na casa, ouviram-se ruídos vindos do exterior. Mais poeira a estalar. Mireu voltou ao ponto inicial. Tomou o serrote na mão decidida e imobilizou a trave com o pé esquerdo. Não fora assim e – quem sabe? – a trave pôr-se-ia em fuga, em andamento, como uma pessoa qualquer que não soubesse onde estava nem para onde ia.
Silécio apareceu. Foi direito ao aquário. Pegou-lhe com as mãos peludas e bebeu de um gole toda a água que continha, deixando os peixes a saltitar tresloucadamente por dentro do vidro. A seguir, enterrou os peixes na bocarra húmida, fazendo-os sumir para lá dos dentes alinhados e brancos.
Mireu não reagiu. Não disse palavra. Firmou a mão no serrote e serrou, serrou, fosse uma perna humana ou uma trave de madeira. Cortou todas as traves em pedaços. A serradura caía das feridas da madeira para o chão com a suavidade dos primeiros nevões lá para Novembro.
Mireu trouxe pregos e martelo. Uniu duas traves pela cabeça e bateu com o martelo no crânio metálico do prego. Enterrou-o fundo na madeira e foi unindo as outras traves por aí fora, uma a uma, nos pés, braços, ancas. Enterrava pregos nos mamilos da madeira, nos olhos, um prego em cada dedo das mãos, um prego em cada dedo dos pés, nos joelhos. Espetou pregos nas orelhas das traves, abriu-lhes as bocas secas e atirou-lhes mãos cheias de pregos pelas gargantas abaixo.
Mireu continuava a ver corpos humanos nas traves endurecidas pela violência inesperada. Enfiou um prego no umbigo da trave que tinha na mão. No meio do quarto, havia um monte de vigas cruzadas apontando para todas as direcções do mundo, caso prolongássemos as suas linhas imaginárias até ao infinito.
Mireu batia, batia com o martelo nas cabeças reluzentes dos pregos. Alguns entortavam-se, mas ele dava com mais força nos outros, espetando-os de qualquer maneira.
“Foi assim que os americanos fizeram”, pensou Mireu, “enquanto a vítima gritava, suplicando por piedade”.
– Eu sou um líder – gritava o homem – sou um verdadeiro líder, acreditem.
E eles sempre a dar-lhe sem ligar às suas palavras.
– Perdoai-lhes, perdoai-lhes – implorava o moribundo sob as chicotadas, enquanto Mireu recordava que esse tal líder, que dava pelo vulgar nome de Billy, devia assemelhar-se a algum desses raquíticos vagabundos de barbicha, que fumam haxixe, têm borbulhas na cara e se inibem na cama.
Enquanto Billy soltava os últimos gemidos, surgiu da sombra alguém que disse:
– Vai lamentar-te para outro lado, Billy! Estamos fartos de ti. Afinal, só nos vieste prejudicar a vida. Quem te mandou armares em líder por aí, falando de coisas que ninguém entendia? O que tu querias era tramar-nos. E vens agora falar de perdão. Perdão uma ova! És a vergonha do nosso bairro.
Uma mulher que aparentava conhecer Billy aproximou-se do lugar onde o matavam e ajoelhando junto aos seus pés ensanguentados contorcia-se de lágrimas pela visão daquela morte singular.
– Deixa-me morrer em paz – pediu Billy, revirando os olhos de agonia. – As tuas lágrimas já não vêm a tempo. Restam-me poucos minutos. Não sei que vim fazer a este mundo. Sinto o corpo em chama. Afasta de mim esta tentação…
Billy desprendeu um dos pés da trave, fazendo saltar o prego ensanguentado sobre a terra e afastou a mulher que o viera consolar nos últimos instantes, dizendo:
– Vai Stephanie, volta para casa e faz o que puderes por aqueles que eu abandonei. Pede-lhes que me perdoem.
Depois, Billy chamou Michael e pediu:
– Acaba comigo de vez!
Um homem saiu da multidão que assistia à morte do líder. Era Mike. Pediu a muleta emprestada a um coxo que por ali andava e, aproximando-se de Billy, espancou-o vigorosamente.
Billy contorceu-se e murmurou umas palavras cujo sentido se perdeu nos ecos da tarde. A um gesto do líder, Mike voltou a agredi-lo, com toda a força e determinação de que era capaz.
Antes de expirar, Billy ainda conseguiu exclamar:
– Deus te pague, Mike.
O sol brilhava nas encostas e um dos amigos de Billy, abeirando-se de um guarda, apressou-se a desabafar:
– Deste já nos safámos.
Mireu atirou o martelo à queima-roupa contra Silécio, que o aparou com destreza e o fitou com ar interrogativo. Mireu espalhou então os pregos que sobravam pelos cantos da casa. Quis serrar mais. Golpeou o indicador esquerdo. Praguejou e atirou o serrote na direcção de Silécio, que se desviou a tempo, o apanhou e desfez em pedaços, como se se preparasse para o comer à refeição.
Arueta entrou nesse momento, ferindo a carne fresca dos pés com os pregos que tinham ficado espalhados pelo soalho. Saltou para o pescoço de Mireu e beijou-o repetidamente.
– Nem tudo está perdido – disse ela. – Em breve, a maré há-de vazar. Alguém virá socorrer-nos.
Deitaram-se os dois entre os lençóis revoltos e Mireu correspondeu aos beijos dela com raiva e ardor. Os seios de Arueta cresciam notoriamente de dia para dia. Fizeram amor. Adormeceram com os sexos unidos, colados por uma goma branca, uma espécie de lã de que se desprendia da vida como de uma ovelha.



