Sem coração

 
  contos em versão integral  
     
 


ESTER tinha um cheiro insuportável. Era uma mulher bonita, inteligente, meiga. Possuía todas as qualidades que se desejam numa pessoa, mas tinha o defeito de cheirar a produtos farmacêuticos ou a uma qualquer enfermaria de hospital.
Não se tratava de uma questão de higiene. Nada disso. Ester era especialmente limpa e nem sequer trabalhava em qualquer farmácia ou hospital. Simplesmente, aquele era o seu cheiro e pronto! Não havia nada a fazer.
Ost amava-a, mas não conseguia superar a repulsa física que sentia por ela. Deitava-se com aquele odor a seu lado. Adormecia. Acordava a meio da noite e a situação mantinha-se. Era um cheiro intenso que lhe fazia companhia pelas horas dentro. Ficava sempre com aquele fedor na cama, nos móveis, nos quartos, em toda a parte. Levantava-se, ia à cozinha, aos lavabos, à sala de estar e nada se alterava.
Como Ost era especialmente avesso a doenças, hospitais, medicamentos, fazia um enorme sacrifício em partilhar com ela os principais momentos da sua vida.
Sempre que ele se aproximava de Ester, havia uma força que o empurrava para trás e que o impedia de consumar qualquer gesto no corpo dela.
Durante o dia, Ost procurava esquecer, pensar noutras coisas, distrair-se com isto e com aquilo. Mas raramente conseguia libertar-se do cheiro de Ester, apesar de reconhecer que, no fundo, ela tinha uma forma de ser atenta e delicada, o que aumentava ainda mais a contradição em que vivia.
Com o tempo, a situação tornou-se cada vez mais intolerável para Ost. Era incapaz de se habituar ao cheiro de Ester.
Contudo, não encontrava coragem para falar com ela sobre o assunto, dizendo-lhe quanta repugnância sentia nas alturas em que estavam juntos. E Ester, por seu lado, parecia não se aperceber do problema.
Ia ter com ele sempre feliz e cheia de projectos. Fazia-lhe perguntas sobre a sua vida, sobre como decorrera o dia, sobre como se sentia, sobre o que pretendia fazer e, depois, falava dela, das suas tarefas, dos seus planos, dos seus momentos de cada dia com uma graciosidade incomparável que deixava Ost completamente vergado ao peso das suas próprias repulsas.
A partir de certa altura, já quase o aterrorizava pensar que teria que estar com ela. Então, perguntava a si mesmo por que motivo havia de continuar uma tal relação, ainda por cima sabendo que nunca conseguiria, um dia, deitar-se com Ester na mesma cama. Mas não encontrava resposta para a sua dúvida fundamental.
Só conseguia perceber que gostava muito de Ester e que a consideraria, até, a mulher ideal, caso não houvesse aquele problema do cheiro que inundava o seu corpo e tudo em redor.
Ost não sentia à vontade para falar com quer que fosse acerca do assunto. Tinha a certeza de que os amigos não o compreenderiam, ou que não dariam importância à sua preocupação. Se calhar, algum até o aconselhariam a consultar um psiquiatra, pondo a hipótese de tudo não passar de imaginação da sua parte.
Sentia-se como quem estava fechado num quarto sem janelas para respirar. Depois de Ester sair de sua casa, passava o tempo em limpezas: desinfectava os móveis, esfregava a loiça, punha a roupa a lavar, tomava duche, sacudia os objectos como se estes pudessem estar impregnados de um vírus contagioso e, ao fim de horas, sentava-se a pensar no que havia de fazer, sem chegar a qualquer conclusão.
Os olhos azuis perspicazes e vivos de Ester acabavam por sobrepor-se a todas as soluções que procurava construir para se libertar daquele medonho cheiro. Procurava descobrir-lhe outros defeitos, mas não os encontrava. Aventureira, fiel e bem formada, Ester tornara-se praticamente indestronável no seu coração.
Quando estavam juntos, falavam de música, de literatura, de artes em geral, de política, de filosofia, de pedagogia, de um nunca mais acabar de universos que podiam muito bem tornar o futuro de ambos promissor e estimulante.
As famílias aprovavam a relação, considerando que Ost fizera uma excelente escolha. E ele não tinha outro remédio senão concordar com os argumentos que lhe apresentavam. Toda a gente gostava de Ester. Diziam dela o melhor, realçando a sua seriedade, a sua beleza física, a sua simpatia, a sua capacidade de atenção, a sua inteligência, a sua disponibilidade.
Depois, o círculo de amigos dela era verdadeiramente invulgar: pessoas sensatas, trabalhadoras, estudiosas, cumpridoras, sinceras, empenhadas em causas sociais e intelectuais.
No meio de tanta virtude, Ost até já duvidava do seu olfacto! Provavelmente, o defeito era dele. Provavelmente, encontrara aquela desculpa para acabar a relação com Ester, por não ter coragem de assumir qualquer outro motivo que estaria oculto no seu inconsciente e que, no fundo, provocaria aquela desalmada repulsa por ela. Provavelmente, não acreditava que fosse possível uma mulher ser tão perfeita. E, então, desconfiava, duvidava, suspeitava intimamente...
Nessas alturas, punha–se a andar pela casa à procura de uma outra origem para o maldito cheiro a enfermaria de hospital: revirava papéis, espiolhava talheres, desfazia a cama, espreitava para dentro dos armários, investigava os produtos da casa de banho, mas não encontrava nada.
E o pior é que mesmo não estando Ester presente, o tresloucado odor se mantinha em todos os quartos com uma intensidade injustificável.
Um dia, Ost decidiu mesmo partir por uns tempos, a ver se no regresso a situação estaria resolvida. Tomou avião para os Açores e ficou por lá um fim-de-semana inteiro, sem dizer ai nem ui a quem quer que fosse.
Imaginou que o telefone não pararia de tocar em sua casa, com Ester tentando saber do seu paradeiro, mas decidiu que depois inventaria uma desculpa qualquer. Ela não era desconfiada, por isso não haveria problema. E, se houvesse, tanto melhor, ficaria a questão do seu namoro resolvida de uma vez por todas!
Ost hospedou-se em Angra do Heroísmo. Passeou pelas ruas, entrou em lugares, cheirou as manhãs da cidade, encontrou-se com dois velhos amigos, conheceu pessoas novas, viveu despreocupado. E tirou todas as dúvidas que pudessem existir acerca do odor de Ester: o problema era mesmo dela!
Regressou a casa decidido a resolver a questão de uma vez por todas. Telefonar-lhe-ia e diria que precisava de ter uma conversa muito franca com ela. Abrir-lhe-ia o seu coração, contar-lhe-ia o seu sofrimento, descrever-lhe-ia a mágoa que o torturava e Ester, decerto, seria compreensiva com ele, aceitando as suas explicações.
Marcaram encontro num café e Ester compareceu pontualíssima. Vinha sorridente, leve, arejada. Sentou-se à mesa diante de Ost e quis saber por onde andara ele. Depois de saber que estivera nos Açores, abriu os olhos de espanto e comentou sem uma ponta de ressentimento:
– Mas que bom, Ost. Tiveste uma óptima ideia! Divertiste-te muito?
Perante semelhante entusiasmo, é evidente que ele se sentiu atolado em dúvidas sobre o que diria a seguir. Ester era, de facto, um caso à parte. Nunca o condenava, nunca o reprimia, nunca o impedia de fazer o que quer que fosse, nunca discordava dele.
Acabar com uma relação daquelas só por causa de um cheiro, ainda que horrível, era quase um crime. Ost decidiu, por isso, repensar a sua posição. E, para não magoar Ester, contou-lhe o que fizera nos Açores, o que vira, o que descansara.
E ela só acrescentou:
– Não te esqueças de que, para a próxima, também quero ir!
Como não tinha coragem de lhe dizer de frente o que sentia, Ost optou por ir mudando, suavemente, o seu convívio com Ester. Passou a telefonar-lhe menos vezes e, quando se encontrava com ela, acabava por apresentar uma desculpa, dizia que precisava de ir a um sítio qualquer.
Ester, no entanto, nem por isso parecia acusar a diferença da sua postura. Aceitava sempre da melhor forma o que ele dizia, independentemente de as situações lhe serem mais ou menos favoráveis.
Quando se encontravam juntos, Ost chegou mesmo a telefonar para umas amigas, a ver se Ester dizia alguma coisa, a ver se denotava perturbação, a ver se manifestava ponta de ciúme. Mas nunca! A mulher era absolutamente superior a tudo o que Ost pudesse fazer.
Intrigado com o que se passava, ele entendeu dar mais atenção a Ester. Seria que ela funcionava normalmente? Seria que alguma coisa na infância a havia traumatizado de forma que, uma vez ultrapassado o problema, não havia nada que a pudesse desequilibrar minimamente? Seria que Ester vivia neste mundo? Não tinha olhos para ver que ele estava farto do seu cheiro até à mais recôndita imaginação e que só não lhe falava no assunto porque simplesmente não tinha coragem?
Um dia, Ester contou-lhe que só tivera um namorado na vida. Ost quis logo saber pormenores, tendo em vista o esclarecimento do drama interior que vivia.
Então, ela disse-lhe que o indivíduo era um brutamontes, que não lhe dava um minuto para respirar, que todos os dias a tentava violentar, que ia esperá-la à porta do emprego para que outros homens não olhassem para ela, que não a compreendia, que ridicularizava os seus desejos mais sinceros, que a agredia verbalmente sem motivos, um sem número de misérias e tristezas.
Ost ficou boquiaberto a olhá-la, tendo dificuldades em perceber como tinha sido possível Ester conviver com semelhante energúmeno.
Ela comentou, entretanto, que a vida tinha os seus aspectos misteriosos e que, por isso, nem tudo era fácil de explicar.
– Imagina que ninguém na minha família concordava com o namoro – sublinhou – e mesmo assim mantive-o durante dois anos!
Ester tentou mudar o estafermo do antigo namorado, mas não conseguiu. Por isso, um dia, mandou-o passear. Contudo, nem assim se viu livre dele. O homem perseguia-a, ameaçava-a, continuava a ir esperá-la à porta do emprego, implorava a sua atenção e chegara mesmo a ajoelhar-se-lhe na rua aos pés, chorando e pedindo perdão pelo seu comportamento.
Ela ainda voltou a fazer mais uma tentativa de relação, mas, ao fim de uma semana, o fulano já se esquecera de todas as promessas. Por isso, ela arrumou o caso de uma vez por todas. E ele acabou por aceitar o fim do namoro, reconhecendo que não merecia viver com uma pessoa tão impecável como Ester.
Em toda a história, não houvera uma única referência ao cheiro de Ester, o que deixava Ost cada vez mais só com o problema que sentia.
– Assim, vim cair nos teus braços – acrescentou ela para Ost, apanhando-o desprevenido.
E, em resposta, ele apenas gaguejou qualquer coisa, sem saber o que dizer, mas reflectindo profundamente no que acabara de ouvir.
Dias mais tarde, teve a ideia que há tanto tempo procurava: passaria a sair com outras mulheres, com o objectivo de esquecer Ester. A alternativa não lhe agradava por aí além, mas ante o bloqueio que sentia, chegou à conclusão que não havia outra hipótese. Era a única solução.
A primeira tentativa que fez não foi propriamente animadora. Estava numa paragem de autocarro e reparou que uma mulher não tirava os olhos dele. Pensou em abordá-la, mas não foi capaz de decidir que palavras lhe dirigiria. Se calhar, até se tratava de um equívoco. Ela devia estar a confundi-lo com outro. Se ele lhe dissesse alguma coisa, seria com certeza mal interpretado. A mulher podia reagir agressivamente e humilhá-lo diante das outras pessoas que se encontravam na paragem. Ainda pensou em arranjar um pretexto mas depressa concluiu que a situação soaria a falso e não estava disposto a correr riscos.
O melhor era aguardar pela altura certa. Não tinha necessidade de abordar mulheres na rua, por pior que fosse a sua vida afectiva.
No emprego, convidou uma colega para jantar. A resposta foi negativa, mas ela apresentou-lhe uma prima nesse mesmo dia, tendo ficado combinado que iriam ao cinema no fim-de-semana seguinte.
A primeira coisa que Ost fez quando se encontrou com a prima da colega foi aproximar-se dela para verificar o seu cheiro. Só que a mulher reagiu com estranheza e perguntou se ele não estava a ir longe de mais!
– Não é por nada – explicou ele – mas é que ando com umas dúvidas que gostava de esclarecer...
– Olha que não sirvo para essas coisas – foi o comentário pronto e ríspido que ouviu.
Entraram para o cinema e Ost não conseguiu dizer mais nada. A reacção pouco amigável da prima da colega deixara-o inibido e revoltado consigo mesmo.
"Não tinha nada que me pôr a cheirar a mulher...", reflectiu interiormente. "Já estraguei o serão".
Durante o filme, ele só pensava em como reparar a sua deselegância. Não se atrevia a aproximar-se dela para além do braço da cadeira e, conforme via pelo canto do olho, a mulher mantinha-se hirta, sem mexer um dedo ou um músculo da face.
"Já não tenho hipóteses", pensou Ost. "Tudo o que possa fazer agora só piorará a situação".
No fim da sessão, ele ofereceu-se para ir levá-la a casa, mas ela respondeu que não era preciso, pois sabia muito bem o caminho.
Ost sentiu-se tão mal que até desejou que Ester estivesse ali naquele momento só para se lançar nos braços dela e pedir-lhe perdão por aquela tentativa frustrada de traição.
Entrou em casa a correr e deitou-se na cama, tentando recompor-se do momento desagradável que vivera. Pior seria o que a prima iria contar à colega, se calhar ainda naquela mesma noite, acusando-o de actos que nunca lhe haviam passado pela cabeça. Depois, toda a gente comentaria no emprego o seu comportamento, pensando dele coisas nefastas.
Ost não pregava olho. Sentia-se angustiado com o rumo que a sua vida estava a tomar. Mas nem por isso havia de desistir de encontrar uma solução para o seu caso. E então recordou-se que aquela não era a primeira vez que tinha problemas com o cheiro de uma mulher.
Quando ainda era adolescente, apaixonou-se pela sobrinha de uma amiga da mãe. A partir dessa altura, passava o tempo todo atrás dela, pedindo-lhe namoro e escrevendo-lhe poemas com rimas que copiava de um caderno secreto do irmão mais velho.
Um dia, quando teve oportunidade de estar a sós com ela, tentou beijá-la de surpresa. Mas, ao levantar o braço para se defender, a rapariga deixou que o cheiro nauseabundo do sovaco entrasse pelas narinas de Ost. E, nesse preciso instante, toda a poesia que lhe havia escrito morreu na sua alma como uma pomba de coração atravessado.
Ost nunca mais voltou a estar com a rapariga. Quando a via na rua, cumprimentava-a de longe e continuava o seu caminho, não fosse ela abraçá-lo, de repente, e ele ter que suportar mais uma vez o odor repelente do seu sovaco.
"Será por causa desta experiência que, agora, tenho horrores ao cheiro de Ester?", perguntou a si mesmo, enquanto dava uma volta na cama e logo outra a seguir, para verificar se o despertador estava marcado para a hora certa.
Alguma coisa havia de ter acontecido na sua vida que o levava a reagir tão mal ao corpo da mulher com quem andava.
Já nem sabia como havia de estar com Ester. Quando voltasse a encontrar-se com ela, perguntava a si mesmo o que diria, depois de lhe ter tentado ser infiel. Era natural que ela, finalmente, notasse alguma diferença nele.
Ost há muito que desejava que assim acontecesse, de facto, mas depois do que sucedera no cinema com a prima da colega, já não tinha a certeza sobre o que fazer.
Na segunda-feira seguinte, reparou que não paravam de olhá-lo de soslaio no emprego, confirmando, assim, que a prima da colega devia ter dito o pior acerca dele. Tentou abordá-la várias vezes para lhe explicar o que acontecera no fim-de-semana, mas ela esquivou-se ao longo de todo o dia, como se receasse ser assaltada por um maníaco.
Quando se encontrou com Ester naquela tarde, notou que ela estava completamente diferente: mais expansiva do que nunca, tinha cortado o cabelo à escovinha, trazia uma blusa extremamente decotada e uma saia vários palmos acima do joelho. Dava a ideia de ser outra pessoa! Ost não resistiu a comentar o que os seus olhos viam...
– Talvez assim te interesses mais por mim – disse ela.
Mas ele apressou-se a explicar que ela não necessitava de recorrer a tais excessos para cativar a sua atenção. – Sabes que sempre me interessei por ti – acrescentou.
– Às vezes, não parece – replicou ela.
E Ost não foi capaz de dizer mais nada. Não era um repentista, por isso, geralmente, quando o provocavam, ficava a remoer as palavras, sendo muito provável só encontrar a resposta satisfatória horas mais tarde, ou até no dia seguinte
Ester sugeriu que fossem para casa dele. De início, Ost ainda hesitou, receando ver o seu espaço de novo empestado pelo cheiro de hospital que ela transportava, mas, pensando duas vezes, acabou por aceitar a ideia, a ver se as mudanças operadas por Ester no seu aspecto físico teriam contribuído alguma coisa para atenuar o odor que tanto o perturbava.
Chegados a casa, sentaram-se no sofá e Ester não demorou a encostar-se a ele, enchendo-o de carinhos e de atenções. Só lhe faltava sugerir que fossem para a cama!
Mas Ost reparou que, afinal, o cheiro de Ester continuava colado ao seu corpo como sempre. Nada se alterara nela, apesar da nova aparência. Por isso, não conseguia suportar a ideia da mínima intimidade física.
Pensou, então, em meter uns algodões no nariz, a ver se ultrapassava a situação inquietante em que se encontrava. É que, naturalmente, Ester ainda podia pensar que havia qualquer problema com ele... E já lhe bastava a ideia com que haviam ficado a seu respeito no emprego, por causa do que acontecera com a prima da tal colega. Agora, Ost corria o risco de ver a sua reputação afectada, precisamente pelas razões opostas!
Num rasgo de impaciência, dirigiu-se à casa de banho e enfiou dois pedaços de algodão nas narinas. "Sempre tenho a boca para respirar...", pensou.
Logo a seguir, voltou para junto de Ester e esperou que ela tomasse a iniciativa. Só que ela o fixou, arregalou os olhos e lhe perguntou se estava com algum problema.
Ost respondeu que não, mas o seu falar nasalado denunciou imediatamente o que se passava. Ester pôs-lhe as mãos no nariz e quis saber o que faziam ali os algodões.
Embaraçado, Ost esclareceu que às vezes sangrava do nariz, por isso tinha recorrido àquela solução preventiva.
– Oh Ost, deves tomar cuidado contigo – disse ela. – Não quero que te aconteça mal nenhum. Vais deitar-te a descansar e vou fazer-te um chá imediatamente...
Ester conduziu-o até à cama e, depois, dirigiu–se para a cozinha, enquanto dizia:
– Descontrai que já vou ter contigo...
Ost ficou estirado sobre os lençóis a pensar na sorte. A vida não lhe reservava saída. Respirava pela boca como um crocodilo a fazer poemas às nuvens. Os algodões no nariz faziam-lhe impressão, mas, agora, não podia tirá-los, ou Ester teria um novo acesso de paixão física incontrolável. Daquela forma, ao menos, não sentia cheiro de coisa alguma, nem de hospital, nem de produtos farmacêuticos. Mais valia morrer, assim, sem perspectiva. Não seria necessário ingerir medicamentos ou pedir a Ester que deixasse aberto o gás do fogão. Os seus dias estavam perto do fim. Ao menos, era o que desejava. Não lhe apetecia experimentar mais nada. Depois dos odores de Ester, nenhum outro corpo se justificaria. Muito menos o dele.
Iam longe os tempos em que os seus pés corriam sobre a relva dos jardins, despertando os cheiros silvestres na paisagem. E tudo era livre, tudo era puro, tudo era saudável. Ele via as coisas, as pessoas, os montes, as ruas e imaginava que a vida não tinha segredos, nem complicações. Por isso, debruçava-se, às vezes, na janela do seu quarto, pela noite dentro, esquecido das horas, a contemplar a escuridão que vagueava sob o luar. O mundo cheirava a terra molhada, sementes invisíveis, brilhos de astros no firmamento, espumas de mares que vinham de longe rebentar junto às rochas sobre as quais assentava a casa do seu sonho maior. Mas tudo desaparecera ao longo dos anos. E até a beleza de Ester estava contaminada por um odor nauseabundo que o aniquilava.
Decidida a fazê-lo enfrentar a realidade de uma forma ainda mais contundente, ela voltou para junto dele, com o chá quente que lhe prometera. E Ost teve que bebê-lo até à última gota sem pestanejar.
Sentia-se abatido. Não sabia se por causa dos algodões no nariz, ou se por se ver obrigado a simular semelhantes situações só para se ver livre do corpo dela.
Ester comentou o seu aspecto e disse:
– Se calhar, fiz mal em vir vestida desta maneira...
Depois, foi apagar a luz e deixou-se ficar sentada na beira da cama, pondo-se a olhá-lo sem palavras.
Ost fechou os olhos por uns momentos e sentiu como se os anos passassem a uma grande velocidade, permanecendo ele imóvel, para sempre, ali, com Ester sentada a seu lado a olhar...
Via-a enrugada, abatida sob o peso da idade, quase não podendo mexer-se, e ele esquelético, com os ossos à flor da pele, emudecido, enquanto recordava os acontecimentos principais da vida que deixara para trás.
O sono pesava-lhe sobre as pálpebras. Mantinha a boca aberta para respirar. Estava com os lábios ressequidos. Humedeceu-os com a língua.
Já não sabia se Ester era nova ou velha, se estava de saia curta ou comprida, se continuava a seu lado ou se teria partido. Mas não quis abrir os olhos para verificar.
Fez um esforço para se lembrar dos seus dedos das mãos. Já não se lembrava se eram finos ou grossos, grandes ou pequenos.
Os dedos dele e os dedos dela desapareciam no escuro. E surgiam mais à frente, nos anos, transformados em algas, evaporando-se...



LEONOR conheceu Ost num jantar em casa de amigos e foi logo seduzida por ele. Nunca chegaram a viver juntos, nunca chegaram a projectar o que quer que fosse, nunca, mas nunca, chegaram a conhecer-se razoavelmente sequer.
Era uma paixão recíproca em que não podiam estar separados, mas em que, ao mesmo tempo, também não podiam estar juntos completamente e sem barreiras.
Ost nunca percebeu porquê. Ela não explicava coisa alguma. Quando ele tentava orientar a conversa para determinado ponto da intimidade, Leonor ficava muito corada e tensa, não sendo capaz de acrescentar fosse o que fosse.