17

Nas escadas que davam para a cave, Artujo costumava anichar-se e vigiar os movimentos de Nícora que lavava a roupa no tanque. Tinham passado muitos anos, mas ele recordava-se como se tivesse acontecido minutos antes. Mirava as convulsões da água azulada pelo anil, a espuma formando colinas brancas como o leite a ferver. O sabão salivava nas reentrâncias da pedra e o odor a músculos que o alcançava através das escadas plantava-se misterioso a seu lado como se chegado do interior de bolas coloridas transparentes que explodiam à porta da sua boca aflita de surpresa.
Nícora saía da cave e Artujo era obrigado a esconder-se no escuro que ficava por detrás de uma caixa de papelão. Ela transportava a roupa espremida e amontoada nos braços, contra os seios, em direcção ao fio, onde estendia as camisas e toalhas dançando ao sol como bandeiras de navios no alto mar. Peça por peça, Nícora desdobrava, sacudia as vestes molhadas e dependurava-as no arame. Os lenços, as calças, os blusões ficavam derramando água sobre o chão numa agonia que se prolongava pela tarde inteira.
Nícora voltava para o tanque e continuava a esfregar, espremer roupa contra a pedra agreste. A respiração de Artujo corria num triciclo sobre uma aresta de muro. Lavando a roupa, Nícora parecia um enorme fole de carne a esguichar espuma pelos bicos dos seios. A sua saia tremia como um pano vermelho nas mãos do toureiro, deixando ver as pernas retesadas e brancas. Os pés de Nícora acendiam-se sobre um pequeno estrado de madeira e a cintura abria-se em movimentos apetecíveis entre a camisa e a saia, deixando à mostra os rins, as ancas irrequietas.
Artujo esfregava os olhos como quem mastiga azeitonas picantes e observava as pernas, acessíveis e distantes, de Nícora, balouçando-se à sua frente. Artujo pensava que o corpo de Nícora era um clarinete que soltava sons agudos para embalar a cidade e o mundo.
Ao fim da tarde, Nícora já tinha lavado a roupa toda. Do seu corpo, desprendia-se um cheiro a suor e anil. Nícora despia então a camisa e punha-se a lavá-la, expondo os seios estonteados que alegravam a água com os seus reflexos. Depois, tirava a saia e lavava-a também. Ficava completamente nua, debruçada sobre o tanque, lavando a roupa escurecida de cansaço.
Olhando para as nádegas brancas de Nícora, Artujo sentia o coração parar. “Que bolos esquisitos”, pensava. “Ainda nem sequer foram a cozer ao forno. Nunca imaginei que Nícora fosse tão volumosa. Sempre que fomos para a cama, ela tinha o hábito de apagar a luz”. Aquela era a primeira vez que Nícora se despia à sua frente. “Não me sinto bem”, disse Artujo baixinho para si mesmo. “Os seios de Nícora são bastante maiores do que eu pensava. Fiquei com uma impressão errada, por me sentar neles às escuras. Os seus cabelos negros contrastam com a brancura da pele. Se alguém soubesse disto, não acreditava. Da próxima vez que formos para a cama, vou acender a luz sem ela contar. Quero deitar-me sobre o corpo de Nícora, vendo bem as colinas sobre as quais me rebolo e gozo que nem um peixe na fundura das águas”.
Artujo empalideceu como já vinha sendo habitual desde que viera a tempestade. Com a ponta dos dedos, tocou no peito, no lugar do coração, fechou os olhos com o cuidado de quem fecha um canivete e desmaiou.



18

Luana vivia num quarto onde as vítreas sombras fixas ondulavam; os dedos, os olhos, as bocas tomavam proporções gigantescas e a vida resumia-se à dimensão de um mosquito zumbindo no escuro invisível.
“É uma maneira de o ventre dilatar na presença de quem se anuncia”, pensou Luana por entre as sombras que a cobriam. “Diz-se adeus por entre o fumo e o nevoeiro. Cria-se um ângulo de desejo com o nosso desaparecimento, que o intensifica, controlando-o de longe, fora de nós. Este quarto é o único lugar onde se pode sobreviver sem estar preso a um corpo. A criação do primeiro ângulo leva-nos à procura das formas cúbicas. O corpo endurece e, a dada altura, o que dizemos parece vindo de uns lábios metálicos. Os meus lábios são carnudos e tenros. O que digo ou penso resume-se a um processo abstracto através do qual nos vamos conhecendo melhor e só assim se pode ser levado a entender e amar com mais força. Os lábios metálicos são formados por um incalculável número de arestas macias de encontro às quais se limam as palavras antes de virem ao mundo. Durante muito tempo, vivi agarrada aos suspensórios de Mireu. Foi tempo perdido, claro. O meu ventre é mais forte do que o vidro e em vez de sangue tem lá dentro sumo de cereja. Por que motivo me não havia de despir onde muito bem quisesse e entendesse para me distanciar das pessoas como convém? Podem dizer que escandalizo, é verdade. Mas isso fez-me sentir viva e ter a certeza de que não me conformo. Quando estou nua, as minhas formas acentuam-se nas sombras que a ausência de luz projecta no quarto. Os mamilos vistos através do tecido parecem dois rebuçados endurecidos. Vou ter oito filhos. Só posso ter oito filhos. Não admito outro número. Oito. Uns a seguir aos outros. Ando sempre contra a corrente. Não gosto que me confundam com multidões. O meu desejo é o fogo a latejar. Não é exagero. É o significado que encontro na vida. Recuso-me a ter os braços gordos, as pernas com varizes e a pele enrugada. Quero fazer resina batendo a saliva contra as gengivas, o que me permitirá exercitar os músculos da face para outros fins. Quando a terra era sumarenta, as gargantas humedeciam e cantavam. Agora, não. Tudo secou, tudo mirrou. Como não tenho cavidades dentárias, não corro o perigo de a saliva formar lagoas na minha boca. Não me preocupo em carregar de lógica o meu discurso. Esta é uma postura que se aprende depois de se viver algum tempo no quarto das sombras onde me abrigo. Não duvido que, ao proceder assim, desperto nos homens uma atracção incontrolável. Sou eu que afasto o odor nauseabundo a petróleo das suas vidas atormentadas, sou eu que transformo em mel o ardume dos seus olhos. A tempestade que se abateu sobre a cidade é um problema sem importância. A vibração dos corpos é sinal de que há vida. A agonia de que fala Mireu não passa de uma ideia movida pelo excesso de desespero provocado pela minha ausência. Um dia, tudo há-de mudar. Um dia, reaparecerei na vida de Mireu e devolver-lhe-ei a alegria. Há algum tempo, vi-o passar a poucos metros de distância do sítio onde me encontrava. Ia triste como um foguetão que transporta o peso de não ter a certeza do rumo nem do regresso. Mireu olhou na minha direcção e confesso que não fui capaz de conter o riso tal era o pavor que lhe vi estampado na face. Ele nem sonha onde me encontro neste momento. Não tenho prazer em ver Mireu sofrer, mas julgo necessária esta ausência, para que um dia – sabe-se lá quando – possamos sonhar com um saudável regresso ao amor. Além do mais, é difícil esquecer as cicatrizes que deixou no meu coração. Mireu preocupa-se em ostentar um rosto de pedra só por não suportar o calor que lhe corrói a alma. Mireu tenta imitar Silécio, por isso há entre os dois aquele ódio tão grande. Um ódio que pode ser amor, vistas as coisas por outro prisma. No fundo, Silécio é o tipo de pessoa que muitos gostariam de ser e é isso que mais chateia quem o conhece. Hoje, tomarei duche. Não gosto de ver estas pitadas de mel nas minhas pernas. Quando penso em Mireu vem-me logo à ideia um tronco de árvore. Ele seria o tronco e eu os ramos, as folhas. Por aqui se nota que o meu conservadorismo se mantém intacto. Não preciso de procurar Mireu. Ele deseja-me e, apesar disso, não me procura. Por enquanto, é suficiente sabermos da existência um do outro. Sem dúvida que a tempestade tem contribuído para o desespero de Mireu. Mas não sou ciumenta. Vi Mireu na cama com Arueta e com Zava. A terra é o meu coração. Digo estas coisas para que não restem ilusões. Como salta à vista, o meu rosto tem a cor do luar. Por isso me chamam Luana. Ninguém se cansa de me alimentar na sua memória. Mantenho-me jovem. Uma verdadeira mulher não envelhece. Não sou um mito. Só quero evitar o sofrimento. Mas não desejo apenas o prazer. A minha função é ligar a noite e o dia, o sofrimento e o prazer. Gosto de brincar com os sentimentos, saltando do prazer para a dor e da dor para o prazer, conforme um ou outro me agrada menos ou mais. Como sei que prazer e dor partem do mesmo ponto, não chego a entregar-me totalmente. Tomo consciência do que está a acontecer e encurto ou prolongo a sensação segundo me dá na gana. A vida resume-se ao movimento dos músculos. Faz bem procurar zonas iluminadas, sobretudo quando já estamos cheios de alguma luz. Serve para desentorpecer as articulações. Agora que o sol deixou de nascer por detrás dos edifícios que se erguem à frente dos montes já não se ouve o canto dos grilos nem se adivinha o sonho dos cães. A falta de chuva terá consequências ruinosas para a cidade. As vidraças das janelas hão-de rebentar. Pouco me falta para estar apta a encontrar-me com Mireu. Da parte dele, não espero muito. A tempestade vai minando as suas forças e creio que, em vez de tentar agir, de tentar reagir, acabará por sucumbir no meio de toda a confusão em que se meteu. E o mesmo acontecerá a Terrez, Arueta, Artujo, Silécio, um nunca mais acabar de gente. Reaparecerei na altura certa. Antes que as lágrimas rebentem nos olhos de Mireu e lhe corroam a face”.