Os seus diálogos acabaram por quase desaparecer. Mas nem assim os dois deixaram de se encontrar, de conviver, de partilhar os mais diversos momentos banais que a vida lhes proporcionava.
Ost foi levando os dias com paciência. Saía de manhã para o trabalho e, à noite, lá estava ela no sítio do costume à sua espera. Davam as mãos e passeavam pelas ruas da cidade indiferentes ao tempo e à vida que os rodeava.
Ele convidava-a para ir ao seu apartamento, mas ela dizia quase sempre que não tinha tempo, justificava-se com a necessidade de estar cedo em casa para não dar desgostos à tia com quem morava desde que deixara os pais para estar mais perto de Ost, tal a necessidade que tinha da sua companhia.
Certa vez, porém, Ost conseguiu que ela fosse passar o serão ao seu apartamento. Leonor entrou nervosa e encostou-se à primeira parede que encontrou como se tivesse medo de ser devorada por uma fera que a qualquer momento pudesse saltar da escuridão de um dos quartos.
Mas ele procurou descontraí-la. Levou-a para a sala de estar, pôs música a tocar, preparou-lhe uma bebida e depois sentou-se a seu lado satisfeito por ter conseguido trazê-la para o seu reduto.
Estava convencido de que o tempo havia de resolver o bloqueamento que ela sentia na relação entre os dois.
Naquela noite, Ost tentou aproximar-se dela, com todo o carinho de que era capaz, mas Leonor tornou-se rígida, recuando na poltrona em posição de defesa, como se ele fosse um lobisomem, enquanto dizia:
– Olha que grito, olha que desmaio, não me toques!
Ele desistiu. Talvez uns dias depois ela conseguisse acalmar, pensava. Recostou-se no sofá e procurou organizar o que tinha para fazer no dia seguinte.
Dali a pouco tempo, Leonor disse que talvez fosse melhor irem andando, para que a tia não ficasse preocupada.
– E, amanhã, tens que trabalhar – salientou.
Saíram os dois e vieram pela rua fora, de mão dada, sob os candeeiros da noite, enquanto os carros passavam iluminando as sombras movediças.
Ost notou que ela lhe apertava a mão, enquanto andavam. Pensou que aquilo seria um sinal da força da sua paixão. Correspondeu, apertando a mão dela, também. Só que Leonor voltou a apertar a mão dele com uma violência que o deixou perplexo!
Para não dar parte de fraco, não disse nada, mas a verdade era que sentia a sua mão praticamente esmagada dentro da de Leonor. E já não teve força para corresponder, já que ficara sem capacidade de reacção.
Logo que teve oportunidade, libertou-se das garras dela, a pretexto de tirar um cigarro do bolso e acendê-lo. Expeliu as primeiras baforadas de fumo com alívio, sentindo no entanto os ossos da mão doridos e magoados.
Quando acabou o cigarro, Leonor voltou a dar-lhe a mão. Ost ficou de sobreaviso, não fosse ela repetir a proeza de o esborrachar a um ponto em que ele quase ficava sem respirar.
Mas assim foi. Leonor começou a apertar, a apertar, a apertar, até que ele já esbugalhava os olhos por causa daquela tamanha dor que o fazia ver a noite clara como o sol do meio-dia!
Tentou tirar a mão, mas não foi capaz. Ela tinha muito mais força do que Ost, parecendo mesmo que naquele preciso instante ele estava reduzido a ser puxado pela trela do braço como um reles cão.
Entretanto, Leonor prosseguia a sua marcha com a maior naturalidade deste mundo, de cara levantada e firme. Ost apenas sabia que ela nunca tivera namorado, que era filha única, que gostava de sair com as amigas e que se queixava de ninguém a compreender.
Tinha cerca de 1.80 de altura, bem constituída, embora mantendo a elegância, e as suas conversas nada tinham de especial. Ost reparara que ela tinha as mãos grossas, mas nem por isso achou que alguma vez se viesse a deparar com uma situação daquelas.
Leonor nunca lhe havia dado sinais de agressividade, por isso era estranha e inexplicável a forma como lhe espremia a mão.
Ost pensou que, pelo facto de ela ser tensa, talvez procedesse assim com medo de o perder ou na tentativa de evitar que ele desaparecesse de um momento para o outro.
Como ele era o seu primeiro namorado, o argumento talvez não fosse tão pateta como à primeira vista podia parecer. Embora Leonor não fosse uma adolescente, na prática era uma iniciante nas coisas do amor.
Ost decidiu que seria melhor deixar o problema para outra ocasião em que ela estivesse mais descontraída para tentar abordar o assunto com naturalidade e, quem sabe, talvez fosse mesmo possível que a situação não se repetisse e o incidente passaria à história.
Animado por esta perspectiva, continuou a resistir à dor e não fez qualquer comentário, até que chegaram à porta do prédio onde Leonor morava com a tia. Deram um beijo de despedida, disseram "até amanhã" e foi cada um para seu lado.
Ele veio, então, pela rua fora a fazer ginástica com a mão, desentorpecendo-a, rodando o pulso, abrindo e fechando os dedos, sacudindo o braço, como se tivesse acordado de um pesadelo em que o seu membro fora desfeito e refeito por uma máquina de rodas dentadas gigantes que só por milagre o não havia devorado.
Passou por alguns noctívagos que o observavam com curiosidade devido aos movimentos que fazia com a mão e com o braço, a fim de superar a dor que o incomodava.
Chegado a casa, acertou o despertador, deitou-se e ficou uns tempos a pensar em Leonor, com os olhos pregados na direcção da janela. Não lhe saía da cabeça o facto de ela não ser capaz de manter um diálogo frutífero com ele, apesar de ser uma mulher com muitas ideias, segundo sabia. E o facto de por pouco não ter esmagado a sua mão dentro da dela intrigava-o acima de tudo.
Acordou no outro dia de manhã e a primeira reacção que teve foi verificar o estado da sua mão esquerda. Tudo normal. Reflectiu e chegou à conclusão de que no dia anterior talvez tivesse exagerado.
Por isso, não hesitou em encontrar-se de novo com Leonor. Quando o viu, ela correu para ele, abraçou-o e beijou-o com mais entusiasmo do que o habitual. Deram as mãos e foram os dois pela rua fora, como de costume. As suas vidas eram monótonas. Só a paixão era vibrante.
Com o tempo, Ost foi-se adaptando aos apertos de mão de Leonor enquanto caminhavam pela cidade. E ele até já parecia mais baixo do que era, só da ginástica corporal que fazia para suportar as dores dos apertos que ela lhe infligia, tal a sua regularidade. Ia andando ao lado dela, andando, andando, dizendo tolices, rindo, brincando, planeando coisa nenhuma, recordando trivialidades, sempre de mão dada, como se aquilo já fizesse parte de uma situação incontornável à qual ele já se adaptara plenamente.
Mas Ost nem por isso desistiu de, um dia, tentar conhecer melhor a pessoa com quem andava, nem que tivesse que recorrer a terceiros. Um dia, tomou a iniciativa de conhecer a tia com quem Leonor vivia.
Tocou na campainha da porta e esperou. Quando a tia abriu, explicou que Leonor tinha saído para comprar umas coisas. Convidou-o a entrar e sentar-se, explicando que a sobrinha não devia demorar. E ficou a fazer-lhe companhia.
Ost interessou-se por algumas fotos que estavam dependuradas na parede. E numa delas reparou que um homem sentado ao lado de Leonor, em criança, tinha uma das mãos enfaixadas. Era o pai.
A tia explicou, então, que tal se ficara a dever a uma dentada que Leonor lhe dera quando era miúda!
Ele desviou a conversa, mas sentiu-se perturbado, ao associar o que via na foto com os violentos apertos de mão de Leonor.
Não prestou atenção ao que a tia de Leonor lhe explicava sobre os pais dela, os parentes, a sua terra de origem, como era, como não era... Só pensava na dentada que ela dera ao pai e na possibilidade de ele mesmo poder, um dia, ser uma das suas vítimas.
É que se, em criança, Leonor dera uma dentada tamanha ao homem que a pusera no mundo, o que não faria ela, depois de adulta, àquele que partilharia a sua vida em todos os momentos?!
– Veja aqui esta fotografia... – solicitava D. Luísa.
Mas Ost olhava..., olhava... e não via nada. Respondia "uhm, uhm...", enquanto fazia contas de cabeça a ver se chegava a alguma conclusão sobre a dentada de Leonor na mão do pai.
Depois, D. Luisa conseguiu prender a sua atenção, quando, a certa altura, afirmou:
– Sabe que Leonor me tem sequestrada em casa?
De início, Ost teve sérias dúvidas sobre o sentido exacto das palavras que ouvira e ainda hesitou sobre o que responder.
Então, a tia de Leonor esclareceu:
– Estou proibida de sair. Ela não se importa que eu receba pessoas, mas não posso pôr um pé na rua. Para lhe dizer a verdade, nem sei por que motivo a minha sobrinha procede desta maneira. Nunca me deu uma justificação para a sua atitude.
Recuperando o sangue frio, Ost quis que D. Luísa lhe contasse melhor o que se passava, mas não foi capaz de a fazer falar muito mais. Na proporção directa da insistência de Ost, a tia de Leonor não esclareceu o mistério. Ele tivera a impressão de que, a dado momento, lhe faltava pouco para descobrir tudo, mas a mulher recuara... E depois ela desatou mesmo a chorar, limpando as lágrimas na ponta do xaile que tinha sobre as costas.
Ost sentiu-se desolado, sem saber o que fazer pela infelicidade da tia de Leonor.
– Que se passa?... – perguntou. – Desabafe comigo. Pode ser que eu encontre maneira de a ajudar!
Todavia, D. Luisa fazia gestos com a mão, dizendo que ele não se preocupasse, que não era nada de importante.
Ost pôs-se a andar aos círculos na sala, a ver se ela acalmava, conforme acabou por suceder. Nessa altura, apresentou as suas despedidas e saiu sem se dar tempo de reflectir sobre mais nada.
Entrou no primeiro café que encontrou, pediu uma garrafa de uísque, bebeu um copo, bebeu outro e outro, sem dar nas vistas, controlando-se.
Ao fim de pouco tempo, tinha esvaziado a garrafa. Encontrava-se sentado na mesma cadeira, diante da mesma mesa, no mesmo café, sem perceber o que se passava com ele e em volta. Mas tinha a certeza de não estar embriagado.
Pôs-se de pé, para o confirmar. Na verdade, nunca se sentira tão sóbrio. "Estas devem ser as autênticas e grandes bebedeiras", pensou. "A esta hora, Leonor já deve andar à minha procura por toda a parte".
Passou o domingo deitado na cama, acordado e sem atender o telefone. A sua cabeça saltava de ideia em ideia, incapaz de chegar a uma lógica.
Na segunda-feira de manhã, pôs a hipótese de estar a exagerar nos receios. E encontrou-se com Leonor naquele dia. Ela insistiu muito em saber o que acontecera para ele ter desaparecido durante o fim-de-semana, mas ele fugiu às questões, acentuando apenas que gostara muito de conhecer a tia.
– Podias ter esperado por mim... – comentou ela. – Já não sabia onde procurar-te.
O serão foi passado em casa de Ost. Mas, depois do jantar, ele começou a ter a nítida sensação de que os movimentos de Leonor eram suspeitos.
Por isso, andou todo o tempo a espiá-la pelo canto do olho. E se ela simplesmente se levantava para ir buscar alguma coisa, ele tinha logo um sobressalto como se Leonor, de repente, tivesse decidido esfaqueá-lo à queima-roupa.
"Deve ser impressão minha", dizia de si para si. "Estou a ficar paranóico".
Depois, ela levantava a mão para ajeitar o cabelo e ele reagia, de pronto, para se defender de uma eventual agressão...
Por fim, concluiu que o problema seria dele, pois Leonor não dava quaisquer sinais de agressividade, exceptuando nas ocasiões em que lhe apertava a mão. E nem sequer reparava na angústia em que ele se encontrava mergulhado.
Todavia, Ost ficou de sobreaviso. Podia acontecer de um instante para o outro ela desferir um ataque súbito. Leonor era a primeira pessoa que o atemorizava verdadeiramente.
Nessa noite, mal conseguiu dormir. Via Leonor em todas as esquinas, perseguindo-o de espingarda na mão, de espada, de varapau.
Acordava a meio da noite completamente encharcado em suor, pensando na dificuldade que sentiria para se levantar horas depois. Dizia a si mesmo que Leonor era uma pessoa normal, mas logo a seguir tinha uma nova visão com ela transformada a persegui-lo por entre os rochedos do mar junto aos quais ficava a aldeia onde nascera.
Nunca esclarecer o caso com Leonor. A sua experiência de diálogo com ela era frustrante. Se abrisse a sua alma, quase de certeza ficaria mais perturbado com as respostas que obteria.
Um dia, estavam os dois em casa de uns amigos e na altura em que Ost emitia a sua opinião sobre um determinado assunto, Leonor olhou-o fixamente e disse:
– Cala-te, não digas disparates!
Ele estremeceu. E quando se preparava para reagir, ela foi peremptória:
– Ou te calas, ou saio já!
Indignado, Ost levantou-se, pediu desculpa pelo sucedido e saiu para a rua, logo seguido por Leonor.
– Não admito que voltes a fazer uma cena destas comigo! – vociferou, espumando de revolta. – Tens alguma coisa a ver com as minhas opiniões? Gostarias que eu te humilhasse da mesma maneira?...
Mas Leonor não lhe deu resposta, limitando-se a prosseguir o andamento, enquanto lhe apertava a mão com uma força superior à normal.
Ost tentou libertar-se, mas não foi capaz. E para evitar chamar a atenção dos transeuntes, acabou por acompanhar Leonor a casa da tia, como de costume, sem dizer palavra. Por dentro, contudo, não parava de tecer os piores comentários sobre Leonor, prometendo resolver o caso com urgência.
Logo que tiveram oportunidade de falar sobre o sucedido, Ost quis saber o motivo pelo qual ela o tratara de forma tão deselegante em casa de pessoas estranhas, mas ela esquivou-se a debater o assunto, depois de prometer que a situação não se repetiria.
– Não foi por mal... – afirmou. – Penso que estava distraída, ou a pensar noutra coisa.
Ost argumentou que talvez fosse melhor acabarem o namoro, mas Leonor discordou veementemente, dizendo que deixara tudo por ele, até os pais, e que ambos se haviam de entender melhor com o tempo e com o aprofundamento do convívio.
– Se nos amamos, não temos motivo para acabar coisa nenhuma – insistiu ela.
E, logo a seguir a estas palavras, abraçou-se a Ost, quase o despedaçando contra o peito, enquanto garantia que ele era a grande paixão da sua vida e que, por isso, estava disposta a tudo para não o perder.
– Nem que me tapes a boca com um adesivo, afianço-te que não voltarei a mandar-te calar, seja diante de quem for! Nem mesmo quando estivermos sozinhos...
Ost não respondeu e ofereceu-se para ir levá-la a casa. Fez o percurso em silêncio, sem aludir aos apertos que ela lhe dava na mão, ou por já se ter habituado, ou porque, no fundo, gostava de manter certos assuntos sob reserva.
Era uma estratégia que, a seu ver, lhe concedia vantagens, permitindo-lhe tomar decisões que, por vezes, não eram compreendidas, mas que ele entendia jogarem a seu favor.
Algumas semanas depois, Ost teve oportunidade de verificar que, afinal, Leonor continuava a humilhá-lo, mandando-o calar nas mais diversas circunstâncias e lugares. Era uma atitude incontrolável nela.
Uma vez, até o repreendeu no supermercado, só porque Ost pretendia esclarecer o preço de um artigo qualquer
Ele irritava-se, protestava, ameaçava, perdia a cabeça, jurava a pés juntos que tal situação não podia continuar, mas nem assim Leonor corrigia o seu comportamento.
E, um dia, foi mesmo ela quem explodiu sem razão aparente. Aconteceu numa altura em que Ost entrava na cozinha:
– A próxima vez que me chateares por eu te mandar calar diante das pessoas será a última! – vociferou ela fora de si. – Estou farta de ti, já não te posso ver na frente, desgraçado o dia em que te conheci! Julgas que sou alguma boneca de corda? Julgas que basta avisares-me de que devo deixar-te exprimir as tuas opiniões? Devias ter vergonha da tua figura. Não vês que os outros se riem das tolices que dizes? No fundo, a humilhada sou eu!
Ost ouviu-a em silêncio, tenso, medindo os momentos que lhe faltavam para responder, embora fosse óbvio que não o faria, por não ter hipóteses de combater a agressividade da mulher que tinha à frente, em pé, junto à mesa, onde se via uma faca de pão sobre a toalha com uma nódoa de vinho...
– Agora, não dizes nada – insistiu ela. – Agora, que devias recorrer aos teus rebuscados argumentos para me contrariar, ficas mudo, como se não tivesses língua. Só falas quando não deves, quando ninguém te quer ouvir. Procuras impressionar os outros com meia dúzia de conhecimentos adquiridos em cima do joelho. E assim me procuras manter silenciada a um canto. Achas-te com mais direitos do que eu, por isso, gostas de impressionar quando estás com alguém. Mas a verdade é que estás sempre à espera que eu te mande calar para depois teres um pretexto para me acusar e para me rebaixar.
Ost levantou-se, encostou-se à janela, de olhar atento à postura de Leonor. Atrás dele, ficava o vazio do mundo, reflectido num céu azul sem nuvens.
A incapacidade de resposta de Ost parecia enfurecer ainda mais Leonor, que não media as palavras arrancadas a memórias terríveis, enquanto dizia exaltada:
– Se estás a preparar-te para me fazer alguma, despacha-te, não tenhas medo, dá cabo de mim, agora, que tens o pretexto de eu estar descontrolada, anda lá, pega na tua arma, aponta-ma ao coração e dispara! Dispara!
Entretanto, Ost não tirava os olhos da faca, à volta da qual a mão de Leonor se movimentava com agitação.
– Sei muito bem que receias que eu te faça o mesmo – continuava ela. – Mas a verdade é que esses medos são fruto da tua imaginação assassina. Projectas em mim o que não tens coragem de levar por diante. Aproveita, agora, empunha a espada que tens aí escondida e trespassa-me o peito com a sua lâmina carregada de ódio e frustração! Estou a sério, não esperes nem mais um minuto para me tirar a vida! Ou julgas que não sei por que motivos andas comigo, apesar de nunca termos ido para a cama? Julgas que sou parva? Julgas que não sei o que fizeste em criança às pernas da tua mãe? Julgas que não sei que a empurraste para o abismo e a mataste só por ela já não te poder aturar? Pensas que sequestrei a minha tia e acreditas que dei uma dentada no meu pai ao ponto de o deixar aleijado naquela mísera fotografia que te mostraram! Julgas que ando a dormir neste mundo ou que me limito a viver com a cabeça enterrada na lama escaldante que semeias à minha volta? Deixa-te de cenas, deixa-te de papéis tristes, deixa-te de remorsos pela miséria que arrastas atrás de ti, deixa-te de projectos inúteis, deixa-te..., deixa-me da mão... Quando vamos juntos a algum lado estás sempre a desejar que eu seja atropelada. Por isso fazes tanto esforço para libertar a tua mão da minha, a ver se me perco, se me desoriento, se atravesso a estrada sem olhar aos carros. Leio-te os pensamentos, podes crer, mesmo nas ocasiões em que os procuras dissimular por baixo da colcha metálica que tens atravessada no cérebro. Não vale a pena elaborares esquemas e preocupares-te para me aniquilar, porque já o conseguiste! Vês como já foste capaz de me reduzir a pó, a um simples mulher que protesta por coisa nenhuma? Achas que alguma vez autorizei um homem a fazer o que me fazes? Nunca quiseste conhecer-me realmente. Nunca consentiste que eu te desvendasse. Está bem. Continua a encostado à janela. Vira as costas ao mundo, olha-me bem no fundo da alma, atreve-te... Aproxima-te, se queres ver o meu reflexo na lâmina desta faca que nos separa, ou que nos une. Sou a cadela enraivecida que mostra os dentes de espuma. Ou não é verdade que deixaste contas por ajustar com o filho que nunca hás-de ter?!... Já sei, já sei, esse é o teu problema. Percebi-o bem naquele dia em que puseste a sopa de feijão na máquina de lavar roupa e depois ainda me convidaste a apreciar o espectáculo com risinhos de troça... A culpa não é minha. Juro.
Nesse preciso momento, Leonor agarrou na faca que estava sobre a mesa. Sem a olhar, segurou-a ao contrário e a lâmina enterrou-se imediatamente na palma da sua mão, fazendo jorrar o sangue.
Ost não se mexeu. Limitou-se a observá-la, de olhos arregalados, como se nada pudesse fazer para impedir o sofrimento que tinha diante dos olhos.
Leonor nem pareceu dar-se conta do que estava a acontecer-lhe. Persistiu em falar, falar, falar, sobrepondo factos, trocando realidades, esgrimindo argumentos, obsessivamente, enquanto o sangue da sua mão caía sobre o chão da cozinha.
Ela vociferava, levantando os braços e empunhando a lâmina que lhe golpeava a carne, como se não houvesse dor que pudesse travar o seu desvario, a sua loucura, a sua fuga para o terreno desconhecido onde todas as palavras se unem no absoluto sem eco nem alcance.
Passou a ser vista com frequência, sozinha, pelas ruas, com a mão enfaixada, fazendo lembrar o pai suspenso na foto da parede da casa onde vivia, ou dando a ideia de levar resguardado sob o trapo sujo o coração perdido de Ost. Interpelava os homens e pedia-lhes lume, pedia-lhes um cigarro, pedia-lhes trocos. Depois, continuava a sua marcha pelo mundo, cantando avé-marias, em voz alta, indiferente à curiosidade que despertava nos transeuntes...



MÁRCIA passava os dias agitada de boa disposição, sem levantar problemas com coisa alguma. E mesmo dos momentos de cozinhar fazia um divertimento, inventando receitas até então desconhecidas.
Ost não entendia de culinária e comia o que ela preparava com agrado. As manhãs tinham um sabor fresco e enriquecido por pequenos-almoços suculentos.
Os dois nunca se zangaram. Ela não dava oportunidade a tal. Ost nem se irritava com eventuais situações menos favoráveis. Não fazia sentido. Apreciava tudo o que Márcia fazia acontecer.
Era capaz de perdoar-lhe fosse o que fosse, ou nem precisava de lhe desculpar nada, porque ela tinha graça em tudo o que inventava. Era sempre positiva, sempre alegre, sempre optimista.
A pedido de Márcia, Ost até conseguiu deixar de fumar por uns tempos, um objectivo de que nunca antes fora capaz. Bastava olhar os gestos dela e ouvir as suas palavras sem pretensão para nunca mais pensar em cigarros.