19

– A morte – disse o velho Terrez – a morte não existe. Que é isso de morte? Não vês que só estamos aqui e mais nada? Não podemos falar de coisas que não conhecemos e pelas quais nunca passámos. Estão sempre a falar de morte. Não és o único, podes crer. Também me contaram essas histórias, mas só em criança as engolia. Então não topas que isto é como a lenda de Deus que, de tanto nos massacrarem a cabeça com ela, acabamos tarde ou cedo por deixar de acreditar nela? Ora essa, Artujo. Andas então à rasca com o problema da morte. Olha que sou velho, mas estou-me borrifando para a morte. A morte nunca vem, sabes? É como se tivesse medo de mim. Comigo não consegue ela nada. Mas a morte não podia mesmo vir porque não há morte coisa nenhuma. A morte é uma cantilena para enganar papalvos. Lixaram-te o coração e aí estás feito em farinha, meu querido. Vou dizer-te uma coisa que nunca disse a ninguém. Fica um assunto só entre nós. Digo-to porque és um miúdo às direitas. Como já deves ter notado, não há quem não acredite na morte. E muita gente vive em pânico com a ideia de um dia vir a morrer. Até os mais inteligentes se deixam levar. É um caso bicudo. Os próprios ateus têm medo da morte porque sabem que nada existe para além dela. Os crentes, esses acham que acabarão por encontrar algo de sublime, o que é uma tolice, mas deste modo atenuam o medo do fim, o medo da morte, e vão-se aguentando nas canelas. Por outro lado, não deixam de viver aterrorizados, quando pensam que um dia hão-de morrer porque, crendo na existência de um Deus deixam-se aterrorizar pela ideia de comparecer no juízo final. Temem o Inferno. Concebem Deus como um remeloso de barbas sentado sobre as nuvens, intransigente, teimoso, estúpido, incompetente, tarouco e por aí fora. Não podia ter havido maior trapaça. Foram todos domesticados, como vês. Até aqui nada de novo e se calhar até já sabes o segredo que te vou contar ou talvez já o tenhas sentido, por que estas coisas são como os pressentimentos ou os sonhos. A gente às vezes sabe pensando que não sabe, tem um medo oculto de reconhecer as coisas. Os padres são uns mafarricos, digo-te eu. Pode não vir a propósito, mas é a verdade. Há padres por toda a parte, inclusivamente entre os leigos. O sacerdócio entra nos miolos como um bicho, um micróbio nefasto e destruidor. Há gente que, ao casar, não faz mais do que tornar-se padre de forma encapotada. São uns desajeitados na cama. Resolvem o assunto em dez minutos. Vivendo toda a vida com a mesma mulher só conseguem realizar-se pensando que estão nos braços de uma estrela de cinema. Estas coisas são mesmo assim. Não se deve fazer sexo com a mesma pessoa toda a vida, mas os que arranjam amantes só pretendem marcar terreno junto dos amigos porque ao deitarem-se com as amantes nunca deixam de pensar nas esposas! É tudo uma falsidade, uma cobardia. Estou a fugir ao assunto que pretendia analisar. Estava a falar da morte, não era? O sexo tem a ver com farsa da morte, embora pareça que não. Os tipos de muita garganta sabem que ao fim de uns anos de vida verão reduzido o seu poder e sabem também que depois disso lhes vai acontecer algo a que chamam morte. Por isso, há muita gente que faz sexo só para se convencer de que a morte ainda vem longe. Há quem vá aos funerais e pense que isso da morte não é para ele, que ainda mexe na cama como um jovem de quinze anos. As estrelas de cinema, afinal, são gente vulgar. Todavia, as pessoas deixam-se encantar por elas porque a imagem da morte é mais atenuada nas suas vidas enfeitadas de magia. Aprendi tudo o que sei na prática dos dias. Vamos então ao caso da morte. Apesar da minha idade, ainda hoje tenho muito poder. Poder mesmo, entendes? Pergunta a quem me conheça bem. A tempestade que varreu a cidade não deu cabo de uma única vida. O que aconteceu foi que o calor pôs toda a gente em estado de agonia. Ouvi o que aqueles três monstros disseram a Mireu e percebi tudo. A agonia é que é, Artujo. Depois dela, já não somos nós. Quando alguém morre, não somos nós que morremos. Só éramos nós quando estávamos em agonia. Tudo acaba na agonia. A febre e o calor estão sempre presentes na agonia. As pessoas precisam de calor, de carinho. A agonia é o auge desse desejo, a sua realização máxima. Não surge de um momento para o outro. Arrasta-se desde lá muito de trás da nossa vida. Mas há alguns safados que nos obrigam a coisas que em nada nos dizem respeito, como o trabalho. Assim antecipam a nossa agonia derradeira. Por isso se vendem por aí caixões aveludados e cómodos. Fazem-se caixões muito bem acabados e antigamente até levavam comida para os túmulos que era para os mortos se alimentarem. Já nessa altura se sabia que os mortos não estavam mortos. Hoje, não se leva comida para os cemitérios, mas leva-se flores e prantos que é para os agonizantes se sentirem felizes com a festa da dor. É para lhes suavizar a febre. Não se pode saber o momento exacto em que termina a agonia, meu caro Artujo. Assim como não se sabe quando ela começa. Há por aí muita gentinha nova que está mais à rasca do que eu, os que se embebedam e fumam marijuana. O que desejam, no fundo, é ternura, meu velho, calor para as suas almas. Querem as altas temperaturas próprias da agonia. A agonia pode ir e vir conforme as circunstâncias. Já tive grandes agonias na vida. Foi aí que entendi tudo. Queriam eles que eu não percebesse. Não reveles a ninguém este segredo que te acabo de contar, para que não me chamem doido varrido. Hoje em dia, é arriscado afirmar que a morte não existe. Tenho medo de acabar os meus dias num hospital psiquiátrico. Quando a derradeira agonia é artificial, Artujo, quando é provocada, a situação torna-se feia, nada saborosa, desde já te digo. Pode ser mesmo complicado. Nesse caso, vamos ainda mais quentinhos para a cova. Talvez demais, quem sabe? Nos funerais, os corpos vão cheios de calor dentro do caixão. Vão a arder. É um conforto imenso. Olha que já passei pela experiência. Numa das minhas agonias, chegaram a pôr-me dentro de um caixão. Rezaram e gritaram que foi uma doidice. Quando vi que a minha agonia estava a ser um exagero, decidi levantar-me, ir-me embora. Calhou que ninguém estava presente na altura em que o fiz. Tinham ido todos tomar café, respirar, conversar para o exterior da capela onde me velavam. Vê o amor que essa gente me tinha. O que sei, Artujo, é que não podemos falar da morte porque não a sentimos. Por isso digo que a gente não morre. Logo a seguir à agonia, vem a decomposição dos corpos e então a matéria de que somos formados serve de alimento aos vermes, à bicheza da terra, aos pássaros, insectos e flores. Assim, somos possuídos na totalidade, que é o nosso maior desejo em vida. Só é pena que não nos seja possível ter uma percepção imediata e directa desse instante. Mas não se pode ter tudo, Artujo, luz dos meus olhos, e aqui vem de novo o sexo a propósito. Quando se faz amor com outra pessoa fica-se quente, cheio de febre, e deseja-se entrar no outro completamente. Uma aspiração inútil. A plenitude do desejo só é pressentida na agonia e realiza-se no processo de desintegração do corpo, depois de termos escapado a nós próprios e nos termos dado à terra, ao universo para sempre.



20

Falavam-se cada vez menos. Arueta sentia que Mireu não tirava os olhos dela, uma atitude talvez derivada do medo da tempestade. A segurança dele tinha desaparecido. Mireu construíra uma fachada que ia ruindo a olhos vistos. Arueta via-lhe os lábios tremendo com frequência e às vezes até o apanhava a gaguejar, o que lhe acontecia pela primeira vez.
Mireu sentava-se na cadeira de vimes, tacteava os músculos, os nervos das pernas. Arueta assobiava para lhe dar a ideia de que pensava em outra coisa. Não queria que Mireu enlouquecesse. Arueta sentia que as suas forças tinham limites. Começava a inquietar-se com os escrúpulos de Mireu, que estava sempre a mexer nas pernas. Mas nunca constara que ele corresse o risco de ficar paralítico. A sua circulação de sangue era perfeita. Mireu era uma pessoa bastante saudável. Como poderia recear qualquer doença? Era uma depressão, com certeza. Os dias da cor do chocolate e a poeira eram perturbadores.
“Tenho de ser mais amiga de Mireu”, pensava Arueta. “Ele precisa de apoio, sobretudo agora que deixou cair a máscara dos jogos mentais, cálculos, frases feitas, comparações ridículas”.
Mireu jamais se habituaria a uma nova maneira de ver o mundo e as coisas. Não seria capaz de interpretar e entender os novos factores que a tempestade criara. Arueta adaptava-se com facilidade à nova situação, ao vendaval sereno que roubava as cores à paisagem e que havia tirado a vida a quase todos os habitantes da cidade. A propósito: que se passaria com os sobreviventes?
Arueta reclinava a cabeça no acalorado vazio da casa. Sentia falta de alguém que a compreendesse. Mireu não estava em condições disso. Ela teria de acarretar sozinha a tempestade dentro das almas. Via Mireu mordiscar o bigode alourado, esfregar as mãos contra os braços da cadeira de vimes. Agora, até o pescoço massajava e não parava de mexer os dedos dos pés como quem toca piano no vazio. Os olhos de Mireu cresciam, inchavam como balões de borracha. Arueta assustava-se, mas não desejava deixá-lo transparecer. Sentia-se obrigada a mostrar força, para que as coisas não se precipitassem, fazendo o mundo descarrilar dentro dos corpos, à semelhança do que acontecera na cidade. Apetecia-lhe fugir e desaparecer por entre as casas destruídas. Iria até ao areal para ver quando o sol havia de atravessar o nevoeiro, as nuvens de bronze. Talvez a maré vazasse à sua chegada. Recolheria das portas mais alguns bilhetes com os últimos desejos dos que tinham morrido. Mas não o diria a Mireu, para evitar que os miolos dele rebentassem. Mireu não andava com estômago para situações extremas e trágicas.
Mas Arueta acabou por ficar em casa. Não voltou ao areal. Receando novas cenas de violência, deixou-se ficar junto de Mireu, que já nem prestava atenção ao possível desabamento do telhado, o que se tornava um perigo real para a sobrevivência dos que residiam na casa. Oxalá Silécio não aparecesse de um momento para o outro, a fim de evitar que Mireu se irritasse. Arueta chegava a pensar que ele tinha algum plano para dar cabo de Silécio. Devia estar mais tempo junto de Mireu e impedir encontros a sós entre os dois.
A imagem da mãe tinha sido muito forte na vida de Mireu. Por isso, era compreensível a sua agressividade num momento tão grave como aquele. Mas esta ideia irritava Arueta. Sentia-se substituída. Mireu precisava dela, não por amor, mas por um refinado sentimento de egoísmo, insegurança. Certa vez, Mireu contara-lhe que, em criança, quando a mãe saía de casa, ele e os irmãos berravam como cordeiros à vista do diabo, perturbados pela ameaça da ausência dela.
Arueta ouvia o zunir das moscas no pátio. Recuperava a calma. Serenava as ideias e as dúvidas. O que acontecera na cidade, por paradoxal que parecesse, tornava-se um fenómeno relaxante e cómodo. Arueta antecipava a visão da maré a baixar. Queria voltar a saborear a espuma das ondas. O nauseabundo cheiro dos esgotos havia de desaparecer para sempre. As vidraças seriam de novo transparentes e luzidias. Os telhados das casas reconquistariam as cores fortes e consoladoras de antes.
Outro fenómeno que deixava Arueta preocupada era a importância que Mireu dava às portas e ao seu funcionamento. Encostava-se a elas e passava horas torneando os puxadores metálicos com as mãos ressequidas. Arueta sentia que era cada vez mais remota a possibilidade de conquistar um lugar definitivo no coração de Mireu. Mas nem assim desanimava. Era necessário aceitar a nova situação e ir ganhando terreno à estagnação de Mireu. Só não queria ser um remendo para o egoísmo dele, para os seus traumas, complexos, manias. A apatia de que Mireu começava a dar sinais inquietantes não era só motivada pela tempestade. Ao fim e ao cabo, ele não conseguia dar conta de qualquer recado. O delírio interior era prova disso, O eterno crepúsculo, o calor. De alguma maneira, havia sido ele o causador de tamanha tragédia. Não se tratava de uma ocorrência natural. Fora provocada, estava-se mesmo a ver. Se o pesadelo das reservas de ar se resolvesse, tudo acabaria por se esclarecer. Se a maré vazasse, seria perfeitamente possível recomeçar um mundo mais justo que não proibisse a natural manifestação dos instintos. A tempestade não era necessariamente uma tragédia. Só era preciso ter coragem e vontade para entender a vida de outra maneira.
As moscas haviam de continuar a zunir lá fora, enquanto as rãs se calavam à espera da noite. Que paciência aquela sobre o tejadilho do automóvel. O pior de tudo, porém, eram as flores mortas. Arueta amava as flores, as árvores pálidas e secas. Talvez daí a uns anos revivessem. Contava chegar à velhice ardentemente e sobre o seu caixão levar novas flores, outras flores, numa madrugada sem nuvens, com vento e chuva.
Mireu interrompeu-a:
– Achas que posso perder a virilidade?
Ela não lhe respondeu e, pondo as dúvidas de lado, ajoelhou-se entre as pernas dele.