Márcia era irresistível. Por isso, não havia desejo dela que ele não satisfizesse. Seria ridículo negar-lhe uma vontade, por insignificante que fosse. E, mesmo assim, ela nunca pedia coisa alguma. Contentava-se com o que havia em redor, fazendo uma festa com a mais pequena irrelevância.
Partilhavam os dois a mesma casa, por razões económicas. Havia ainda um terceiro quarto alugado na residência, mas quem o ocupava estava sempre fora. Com o passar das semanas e dos meses, Márcia e Ost sentiram-se donos e senhores do espaço que habitavam.
A vida era simples e bonita ao lado de uma mulher como Márcia. Os dois saíam com frequência, divertindo-se com as amigas dela. Às vezes, iam a casa da família e conviviam naturalmente com todos.
Nos dias de rotina, Márcia conseguia ser especialmente encantadora, tal o seu poder de transformar os momentos mais simples de cada dia, sobretudo quando Ost não estava à espera de nada...
Chegava a casa e dirigia-se à sala de estar, escolhia a sua música preferida e punha-a a tocar. Depois, afastava os móveis e desatava a dançar o que lhe vinha à cabeça, enchendo o espaço em redor com ternura e movimentos de vibração singular.
Nessas ocasiões, Ost deixava-se ficar sentado a olhá-la. Nada dizia. Só acompanhava os seus gestos de corpo, braços, pernas e cabeça, sorrindo ao sabor da música, enquanto seguia com os olhos a loucura das sombras que ela projectava.
Ele pensava como era boa a vida, como tudo era leve e despreocupante, como era confortável ter o sol dentro de casa, até quando os dias eram frios e de chuva...
Depois, Márcia vinha buscá-lo na ponta dos pés e puxava-o para o meio da sala, fazendo-o dançar, também, enquanto o conduzia cheia de elegância nos movimentos que enchiam as horas como as borboletas quando explodem no coração das coisas sem nexo.
Ost sentia-se outro, sentia-se navegar nos céus, sentia-se liberto nos serões que passava com Márcia.
O telefone tocava e ele não atendia, vinham-lhe à cabeça assuntos do dia seguinte ou da semana anterior e ele não ligava, batiam à porta e ele ignorava, os vizinhos punham-se a espreitá-los à janela e eles continuavam as suas danças indiferentes a tudo.
Ao fim de horas, ao fim de tempos esquecidos por dentro do tempo sem lógica, sentavam-se os dois no meio do chão e riam muito de mãos dadas como se tivessem dobrado o mar da felicidade.
Márcia sentava-se no colo de Ost e punha-se a afagar-lhe os cabelos, a brincar com as suas orelhas, a olhar para dentro das suas pupilas como se quisesse ler-lhe os pensamentos.
Voltavam à cozinha e ele pedia-lhe que fizesse um dos seus pratos singulares. Ela acedia com um sorriso jovial, fazendo a noite parecer quase o princípio do mundo, com as suas ondas de éter penetrando cada instante por entre as cores.
– São horas de dormir... – dizia ele.
Márcia pedia para ficarem juntos mais um bocadinho. Ele aceitava.
Então, quando a noite já não tinha mais nada para experimentar, despediam-se e ia cada um para o seu quarto descansar.
Ost nunca tentou dormir com Márcia, porque achava que o amor físico havia de despontar espontaneamente entre eles. Tinha que ser por acaso, de forma a não prejudicar o magnífico convívio que mantinham. Ela era bastante mais jovem do que ele, por isso convinha ter em conta a sua sensibilidade, o seu ritmo, o seu discernimento.
O mais natural seria, um dia, Márcia tomar a iniciativa. Quando estivesse pronta, quando achasse que era chegado o momento, ela encontraria a maneira mais correcta de fazer o amor incendiar a relação.
Ost não tinha pesadelos, não sofria, não elaborava esquemas para a conquistar. Chegava à cama e adormecia como um gato enroscado na segurança do dono.
No dia seguinte, ele ia para o emprego e ela para a escola. Ost sabia que ela regressaria a casa ao fim de um dia de aulas e Márcia estava segura de que Ost não faltaria a horas certas. Não tinham ciúmes, nem invejas, nem ressentimentos, nem dúvidas.
A sua ligação era tão natural, que Ost chegou muitas vezes a pensar se a amaria, realmente, ou se apenas simpatizaria com a sua candura, com a sua forma angélica de viver. Mas a conclusão a que chegava era que nunca experimentara situação semelhante e que, portanto, se o amor existia, devia ser qualquer coisa parecida com o sentimento que nutria por Márcia. Nunca se preocupou em aprofundar o assunto.
Quando Márcia não podia estar em casa a horas, por ter ido ali ou acolá, ou por ter chegado e saído antes de ele ter regressado, deixava-lhe bilhetinhos ilustrados com bonecos desarticulados e excessivos, que lhe transmitiam recados imprevistos, oportunos, divertidos, por entre frases desconexas, plenas de sensibilidade e humor. Desenhava uma galinha e num balão, por cima, misturava uma frase da bíblia com um gracejo a propósito de uma trovoada que a fizera perder-se na selva. "E, agora, não sei quando volto...", lia-se no bilhete.
Ost sabia que aquela era uma forma espontânea de lhe transmitir a sua paixão.
Dias depois, ele encontrava outro bilhete com uma formiga de grandes orelhas e nariz arrebitado chorando no meio da cidade à procura de Ost. "Transformei-me nisto", escrevia ela. "Fico à espera que me venhas libertar". E na semana seguinte: "Cri - cri - bzzz, um beijo na ponta do nariz, fui às compras, suta - rutu, não demoro". Ou então: "Trriim - trriim, a mãe telefonou, fui vê-la, volto já, deixo este anjinho a tomar conta de ti". E lá estava realmente no papel o desenho de um cão com grandes olhos de lua e cauda minúscula a dar a dar para Ost se divertir durante a sua ausência.
Quando Márcia voltava, Ost pedia-lhe para fazer mais desenhos, mais brincadeiras, mais graças, mais piadas e ela contava histórias por risos e gestos, enquanto desenhava o futuro, os filhos que um dia haviam de ter, o pássaro do vizinho a namorar uma estrela, coisas assim desprovidas de ambição, recheadas de um calor e de uma emoção que não tinham paralelo na vida de Ost.
Por vezes, Márcia deixava-lhe bilhetes e escondia-se dentro de casa, só para ver a sua reacção. Depois, aparecia de surpresa no meio de grandes gargalhadas e atirava-se-lhe ao pescoço, enchendo-o de beijos e ternura.
Raramente se embrenhavam em conversas sérias. Porque Márcia não sentia necessidade. Não se recusava a isso, mas a sua preferência era, sem dúvida, pelo imediato, pelo palpável, pelas coisas à flor da pele.
Os seus dias eram tão descomprometidos que nada deste mundo parecia capaz de a demover do seu caminho. Todavia, Ost sempre ia sabendo alguns aspectos do seu passado. Palavra puxa palavra, Márcia contou-lhe que uma das suas irmãs se suicidara.
– Como? – perguntou ele.
– Atirou-se de um 15º andar – respondeu ela, enquanto baixava o olhar e deixava subitamente de sorrir.
A irmã estava sempre metida em casa, não falava com ninguém, não trabalhava, não estudava, não namorava. Um dia, fartou-se e resolveu o assunto de uma vez.
– Era muito bonita – esclareceu Márcia.
Ost ficou pensativo, preocupado. Imaginou que Márcia podia ter algum problema para ser assim tão alegre e feliz, tendo em conta o que acontecera à irmã. Ou, então, sofria por dentro e não mostrava a sua dor.
A segunda hipótese era a mais provável. Até porque Márcia lhe confessou mais tarde que o pai tinha crises bipolares e que, de vez em quando, era internado.
Ele começou a fazer contas à vida: Márcia era um mimo de pessoa, mas com uma família daquelas nunca se sabia o que lhe podia acontecer um dia. Talvez não fosse aconselhável casarem-se. Talvez fosse preferível não criar laços muito fortes com ela. Talvez fosse melhor tornarem-se mais independentes um do outro. Ou talvez os seus receios fossem uma tolice. Mas o certo é que os tinha.
A notícia do suicídio da irmã fez nascer uma nuvem cinzenta na cabeça de Ost. Intrigava-o o facto de ela só uma vez ter feito qualquer referência ao caso, parecendo mesmo que vivia à margem dos problemas da família e do mundo.
Ost pensou mesmo, certa vez, se as danças de Márcia, os desenhos de Márcia, os sorrisos constantes de Márcia, não seriam a sua forma de evitar o suicídio ou de gerir uma qualquer psicose incontornável que teria desacorrentada por dentro do seu corpo esbelto, irrequieto e jovem.
Alguns meses depois, os seus pressentimentos pareceram concretizar-se: Márcia e Ost foram a um concerto na companhia de alguns amigos. E mal as luzes da sala se apagaram, ela deixou cair a cabeça entre as mãos numa atitude acabrunhada que contrastava totalmente com o seu estado de espírito momentos antes. Poucos segundos depois, desatou a chorar convulsivamente.
Ost sentiu um arrepio e debruçou-se sobre ela para tentar saber o que se passava, para se certificar se aquilo não seria uma terrível ilusão condicionada pela música com que o artista enchia a sala.
Márcia estava banhada em lágrimas. Não se tratava de um pesadelo ou visão. Ela não lhe respondeu quando ele quis saber o motivo de tamanho choro. Ele insistiu, mas Márcia só abanava a cabeça, sem conseguir articular palavra.
Algumas pessoas sentadas perto dela olhavam curiosas para a situação. Márcia, porém, estava noutro mundo, noutro inferno, que parecia nada ter a ver com o espectáculo a que assistiam.
Doía ver Márcia naquele estado. Ost estava destroçado e confuso. Não queria pressioná-la a falar. Pensou em conduzi-la para fora da sala, mas isso podia uma violência, até porque faltava saber se não tinha ficado assim chorosa por causa da música que lhe entrava na alma.
Ost conformou-se com a situação e tentou abstrair-se do problema, olhando para o palco e para a sensibilidade dos sons derramando-se sobre a escuridão de milhares de cabeças que faziam a sala rebentar pelas nesgas das portas.
Mas não era capaz de estar ao lado de Márcia e manter-se indiferente ao seu problema. Pensou se ele próprio teria feito alguma coisa que a tivesse magoado de forma tão dramática. Por mais que pesquisasse no íntimo, contudo, não encontrava explicação para o fenómeno, pelo menos no que a ele dizia respeito. Teria sido o pai com mais uma das suas crises? Seria a lembrança do suicídio da irmã? Haveria mais alguém na sua vida que ele desconhecesse e que a perturbasse tão inapelavelmente?
Passado um tempo, Ost percebeu que Márcia estava mais calma e perguntou-lhe ao ouvido o que tinha acontecido, o que lhe tinham feito. Ela, porém, continuou a não acrescentar razões para o seu procedimento, limitando-se a dizer baixinho:
– Não é nada.
Aquela noite ficou para sempre na recordação de Ost. Depois do espectáculo, vieram de táxi para casa. Pelo caminho, Márcia pouco adiantou. Falava com Ost normalmente, mas estava longe de manifestar a alegria que a agitava habitualmente.
Chegados a casa, foram deitar-se, cada um para o seu quarto, sem grandes conversas, embora ela fosse amável e solícita, como de costume. Ost teve dificuldade em adormecer. Dava-lhe a impressão de ter um pedregulho no coração.