– Não vais perder a virilidade, meu querido – enquanto lhe descia o fecho da braguilha e soprava para dentro da abertura.



21

– De quem são aquelas vacas ali a pastar? – perguntou Arueta.
– São minhas – respondeu Terrez.
Continuámos a vencer a estrada, com Terrez muito calado ao volante do automóvel, só respondendo às perguntas que lhe fazíamos. Arueta e eu estávamos apertados à sua direita no banco da frente. Arueta abriu o vidro e deixou que os seus cabelos esvoaçassem naquela tarde fria de Outono.
– De quem são estas searas que nunca acabam? – perguntou Arueta.
Terrez olhou para a sua direita com o canto do olho, na direcção que Arueta apontava, e respondeu:
– São minhas.
– E aquelas árvores ali à frente? – insistiu Arueta.
– São minhas – afirmou Terrez com uma gargalhada.
A viagem estendeu-se por entre caminhos estreitos e tortuosos. De repente, vimos uma grande casa, com dúzias de janelas, à beira da estrada.
– E esta casa de quem é? – perguntei.
Terrez olhou para fora, era do seu lado, atirou a ponta do cigarro pela janela e respondeu, sem hesitar:
– É minha.
Arueta e eu entreolhámo-nos em silêncio e calámo-nos. Uma ratazana atravessou a estrada. Terrez acelerou, mas era tarde. O rato subiu uma parede às escaramuças e ficou-se a olhar o automóvel amarelo em que seguíamos, até desaparecermos na curva. A tarde foi esmorecendo.
– Ainda falta muito tempo para chegarmos? – perguntei.
– É já aqui à frente – respondeu Terrez, estendendo o queixo para o volante.
– De quem é aquele rebanho de ovelhas?... – perguntou Arueta.
– …É meu – disse Terrez, ainda Arueta não completara a pergunta.
A Lua já ia alta. O Sol ainda espreitava no infinito.
– O céu está da cor dos olhos de Nícora – disse eu.
Arueta mudou de conversa:
– Há pouco disseste que estávamos quase a chegar, mas, pelos vistos, não é bem assim...
Terrez não respondeu. Fumava, como sempre.
– Parece que a estrada também está em movimento – disse-me Arueta, em voz baixa – porque embora o carro se desloque com rapidez nunca chegamos ao fim da viagem.
– Nesse caso, só se o caminho andasse para a frente – disse eu – mas noto que, pelo contrário, a estrada e as árvores fogem para trás como se tivessem medo de nós.
– Então, já devíamos ter chegado há muito tempo – comentou Arueta. E para Terrez, manifestamente preocupada: – A estrada também está a andar, toma cuidado!
– Não, a estrada está no seu devido lugar – replicou Terrez. – Está parada, paradíssima
– Mas se o mundo gira sobre o seu eixo – argumentou Arueta – e se este caminho está assente no globo, o que se conclui é que a estrada também está em andamento, não é verdade?
– A velocidade do mundo é bastante maior do que a do automóvel – disse Terrez – por isso é perfeitamente viável que alcancemos o ponto desejado sem qualquer incidente.
– Então, estamos a perder tempo – disse eu – porque se o mundo anda assim tão depressa o lugar que procuramos pode já ter passado por nós sem que tenhamos dado por isso.
– Em que direcção se movimenta o mundo? – perguntou Arueta.
– Sei lá! – respondeu Terrez. – O que interessa é que havemos de chegar, mais tarde ou mais cedo. Já lá fui muitas vezes e nunca tive problemas.
– A que velocidade vais? – perguntei.
– Setenta – disse Terrez.
– Como podes ter a certeza? – insisti.
– É o que marca o ponteiro – explicou Terrez.
– Quem te garante que o ponteiro funciona bem? – perguntou Arueta. – Se a Terra está em movimento como todos os astros, onde se encontra o ponto de referência para medir a velocidade a que nos deslocamos?
Terrez esclareceu que a velocidade era calculada conforme o movimento da Terra, o que levou Arueta a replicar que a Terra não andaria sempre à mesma velocidade. Nuns dias talvez andasse mais depressa do que noutros, conforme estivesse mais ou menos cansada, um pormenor que ela não tinha a certeza de o conta-quilómetros ser capaz de contabilizar.
– Se somarmos todos os erros já cometidos por esse conta-quilómetros – realçou Arueta – tudo indica que estamos a andar a uma velocidade totalmente diferente da que ele aponta. Por isso, tenho muitas dúvidas de que cheguemos ao lugar de que falas. Há fenómenos que se tornam incompreensíveis porque não consideramos a acumulação de desvios a que a mecânica e os números são necessariamente conduzidos.
A resposta de Terrez foi o roncar do motor na estrada, as árvores a correr para trás, as rodas a guinchar nas curvas.
– De quem é esta estrada? – perguntei, ao fim de alguns minutos.
– É minha – disse Terrez.
– E estes montes?
– São meus – repetiu ele.
– Como arranjaste dinheiro para comprar tudo isto? – perguntou Arueta, sem conseguir obter qualquer resposta de Terrez.
– De quem são as flores que crescem na beira da estrada? – perguntei.
– São minhas – disse Terrez.
– Suponhamos que esta viagem nunca mais terminava – disse Arueta – e que dávamos a volta ao mundo, continuando sempre a perguntar-te de quem era isto e aquilo, responderias sempre que tudo era teu?
– Não me venhas com hipóteses absurdas! – disse Terrez. – Se não acreditas no que te digo, deixa de me fazer perguntas.
– De quem é o Guadiana? – perguntei.
– É meu – disse Terrez.
– E o Tejo?
– É meu.
– E o mundo?
– Também – respondeu ele, puxando de outro cigarro.
Zava quis saber como fora o fim da viagem. Não conseguia esconder a sua curiosidade. Mas Artujo não sabia bem o que acontecera.
– Andámos até fartar – explicou. – Não sentíamos qualquer cansaço. Foi uma situação difícil de explicar. Atrás de uns caminhos vinham sempre outros. E Terrez foi sempre dizendo que era dono de tudo o que víamos. O que sei é que, a dada altura, estávamos de regresso a casa, como se realmente tivéssemos dado a volta ao planeta, ou à cidade, e reencontrado o ponto de origem, sem nunca termos atingido o lugar que procurávamos. Depois, Terrez estacionou o automóvel amarelo no pátio e até hoje não voltou a meter-se nele porque, ao entrarmos em casa, deu-se aquele grande clarão que abalou a cidade, destruindo-a.



22

Mireu pensava, imaginava Luana a seu lado e, no quarto despido, sobre a cama de ferro, afagava o próprio sexo. Luana estava com um vestido finíssimo de um pálido cor-de-rosa puxado para o pescoço, os seios revolvendo-se, pequenos e rijos.
Mireu trepava pelas ancas de Luana e toda ela se abria sem tirar as calcinhas. Ele tentava abrir a braguilha, mas ela pedia que “não, não”, e fazia uma beicinha de angústia, permitindo que ele lhe trincasse os seios como um ratinho sequioso.
Luana fechava os olhos por detrás do vestido feito cachecol e pedia-lhe:
– Deixa anoitecer primeiro, Mireu. Alguém pode ver. Ainda é cedo. Não estou preparada.
Ele sentia o sexo enrodilhado dentro das calças, sem encontrar forma de se libertar, embora sobre a cama de ferro tivesse oportunidade de acarinhar o sexo a seu belo prazer. Estava só, mas tinha Luana na ideia. O imaginário, por si, já era palpável. Mireu ia reconstituindo a cena, sorvendo a memória do pescoço de Luana e retesava-se todo como se acordasse naquele momento.
“Por onde andas agora, Luana?”, pensava ele. “Tenho-te aqui como antes, completa e tocável. Pensas que fugiste, mas não. Tenho-te sob as asas do meu desejo, da recordação adocicada. Estende mais as pernas, Luana, só mais um bocadinho…” e Mireu pressentia os pêlos em cacho sob as calças húmidas, de repente. Luana fazia movimentos de anca como se estivesse despida, mas não estava, o que talvez fosse melhor, afinal. Se ela deixasse fazer tudo, seria a primeira vez para Mireu. No fundo, ele tinha medo. Como encontraria o orifício? E se não o encontrasse? Nessa altura, ela perceberia que ele nada entendia do assunto.
“Deixa ficar as calcinhas”, disse Mireu. “Sentes-te bem? É quase noite. Tens a certeza de que ninguém nos descobrirá? Sabes a que altura do chão fica a janela deste quarto?”
Subitamente, o cheiro a cavalos e pólvora saltou para o meio do quarto, Mireu disse que até parecia impossível o que estava a acontecer e depois veio o cheiro das cascas de laranja que ele tentava afastar como quem repelia o diabo.
“Estou quase… estou quase…”, dizia Mireu. “Onde te meteste, Luana? E eu a pensar que estavas ao pé de mim. Andas a gozar-me, ao abandonar-me num momento destes. Eu estava quase, Luana”.
A porta abriu-se e Luana surgiu, antes que fosse tarde demais. “Como conseguiste safar-te?”, pergunta Mireu. “Estavas aí e eu não te via. Como é possível uma situação destas? Dizes que te escondeste dentro do meu esquecimento, mas não acredito. Estás a enganar-me. Pensas que o isolamento me tirou o juízo, por isso vais e vens como a agonia. Fazes-me sofrer. Voltemos ao princípio, ao princípio de tudo, vai lá, põe as pernas na posição em que as tinhas antes, não é preciso tanto, assim está bem, ora vejamos: eu estava na zona do umbigo, tens os mamilos murchos, Luana, não brinques, se queres ter prazer a sério tira as calcinhas e verás como é, julgas que sou imbecil e não entendo destas coisas ou quê? Ui… tenho aqui uma dor na perna direita, sim, aí mesmo. É melhor pararmos por aqui, Luana, hoje não me pareces muito bem, e eu tenho esta dor na perna que não me larga. Estou sozinho, esquecido. Mudaste muito, Luana. Mudaste muito desde a última vez que te vi. Apetece-me chorar eternamente. Se eu chorasse, as minhas lágrimas haviam de ir tão longe como as estrelas. Queria que as tuas mãos me impedissem a visão da Terra e dos Homens. De ti, só quero isto, afinal. Ao fim e ao cabo, sou um farrapo. Que é que os amigos vão pensar de mim? Estou-me nas tintas para o que digam, mas a verdade é que custa, lá isso custa. Eles aí vêm, os cavalos, os cavalos aí vêm. Acode-me, Luana! A pólvora. Os teus beijos sabem a casca de laranja. Pára com isso, desculpa, não dá, onde estou? Que raio de quarto é este onde me meteste? E estas aranhas? As aranhas são traiçoeiras e destroem o cérebro quando menos se espera. Que dia é hoje? Devo ter enlouquecido. Loucura só pode ser isto. Fui apanhado. Pronto, cheguei ao fim. Reduzo-me a pó sobre o corpo imaginário de Luana. Torno-me inútil no voo dos insectos, os eternos esquecidos dos Homens. Sou menos do que um escravo. O meu pénis encolhe, encolhe e fica do tamanho de uma cereja. Socorro! Abram a porta. Não aguento mais!”