Na manhã seguinte, tudo continuou na mesma. E os dias foram passando como se nada tivesse acontecido no trágico concerto das lágrimas de Márcia.
Mas ela nunca mais voltou a ser como antes. E ele também não. Márcia já não dançava tanto, nem o fazia com o mesmo fulgor na alma. Já não sorria tanto, já não escrevia tantos bilhetes com bonecos desenhados, já não se divertia tanto. E ele já não sentia que o mundo era leve e arejado como no tempo inicial do seu conhecimento. Ost passou a olhar Márcia com um misto de surpresa e de medo por algo que pudesse acontecer a todo o instante.
Certa manhã, ele acordou e ouviu falar no quarto ao lado. Pensou que ela talvez estivesse a sonhar em voz alta, mas depressa notou que se tratava de duas vozes distintas.
Bateu à porta e houve um silêncio. Bateu segunda vez. Márcia veio abrir e Ost viu que ela estava acompanhada de uma jovem sensivelmente da mesma idade que o olhava com curiosidade.
– Apresento-te a Berta, uma colega que passou a noite a estudar comigo... – disse Márcia.
Ost ficou perplexo, porque nem sequer a ouvira entrar no dia anterior e Márcia nunca fizera qualquer referência àquela amiga, que muito menos fazia parte do grupo com que habitualmente contactavam. Era estranha, sem dúvida, a repentina aparição de Berta na vida da companheira.
Arrancou para o emprego sem tempo para mais explicações, mas não conseguiu afastar a ideia da cabeça durante todo o dia. Esteve várias vezes tentado a telefonar-lhe para a escola, mas recuou sempre no último minuto. No fim do dia, falaria com Márcia. Era melhor não se precipitar, para não deitar tudo a perder. Apesar de a relação já não ser a mesma, desde que Márcia tivera a crise de choro no concerto, a verdade é que não se podia passar uma esponja sobre o que ambos tinham vivido até então.
Quando chegou a casa, Ost deu-se conta que Márcia e Berta continuavam juntas no quarto. Riam muito e conversavam em voz tão alta que quase se ouvia o que diziam cá fora.
Ele não teve coragem de interrompê-las. Fechou-se no seu quarto, simulando que estava ocupado, caso alguma delas aparecesse a ver se ele já havia chegado. Entretanto, esperava que Márcia ficasse livre da amiga para se poder entender com ela.
Todavia, Berta parecia não ter qualquer pressa de se ir embora. E, a dado momento, sem saber explicar porquê, Ost ficou com a nítida sensação de estar a mais naquela casa!
Levantou-se para afastar tal ideia do pensamento e dirigiu-se para a cozinha, a ver se havia alguma coisa para jantar. Ao mesmo tempo, foi fazendo barulho com os pratos e com os talheres, a fim de que elas se apercebessem que estava mais alguém em casa.
Quando se preparava para comer, a porta do quarto de Márcia abriu-se e vieram as duas para a cozinha, manifestando grande surpresa com a sua presença.
– Ao menos podias ter dito alguma coisa... – exclamou Márcia.
– Vocês estavam tão entretidas que não tive coragem de bater à porta... – replicou ele.
A seguir, Márcia explicou que o exame na faculdade tinha sido anulado, por isso ambas tinham voltado para casa, aproveitando para estudar melhor a matéria.
Ost não respondeu, tendo-se limitado a sorrir. Márcia e Berta sentaram-se à mesa, mas explicaram que já tinham jantado. Fizeram-lhe companhia e perguntaram a Ost se, depois de comer, estava disposto a ir para o quarto delas. Ele desculpou-se, dizendo que tinha bastante que fazer naquela noite. Mas elas insistiram e propuseram ir para o quarto dele. Só que Ost estava baralhado das ideias e não sabia o que responder, até porque queria evitar ser injusto. Ainda não tinha trocado impressões com Márcia sobre a sua amiga Berta.
Contudo, não havia maneira de a colega deixar a casa, o que inibia Ost de forma particular.
– O melhor é vocês continuarem a estudar e eu fazer o meu trabalho – sugeriu Ost. – Amanhã, havemos de falar...
Mas elas não pareciam muito interessadas em estudar. Queriam conversar, conversar, só que Ost não estava para aí virado.
Ele precisava de reflectir. Reflectir sobre o comportamento de Márcia e sobre a estranha e súbita intromissão de Berta na casa onde residia. E, para reflectir, maduramente, tinha necessidade de estar só. Ou, então, devia falar com Márcia, um cenário que não parecia muito plausível naquela noite.
Berta fez café para todos e, depois, Ost refugiou-se no seu quarto. Sentou-se na beira da cama sem conseguir arrumar os pensamentos. Passaram horas e ele continuava a não perceber.
A certa altura, notou que Márcia e Berta faziam completo silêncio no quarto onde se haviam recolhido. Pôs-se à escuta, mas não conseguiu ouvir coisa alguma. Pensou ir espreitar pela fechadura da porta do quarto de Márcia, todavia o bom senso fê-lo desistir da ideia. Não seria nada agradável apanharem-no a espiar a privacidade alheia.
Altas horas da noite, sentiu um ruído seco na porta do seu quarto. Sentou-se na cama e pareceu-lhe ver uma mancha branca no chão. Levantou-se e foi verificar: um papel. Acendeu a luz e leu: "Precisamos mesmo de falar... – Márcia".
Era um bilhete diferente dos que estava habituado a receber. Nada de desenhos, nada de humor, nada de frases amorosas e ternas.
Nos dias que se seguiram, Ost não teve oportunidade de falar com Márcia. Porque Berta não a largava por um segundo.
Ele ia trabalhar e elas para as aulas. No princípio da noite, quando ele regressava a casa, estavam as duas metidas no quarto. E já nem sequer vinham fazer-lhe companhia à hora do jantar, com a desculpa de terem muito que estudar.
Ost nunca mais teve acesso ao quarto de Márcia. A porta estava quase sempre fechada, como se as duas mulheres pretendessem guardar só para elas o segredo que as unia.
– Querem café?... – perguntava ele, às vezes, junto à porta, antes de se ir deitar.
– Não... – respondiam as duas à uma, lá de dentro, desatando a rir logo de seguida.
Ele fechava-se no seu quarto decidido a mudar de casa, só para não ter que enfrentar durante mais tempo a situação caricata de ter sido substituído no coração de Márcia por uma mulher que não conhecia de parte alguma.
"Devo ter feito qualquer coisa de menos correcto", reflectia consigo próprio, "de contrário, Márcia não me deixaria sem uma explicação".
Semanas depois do aparecimento de Berta, não só Ost ainda se mantinha na casa, como Márcia e Berta já praticamente não saíam do quarto, nem sequer para comer. Levavam a refeição para a cama e aí mesmo jantavam, metendo a comida na boca uma da outra, conforme, certa vez, Ost tivera oportunidade de verificar através da porta entreaberta.
Os seus serões passaram a ser absolutamente silenciosos. Era de cortar a alma. Ost estava reduzido a um farrapo. Não reagia. Entrava e saía de casa como se nada tivesse a ver com nada.
As duas mulheres pareciam ter entrado numa outra dimensão. Davam ideia de se ter esquecido do mundo durante as horas em que permaneciam fechadas.
Meses depois, já nem frequentavam as aulas.
A única notícia que Ost tinha delas, no início da noite, ao chegar a casa, era a porta trancada e um estranho silêncio a transbordar, para lá do qual todas as suas expectativas sobre a vida caíam por terra.
Um dia, ele decidiu mesmo fazer as malas e mudar de casa. Meteu um bilhete por baixo da porta de Márcia, na expectativa de ela aparecer para se despedirem. Mas só a ouviu gritar de dentro do quarto que lhe havia de telefonar qualquer dia...



LISA era casada e não tinha filhos. Ost tornara-se um dos seus grandes amigos. Ia a casa dela e do marido quase todos os dias. Sempre que tinha tempo livre. Os três davam grandes passeios de carro, iam tomar café, sentados no banco da frente do grande automóvel e, depois, regressavam ao lar, onde ficavam estendidos na sala de estar, sem preocupações, falando do que lhes vinha à cabeça.
Aos fins-de-semana, costumavam reunir-se com amigos. Nessas alturas, o automóvel rangia nos amortecedores de tanto peso que carregava. Lisa era a única mulher do grupo. Ia sempre sentada à frente, entre Olavo, o marido, e Ost. Todos a rodeavam de atenções.
Aos serões, Olavo pegava na viola e tocava música brasileira. Havia animação, bebidas, conversas, recordações, nada de planos para o futuro. Cada momento era a breve passagem de uma fase que não se sabia exactamente quando terminaria. Mas sentia-se que, um dia, haveria um fim para tudo. Ou não.
Ost preferia estar sozinho com Lisa e Olavo. Porque, assim, era mais fácil não haver interferências. Quatro homens e uma mulher era demasiado, às vezes. Lisa calava-se e eles tomavam conta do convívio.
Por outro lado, quando Ost estava apenas com o casal, as coisas eram diferentes: Lisa falava mais e, às vezes, o marido até ia para a cama cedo, ficando Ost de conversa com a mulher até de madrugada.
A sós com ela, a vida tinha outro sabor. Aos poucos, Lisa ia abrindo a sua intimidade. Contava cenas do casamento e admitia que era infeliz, uma situação impossível de adivinhar quando o grupo estava reunido. Entre risos, piadas e comentários apressados, ninguém percebia o que se passava.
Ost dormia com assiduidade na casa de Lisa e Olavo. Depois das longas conversas com ela, acomodava-se no sofá e ficava para ali a remoer as horas, enquanto ela se ia deitar. Ouvia-a estender-se na cama com o marido, mesmo no quarto ao lado e procurava imaginar como seria ela abandonada sobre os lençóis.
Depois, pensava como teria sido a sua vida se tivesse conhecido Lisa antes de Olavo. Teriam casado, de certeza. E, nesse caso, não seria provável que um fulano qualquer passasse os serões em sua casa a falar com a mulher para lá de todas as conveniências do relógio.
Contudo, a facilidade com que Olavo deixava Ost com a mulher era um sinal de segurança por parte do casal. Se houvesse qualquer risco de traição, com certeza que ele não reagiria com a mesma indiferença.
Por isso, Ost hesitava bastante em abrir o seu coração a Lisa. Provavelmente, obteria uma gargalhada dela se lhe fizesse uma proposta menos convencional.
As semanas e os meses foram passando sem novidade. Mas Ost não desistia de se aproximar de Lisa, apesar de não ter a certeza sobre os sentimentos dela. Se calhar, convivia muito bem com ele, por mera simpatia. Ou, provavelmente, também se sentia atraída por Ost, mas não punha a hipótese de ser infiel ao marido. Não havia sinais da parte dela. E ele reservava-se quando ficavam os dois sozinhos pela noite fora falando disto e daquilo.
Todas as vezes que ela fazia referências ao seu casamento, Ost assumia a postura de confidente. Sentia prazer em ser o eleito da sua alma. Estava certo de que ela não se abria assim com mais ninguém. Nem com a família, que só raramente contactava.
Certa noite, estavam os dois sentados a conversar na sala de estar, de frente um para o outro no sofá, e ela ergueu os joelhos para junto do queixo, para dar mais atenção ao que Ost dizia. Entretanto, ele reparou num brilho profundo que atravessava o olhar dela. E observou que as suas pernas tinham ficado completamente expostas. Sentiu um formigueiro no corpo. Mas procurou controlar-se, por não ter a certeza sobre o comportamento dela, caso ousasse ir mais longe do que o habitual. Olavo dormia no quarto ao lado.