23

Nos últimos tempos, Nícora aparecera com uma grande barriga. Artujo andava intrigado. Não parava de magicar, de procurar hipóteses explicativas para aquela mudança no corpo de Nícora. Perguntava-se a que poderia ser aquilo devido, mas não encontrava resposta. Não se podia dizer que Nícora fosse uma pessoa magra, mas a verdade é que o seu ventre estava um exagero, uma coisa nunca vista que Artujo jamais presenciara ao longo de todos os seus anos de vida. Já tinha alguns na pele. Os suficientes para ter aprendido a decifrar o mistério da Santíssima Trindade, conhecer Deus e os Homens por dentro e por fora, ter experiências com mulheres. Quando tivesse trinta anos não havia de pensar de forma diferente. Só uma barriga daquele tamanho era uma coisa francamente esquisita.
Que se teria passado com Nícora? O melhor seria perguntar-lhe directamente, sem rodeios. Já a tinha visto nua no tanque da roupa. Embora poucas vezes e sem grande sucesso já tinha mesmo estado com ela na cama. O pior de tudo tinha sido a escuridão. De qualquer modo, a barriga grande de uma mulher não era uma situação necessariamente embaraçosa.
Artujo foi à cozinha. Nícora lavava os pratos depois do almoço. Ele espetou-lhe o indicador no ventre dilatado e perguntou sem mais nem menos:
– Por que tens a barriga tão grande?
Ela olhou-o, surpreendida, corou, pensando na resposta que poderia dar, mas travou as palavras e desatou a rir nervosamente.
Artujo achou estranha aquela reacção porque Nícora estava geralmente triste e deprimida, soltando ais por todos os cantos da casa. Pudera, sempre a lavar pratos e a esfregar roupa.
Com um sorriso pouco natural, Nícora acabou por confessar que tinha a barriga grande porque estava doente.
– É uma doença – sublinhou ela.
Ao ouvir o termo “doença”, Artujo sentiu-se tremer e abriu muito os olhos, como se lhe custasse acreditar no que ouvia. Nícora estava doente e nada lhe dissera. Artujo engoliu o eco das palavras que ouvira. Doente. Grande doença devia ser a de Nícora para lhe deixar a barriga daquele tamanho.
– Por que não vais ao médico? – perguntou Artujo, procurando esconder a preocupação com o estado de saúde de Nícora. – Deves tratar-te, imediatamente. Pode ser grave.
– Não te preocupes – respondeu Nícora. – Isto há-de passar.
– Mas, Nícora, é perigoso ter a barriga assim dilatada! Toma cuidado.
– Deixa lá, já estou habituada.
Artujo afastou-se, com um grande peso no coração. Matutava, matutava naquilo. Não conseguia perceber como Nícora não denotava preocupação pela doença que tinha. Nem entendia por que razão ela perdera o à vontade quando lhe fizera a pergunta à queima-roupa. Algo de estranho devia estar para acontecer. Artujo nunca mais deixou de pensar na conversa que tivera com Nícora. À noite, acordava sobressaltado, abria os olhos na escuridão e via gente de toda a espécie suspensa das paredes. Punham-lhe a língua de fora sem mais nem menos. Artujo não se mexia, petrificado de medo. Nem se escondia debaixo dos lençóis. Não gritava. Só continuava a mirar as figuras deformadas que iam e vinham nos lampejos azulados da escuridão. Era incapaz de desviar os olhos dos estranhos visitantes. O seu medo fazia que não pudesse deixar de os observar, à espera do que pudesse acontecer. Se aquela gente ali estava, alguma razão haveria. E muito mais àquela hora.
Artujo não dormia até que viesse a madrugada e levasse na sua palidez as figuras que passavam a noite dependuradas nas paredes do seu quarto, como os macacos num jardim zoológico. Outras vezes, Artujo nem tinha tempo de adormecer. Ouvia barulho no quarto de Nícora, gemidos e frases entrecortadas assim: “Não… não… mais devagarinho, estás a magoar-me”. Que seria aquilo a altas horas no quarto de Nícora? Se ela dormia sozinha, quem poderia estar a importuná-la? Talvez Nícora estivesse pior da tal doença da barriga e tivesse chamado um médico de urgência. “Mete… mete… mas devagar”, dizia Nícora. “Mete… mete…”, pensava Artujo. Que estaria o médico a meter no corpo de Nícora? Uma injecção não podia ser porque ao apanharem injecções as pessoas não diziam “mete… mete…”. E então se Nícora tivesse piorado de um momento para o outro não o teria chamado a ele?
Tudo aquilo vinha confundir os aflitos pensamentos de Artujo. A partir de então, passava noites inteiras em claro, à espera de ouvir Nícora gemer. Às vezes, ela não gemia. E ele sempre à espera. Com todos os diabos. Antes Nícora se pusesse a gemer como de costume.
O Sol nascia e Artujo mantinha-se hirto entre os lençóis, a ver quando o médico chegava, só para ouvir Nícora gemer e dizer “mete… mete…”.
Por mais que se esforçasse, Artujo não dormia. Estar acordado era uma maneira de proteger Nícora. Nunca se sabia o que lhe podiam fazer.
Depois, Artujo começou a temer seriamente que Nícora morresse. Quem está doente pode morrer quando menos se espera, pensava Artujo. E nunca mais dormiu em dias de sua vida. Nunca mais dormiu, que se lembre. Que tivesse consciência de tal. Não só por passar as noites à espera dos gemidos de Nícora, mas também por estar à espera do último suspiro dela.
Quando ouvia Nícora gemer, porém, Artujo não se atrevia a socorrê-la. Podia ser muito pior se acaso surpreendesse o médico a espetar-lhe uma agulha nas nádegas. A solução era esperar. Havia que ser paciente. Esperar, sem precipitações, sob o medo constante de, um dia, ir encontrar Nícora, gelada e pálida, sobre a cama.



24

Arueta vagueava pelos quartos da casa com as coxas, as pernas, rebolando-se dentro de uma saia verde até aos pés. Passou os olhos pelo sofá de riscas brancas e pretas, percorreu o tapete de corda em todas as direcções, ajeitou a mesinha de cana, fixou o relógio com os ponteiros parados e foi sentar-se ao lado de Silécio, que estava imobilizado como uma estátua num dos cantos menos visíveis da casa.
Mireu falava para dentro de algumas garrafas vazias de cerveja e a sua voz ecoava de forma estranha na intimidade do vidro. Acariciava a cadeira de vimes, como numa despedida, fazendo-a ranger sob o corpo amolecido. Parecia estar farto de tudo: de Arueta, de Silécio, de Terrez. Era como se antecipasse, ou desejasse, a sua agonia derradeira.
No rosto de Arueta, lia-se a ideia de que aquele não era o seu mundo. Era outro o mundo das mulheres, do carinho, da ternura espontânea e primitiva. Arueta era quase selvagem nessas alturas e aparentava uma distância assustadora em relação a tudo, ao ponto de nem o velho Terrez a perceber com facilidade. Havia momentos em que, para Arueta, só fazia sentido estar sentada ao lado de Silécio.
Assim foi: Mireu substituiu a cadeira de vimes por uma cadeira de rodas, que encontrou não se sabe onde. Talvez tivesse previsto tudo aquilo: a tempestade, o calor, e tenha guardado a cadeira de rodas algures desde outros tempos. A não ser que a tivesse descoberto entre o lixo nas ruas da cidade.
Estava cada vez mais pálido. Os seus pés assemelhavam-se a dois melões revestidos de pele humana. O seu passatempo favorito era estar sentado na cadeira de rodas cujos braços metálicos despidos de conforto afagava insistentemente.
Mireu já não se irritava com a presença de Silécio. Dedicava-lhe uma indiferença inesperada e natural. Mirava absorto e triste a bicicleta velha encostada à parede branca, as duas abóboras, a árvore que Artujo plantara e que nunca perdera o colorido, movia os lábios na direcção do candeeiro de pinho sem que se ouvisse qualquer som na sua boca gretada, batia com as mãos nos joelhos ao ritmo da ausência do tempo. Mireu não voltara a falar na maré cheia, nem sequer na cor enferrujada dos dias.
Arueta pensava com o queixo sobre as mãos e através da janela namorava o crepúsculo, como se este fosse um homem ou mais do que isso.
Terrez apareceu, rasgou o mutismo geral e disse:
– Há certas agonias suaves como os desmaios. É preciso tomar atenção porque Mireu pode entrar em decomposição de um momento para o outro. Traz o candeeiro aqui para junto de Mireu, minha boa Arueta. Nunca vi uma agonia assim. Um cristão diria que é a morte de um santo. Mas ele não era santo nenhum. Ora reparem como um jovem agoniza prematuramente, sem razões para isso. É verdade que ele tinha os seus problemas, mas não era caso para morrer assim.
– Escondia-os todos – disse Arueta. – Era muito orgulhoso. Demasiado orgulhoso. Nem comigo era capaz de se abrir. Eu já pressentira que ele acabaria cedo. Quando desabafava, ou quando pretendia fazê-lo, Mireu incluía bastante imaginação nos seus relatos. Quase posso dizer que mentia sem que ele próprio se apercebesse disso. Nunca conseguiu organizar os seus raciocínios. Era um insatisfeito, embora não o reconhecesse. Quando usava a violência, Mireu fazia-o de uma forma estranha como se essa violência lhe fosse estranha ou remontasse a um tempo que o antecedia. Creio que Mireu deve ter sofrido muito, bastante mais do que sabemos. Mireu não tinha capacidade de encaixe para tanta dor. Era bom homem. Escrupulosamente generoso – dizia Arueta, deixando correr a primeira lágrima – ainda que, por vezes, não fosse fácil distinguir isso nele porque Mireu não gostava de manifestar os seus sentimentos. Preferia que fossem os outros a descobri-los. Tinha um grande prazer em desdobrar-se através de imagens que não lhe pertenciam. No fundo, jogava consigo e com os seus fantasmas, como faz toda a gente. Se eu lhe dizia: “Mireu, és um traumatizado!”, ele ficava rubro de espanto e pavor. Negava-o terminantemente. Negava-o a toda a hora. Até se esquecer da minha afirmação.
Mireu saiu da sonolência em que se deixara abater e voltou a palpar os músculos das pernas, alargando as narinas como se o ar lhe faltasse. Penteou-se demoradamente com a polpa dos dedos. Deu pequenos toques na nuca e ouviu-se o ruído de quem bate à porta de uma casa vazia.
Terrez fez sinal com os olhos a Arueta, mas ela já não ia a tempo de se conter e disse:
– É chato que me vejas como uma mulher imatura, Mireu. Não consigo ser de outra maneira. – Arueta estendeu as mãos para Mireu. – Mas tudo tenho feito para te demonstrar que já não sou uma criança.
O gato eriçado apareceu sobre o peitoril da janela. Arueta foi lá e pôs-se a fazer sinais com as mãos para o bicho, que tinha os pêlos erguidos e brilhantes como aquelas rendas prateadas com que se enfeitam as árvores de Natal. Arueta encostou o dedo mindinho à vidraça e o gato lambia-o, lambia-o do outro lado como a um chocolate.
Com as mãos sobre os joelhos, Mireu disse para Arueta:
– Estás eufórica porque me vês na cadeira de rodas. Talvez penses que vou mesmo morrer. Julgas que estou inutilizado, paralítico. Acreditas no que disse Terrez quanto à possibilidade de esta ser a minha derradeira agonia. Não entres na jogada do velho.
E para Terrez:
– Já era tempo de teres juízo, meu animalzinho de corda. Estás mais frustrado do que nunca. O que tu queres é ir para a cama com Arueta. Mas n