Mesmo assim, Ost pensou que talvez tivesse chegado o momento de traduzir por palavras o que lhe ia na alma. Mas era aconselhável que o fizesse de forma ambígua, para evitar uma eventual reacção menos brusca por parte de Lisa.
– Estou a pensar ir a Paris um dia destes... – disse Ost, simulando indiferença.
– Não me digas! – respondeu ela, entusiasmada, como se desejasse fazer-lhe companhia. – Vais sozinho?
– Não sei... – retorquiu ele, enquanto fixava os olhos dela. – Se quiseres, podes vir comigo.
Ao ouvir a proposta, Lisa não se mexeu. Mas Ost reparou que havia um desejo oculto no seu olhar... No entanto, ela continuou em silêncio, como se tivesse a intenção de adiar a resposta pelo maior período de tempo possível. E Ost preferia que assim fosse, porque tal atitude indicava, no mínimo, que ela estava a ponderar a situação devidamente. Fosse qual fosse a sua escolha, não seria, decerto, precipitada.
Ao fim de uns minutos, as palavras de Lisa ecoaram na surdina da noite como uma explosão de borboletas. E nos primeiros instantes do eco, Ost nem tinha a certeza do que ouvira. Foi preciso que ela repetisse:
– Adorava ir contigo!
Depois, tudo em redor voltou a mergulhar no silêncio. A noite fria parecia ter-se transformado numa pedra de água a ferver. Ost sentia uma vontade indomável de a abraçar e beijar, mas a surpresa da resposta ainda o inibia.
Lisa olhava-o com um sorriso cúmplice estampado no rosto. Ao cabo de uns segundos, Ost disse:
– O problema vai ser Olavo...
Mas Lisa respondeu:
– Apresentamos-lhe a situação sem rodeios e veremos como reage!
Ost foi atacado por uma comichão na pele ante a frontalidade da mulher que tinha diante dos olhos e que estava disposta a pôr a sua vida conjugal em causa, só para ir a Paris na sua companhia.
– Mas olha que isto não quer dizer que haja alguma coisa entre nós... – sublinhou ela, tentando moderar-lhe o entusiasmo.
– Com certeza, claro... – gaguejou Ost, mais nervoso do que nunca. – É evidente que isso não quer dizer que haja alguma coisa entre nós. Tens toda a razão. Não quer dizer mesmo que haja alguma coisa... Mas achas que Olavo encarará bem a situação?
Lisa respondeu que isso era o que menos interessava. Se ele concordasse, óptimo. Se não concordasse, iriam à mesma, pois as suas vidas não poderiam ficar dependentes da posição de uma terceira pessoa, nem que fosse o próprio marido!
Ost ficou vergado à personalidade de Lisa. Não seria capaz de ir tão longe, se estivesse no seu lugar.
– Olha que Olavo pode sentir-se magoado com a proposta – disse Ost.
– Talvez não... – replicou ela, por entre um sorriso brando. – Tudo depende da forma como se falar com ele.
Combinaram, então, que seriam os dois a apresentar o assunto a Olavo, demonstrando a sua boa intenção na dita viagem de todos os sonhos.
Ost sentia picadas no peito só de pensar na reacção de Olavo quando lhe dissessem que tencionavam ir os dois juntos a Paris – os dois – ele mesmo e Lisa, a mulher de Olavo. De qualquer modo, procurou ver a situação por uma perspectiva sensata. Acentuariam que tal não significavam que se estabelecesse qualquer relação física entre eles. "Sabemos que és casado com Lisa", dizia Ost para si mesmo, preparando-se para aquele que seria um dos momentos mais decisivos da sua vida recente. "Podes estar certo de que estaremos à altura da situação". Mas afastou logo semelhantes ideias do pensamento, por serem ridículas e despropositadas.
– Não vale a pena estares preocupado – disse Lisa, como se adivinhasse os seus pensamentos. – Hoje, dormes cá e, amanhã de manhã, falaremos com Olavo!
As palavras delas atravessaram-lhe o corpo como uma espada acabada de afiar.
– Amanhã de manhã... – repetiu ele, estonteado com o que ouvia. E, logo a seguir, ganhou ânimo: – Isso quer dizer que podemos ir a Paris já no próximo fim-de-semana!
– Pois claro – disse ela.
Ost sentiu-se voar por cima das nuvens. Andariam os dois pelas ruas da capital francesa, visitariam museus, entrariam nos mais diversos lugares, ouviriam música nas estações do metro, apreciariam monumentos, assistiriam a peças de teatro, veriam cinema, sempre envoltos no desejo de carícias um pelo outro, ela de longos cabelos negros ao vento e ele de barba por fazer nos passos largos que a conduziriam a toda a parte... Sorririam um para o outro nas ruas e praças, de forma arrebatadora e incontrolável, saltariam de contentes pelas esquinas e até jogariam às escondidas pelos jardins como quem acredita em futuros radiosos. Ninguém repararia neles e eles não reparariam em ninguém. Só quereriam estar assim para sempre, esquecidos do passado, das dúvidas, dos problemas. Quando regressassem ao hotel no fim do dia, exaustos e felizes, dormiriam pela noite dentro, sem pensar nas consequências, sem pensar em mais nada. A liberdade seria abandonarem-se um ao outro como se nada os pudesse deter.
Logo a seguir ao delírio de Ost, e como se confirmando tudo o que acabara de sonhar acordado, os dois abraçaram-se fortemente, num impulso irrepremível e contagiante, ultrapassando os receios a que a sua relação sempre obedecera. E não passaram dali. Até porque se mantinha de pé o combinado de que irem ambos a Paris não significava que se entregassem fisicamente um ao outro.
– Não sei se serei capaz de fazer amor contigo... – exclamou ela, depois do entusiasmo inicial. – De qualquer maneira, está decidido que faremos a viagem juntos. Agora, vamos dormir...
Ost sentia necessidade de esclarecer tudo naquele momento, se fariam amor, ou não; se encetariam uma relação, ou não; se ela deixaria de viver com Olavo, ou não; mas preferiu silenciar as perguntas que lhe dançavam no íntimo, não fosse ela retroceder na sua decisão, ante as pressões da sua curiosidade.
Naquela noite, não conseguiu pregar olho. Pensava na hipótese de Olavo reagir com violência à ideia de a mulher o acompanhar a Paris. "Isto ainda vai acabar mal...", comentava consigo mesmo. "Olavo é bem capaz de pegar numa faca e enfiar-ma no peito sem mais nem menos! Vai pôr-se a berrar que o traí e que deixei de ser seu amigo, vai querer saber se já houve alguma coisa entre nós, vai chamar a polícia, vai correr comigo à pedrada, vai partir a loiça até ao último caco, vai cair em cima de Lisa e chamar-lhe todos os nomes do mundo, vai suicidar-se, vai querer ir connosco para garantir que não acontece nada".
No dia seguinte, sentaram-se os três a tomar o pequeno-almoço, conforme previsto. E enquanto estavam ainda ensonados, Lisa disse a Olavo, com um sorriso de lume acabado de acender, que estava a pensar ir a Paris com Ost no próximo fim-de-semana.
Apanhado de surpresa, Olavo não pareceu especialmente perturbado com o que ouviu. Eventualmente, pensou que as palavras de Lisa faziam parte de um sonho que tivera naquela noite.
Mas, segundos depois, olhou os dois fixamente, ora um, ora outro, como se a certificar-se de que ouvira bem as palavras da mulher. E quando Ost estava prestes a intervir, no sentido de tentar desdramatizar uma situação que não se sabia ainda como terminaria, Olavo coçou o queixo e logo a seguir a cabeça, desatando depois a rir despropositadamente.
– Bem... vocês vão a Paris! Olha... porreiro – foi o que conseguiu dizer, ajudado por um riso subitamente realista e, logo a seguir, deveras embaraçado.
– Mas olha que isto não quer dizer que haja alguma coisa entre nós – adiantou Ost, antes que Olavo pudesse fazer qualquer observação menos oportuna.
A partir desse momento, Lisa nunca mais falou durante a refeição e o marido pôs-se a conversar com Ost sobre uns projectos que estava a preparar na empresa para a qual trabalhava. Até parecia que a viagem a Paris fora uma invenção, uma brisa leve que subitamente passara, como se ninguém, afinal, estivesse interessado em analisar os seus efeitos.
Contudo, vendo bem as consciências, o desassossego era grande sob o manto das palavras banais que Olavo e Ost proferiam à mesa. Mas eles pareciam só querer adiar a tempestade. Ou não falar nela, como se assim as hipóteses de passar à sua margem fossem maiores.
Na sexta-feira seguinte, Ost levantou-se nervoso e atordoado. Tinha que telefonar a Lisa para combinar a hora em que iria buscá-la a casa. Nunca mais a vira desde a manhã em que haviam informado Olavo da sua viagem a dois.
Ost passou por uma garagem com o velho Volkswagen, a ver se o carro estava em condições. Enquanto faziam uma mudança de óleo, telefonou para Lisa, receando que ela tivesse alterado os planos à última hora, ou que Olavo tivesse saído dos eixos, num derradeiro acesso de desespero.
Mas ela veio ao telefone como se nada fosse e disse que estaria pronta às seis da tarde. Esperá-lo-ia à porta de casa.
Aquele "à porta de casa" deu a ideia de qualquer coisa não estar a correr bem no casamento. Mas Ost procurou afastar preocupações, até porque não faltava muito tempo para a ter junto de si.
Às seis da tarde, em ponto, estacionou o carro em frente à casa de Lisa, que estava acompanhada do marido. Dirigiram-se os dois para o automóvel e Olavo ajudou a carregar a bagagem da mulher. Depois, Lisa sentou-se ao lado de Ost e ambos acenaram a Olavo, que ficou no passeio a dizer adeus, sorridente...
Ost estava especialmente curioso por saber como tinham decorrido os últimos dias depois de Olavo ter sabido da viagem que agora encetavam, mas Lisa nem por isso estava muito disposta a dar explicações. Puxou de um cigarro e pôs-se a olhar a estrada.
Ost teve o ligeiro pressentimento de que a viagem não ia correr bem. E ficou logo acabrunhado. Mas tentou não dramatizar a situação. Sempre era preciso respeitar a coragem de que ela dera mostras ao deixar o marido para estar com ele um fim-de-semana em Paris.
Ao fim de uns quilómetros de estrada, Lisa disse que estava com dores de cabeça!
Ost sentiu-se aliviado. Afinal, nada de estranho estava a passar-se. Uma dor de cabeça não era grave. Não seria uma leve indisposição que impediria a continuação da aventura.
– Isso já te passa – comentou ele.
– Mas é uma dor de cabeça estranha como nunca tive – replicou ela.
– Se te sentires piorar, avisa. Queres ir ao hospital? Depois, instalou-se um silêncio de chumbo dentro do carro e Ost voltou a pressentir que o fim-de-semana ia dar para o torto.
Ainda não tinham andado uma hora, quando Lisa pediu se ele não se importava de parar o carro.
Ele fez-lhe a vontade. Estacionaram na berma da estrada e abriram os vidros, a ver se ela melhorava.
Cinco minutos depois, voltaram à estrada, com Ost visivelmente animado.
– Verás que não é nada de especial. Deves estar cansada de trabalhar. E também é preciso notar que não terá sido fácil a tua decisão de te separares de Olavo por um fim-de-semana...
Lisa murmurou qualquer coisa, mas ele não quis forçá-la a esclarecer-se, de forma a não agravar a situação. A mulher que ia sentada a seu lado estava transformada numa sombra daquela outra que aceitara, poucos dias antes, fazer-lhe companhia até Paris, por entre sorrisos abertos e expressões de confiança que ele nunca mais esqueceria. Agora, custava-lhe admitir a realidade.
Era a primeira vez que, estando os dois juntos, ela se queixava de qualquer coisa. Por isso, Ost pensou que, provavelmente, algo acontecera entre Lisa e o marido. E que Olavo, quase de certeza, acabara por recuperar algum terreno na relação que tinha com a mulher. Se ela não o assumia, era para não o desiludir. Por isso, era mais do que provável que as dores de cabeça que dizia sentir não passassem de uma desculpa.
Ao fim e ao cabo, Ost pôs a hipótese de aquela viagem ainda vir a favorecer o casamento de Lisa e Olavo, em vez de permitir o desabrochar de uma nova relação na sua vida.
Lisa estava visivelmente nervosa: fumava cigarros uns atrás dos outros e Ost só esperava que ela desatasse num choro a qualquer momento, pedindo para ser devolvida aos braços do marido. Tinha a certeza de que ela estava a pensar em Olavo. Via-se-lhe nos gestos, nos lábios tensos, na testa franzida. Uma dor de cabeça não podia causar semelhante transtorno.
– Se tens alguma coisa, diz... – pediu Ost.
– Isto já passa – respondeu ela.
"Será que fiz algo de mal?", perguntou ele a si mesmo. E não encontrava resposta para a sua inquietação.
Momentos mais tarde, especulou que ela poderia estar a pensar em alguma coisa que ele teria na mente e que de forma alguma coincidiria com a realidade. Mas como demonstrar-lhe que estava errada? Como abordar um assunto que ele nem tinha a certeza de estar a perturbá-la?
Se optasse por tentar abordar o problema, corria o risco de ser indelicado, ao não ter em conta a possibilidade de Lisa estar mesmo só com dores de cabeça. O momento aconselhava toda a prudência da sua parte.
"Se calhar, não escolhemos o melhor fim-de-semana para a viagem", pensou. "Devíamos ter esperado mais uns dias, a ver o que acontecia...".
Mas era tarde para Ost. Lisa estava cada vez mais carrancuda, como se os quilómetros de estrada a transportassem para outro corpo, em vez de a aproximarem mais do homem que ia a seu lado, sentado ao volante de um Volkswagen cujo destino parecia ter cada vez menos justificação.
"Até parece que já estamos no caminho de regresso e que tudo vai continuar como antes...", confessou Ost à sua própria consciência. E, a seguir, pensou que ela devia estar mesmo a medir as consequências do seu acto no casamento que mantinha há alguns anos. Já estaria arrependida, talvez, mas não ousava confessá-lo.
Ost fixou-a num rápido olhar e percebeu que Lisa estava com a mente afundada no coração de Olavo. Sentiu-se enfurecido consigo mesmo por não ter previsto uma tal situação. Fora iludido pelos seus sorrisos, quando estavam sós, pela sua aparente segurança e poder de decisão. Apetecia-lhe esbofetear-se a si próprio, por aquela humilhação de Lisa nem conseguir chegar a Paris sentada a seu lado num Volkswagen que galgava a estrada quase em desespero de causa.
E quando ele se encontrava mergulhado nestas reflexões, Lisa fez-lhe saber que estava com náuseas:
– Apetece-me vomitar – foram as suas palavras.
Ost travou bruscamente e estacionou na beira da estrada.
– Não é melhor irmos mesmo a um hospital? – perguntou.
Mas ela já tinha aberto a porta do carro e saído, pondo-se a andar para a frente e para trás, enquanto os carros passavam na estrada em grande velocidade como gafanhotos gigantes despenhando-se no calor da noite que se abatia sobre o mundo.
Ost foi ter com ela, mas não conseguiu convencê-la a ir ver um médico.
– Deixa lá – disse ela – deixa lá...
– Será que estás grávida?! – quis ele saber.
– Não... não... não... – limitava-se ela a murmurar.
Minutos depois, voltaram a meter-se no carro, mas logo que Ost encontrou um café, apressou-se a parar, prevendo que aquele seria o limite da sua aventura com Lisa, pois não fazia sentido continuarem a viagem para França, quando tudo indicava que ela não estava bem de saúde, ou que, de repente, por qualquer motivo inexplicado, deixara de estar interessada no projecto que ambos haviam arquitectado.
Sentaram-se os dois numa das mesas do estabelecimento e Ost sugeriu que ela tomasse um copo de água. Mas Lisa pôs-se a apertar as mãos uma contra a outra, enrolando os dedos, e disse que não queria nada.
– Assim é pior – disse ele, sem conseguir esconder alguma irritação nas palavras.
– Tenho uma dor insuportável nas costas – adiantou Lisa. – Acho que não estou em condições de continuar.
Ele sentiu os seus medos desabarem-lhe em cima como blocos de gelo. No fundo, tinha a secreta esperança de que Lisa não desistisse, de que Lisa não estivesse a pensar no marido, de que Lisa recuperasse dos males que dizia padecer. Mas ela acabara de dar a machadada final na viagem das suas esperanças.
Ost ficou com ganas de a insultar, de não a compreender, de a espancar, de a responsabilizar pelo acontecido. Considerava-a uma fraca, uma cobarde, uma hesitante, uma oportunista. Porque a verdade é que ela estava a inventar uma quantidade de doenças só para recuar, só para voltar para Olavo, só para se arrepender, antes que fosse tarde demais.
Como era possível ter mudado de posição em tão pouco tempo? Como era possível ter arranjado uma quantidade de dores e de vómitos de um momento para o outro? Como era possível ter esquecido todas as conversas que haviam mantido anteriormente nas longas noites em sua casa?
Ost não conseguia olhá-la de frente. Não acreditava nas suas dores. Não acreditava em nada que ela pudesse dizer...
– Vais pôr-me numa estação de autocarro e segues tu sozinho para França... – exclamou ela.
– Nem penses! – explodiu Ost. – Se queres voltar para casa, eu também volto. Não faz sentido estar em Paris sem ti. Isto foi um projecto combinado entre os dois. Ou estás esquecida do que falámos?
Lisa não lhe respondeu e levantou-se da mesa. Ele pagou a conta e vieram os dois para o carro, em passo acelerado, como se tivessem urgência em desfazer o equívoco.
O pior, agora, para Ost, era imaginar o tempo de regresso, com Lisa sentada a seu lado no carro, como uma espécie de cadáver de olhos abertos e fixos na parede do futuro, queixando-se de dores nas quais ele não acreditava.
– Se não me queres deixar numa estação de autocarros, então leva-me a casa! – ordenou ela, enquanto roía as unhas, fazendo lembrar uma adolescente perturbada pelo remorso.
Lisa achava que Ost não entendia o seu drama. Que não era capaz de lidar com a sua dificuldade em separar-se de Olavo, depois de tantos anos de vida em comum. E, no íntimo, considerou-o egoísta, insensível, leviano. A sua questão já não era as dores que dizia sentir, mas a indiferença de Ost pela situação dela.
Ao menos, Olavo fora amigo e compreensivo quando ela lhe colocara o desafio de ir a Paris com Ost. Não a proibira de nada, não a ameaçara, não fizera chantagem, não exigira o que quer que fosse. O marido, sim, era um companheiro de verdade. Ost não passava de um oportunista que só queria ir para a cama com ela, sendo mais do que certo que a trocaria mais tarde pela primeira mulher que o atraísse.
"Nunca me devia ter metido nisto", parecia ela dizer para si mesma. "Se calhar, Olavo já não estará disposto a aceitar-me de volta, nem acreditará que nada aconteceu entre nós, apesar de nem termos chegado a ver Paris".
Lisa não confiava em Ost, pelo facto de ele ser um homem descomprometido. Olavo era uma presa segura. Por isso, se ela desistisse daquela insana aventura, o marido talvez reconsiderasse e lhe abrisse a porta de casa. As dores haviam sido um pretexto. Mas, na realidade, sentia-as, tal a necessidade que tinha de regressar.
E os dois deixaram de pensar, deixaram de sentir, deixaram de argumentar com as suas consciências, enquanto o Volkswagen devorava os quilómetros no sentido inverso ao da aventura.
A estrada, agora, era uma linha, sempre uma linha, com outros carros passando à margem; depois, um novelo; a seguir um risco mal desenhado no mapa; mais adiante uma espécie de arame retorcido; sempre qualquer coisa que cansava, que derrotava, que inibia, que confundia, que toldava as ideias e destroçava os sentimentos.
Ost já não queria saber das dores de Lisa. Já não queria saber de vómitos, de tonturas, nem de nada que se lhes parecesse. Ia deixá-la à porta de casa, no mesmo sítio em que a recolhera horas antes, e não tinha dúvidas de que Olavo ainda lá estaria à espera deles, com o seu sorriso paciente suspenso do rosto. Abraçar-se-ia à mulher, desculpando-a por tudo e convidaria Ost a entrar para tomar um copo.
Mas Ost simularia ter que fazer em casa, não podendo, por isso, demorar-se. Nem estacionaria o carro. E apesar da insistência de Lisa para que descansasse um pouco, descarregaria as malas dela ali mesmo na berma da rua, despedir-se-ia do casal e regressaria quanto antes ao seu território, a fim de perceber, de medir, de pesar o que se passara.
O carro andava, andava, andava e não havia em redor sinais da Lisa que ele conhecera. Nem parecia que Ost ainda seguia ao volante.
À medida que o tempo passava e a distância do fim ia ficando mais curta, Ost ainda pensou se não seria possível salvar a sua relação com Lisa.
Organizou as ideias minimamente e procurou simular as palavras que proferiria, tendo em vista uma reconciliação. Mas o que diria, afinal, depois do abismo que se criara entre eles? Que força teriam os termos que usaria? Que propósito daria às suas palavras? A que argumentos recorreria? Que tom de voz empregaria? E como reagiria ela ao que ele dissesse?
Desistiu. Não podia ser. Não dava. Era tarde. O seu esforço não teria qualquer efeito. Lisa e Paris haviam passado à história. Ela estava com dores de cabeça, dores de costas, náuseas, vómitos, saudades, arrependimento, medo, muito medo do futuro.
Ost devolvê-la-ia ao marido. Sem mácula. E nunca mais se veriam. Nunca mais se falariam. Nunca mais se reuniriam aos serões falando do tempo em que ela deixara a ilha com a bagagem às costas para começar um novo tempo na sua vida.
Todos os castelos se haviam desmoronado. O desejo de aventura fora vencido nas voltas de uma estrada circular que trazia os fugitivos de regresso ao ponto inicial.



CAROLINA era gestora de uma multinacional e nas horas vagas dava-se ao luxo de cometer algumas excentricidades inofensivas, nas quais contava geralmente com a companhia de Ost.
Andavam de moto por estradas longínquas; passavam fins-de-semana perdidos num casebre algures no meio da planície; ou, então, decidiam ficar em casa, na cidade, com todas as janelas trancadas, sem atender o telefone nem a porta, passando as horas em conversas cúmplices e leituras exóticas essencialmente motivadas por ela.
Carolina procurava dar uma interpretação a tudo o que Ost fazia, ou dizia: se ele se sentava de certa maneira, era porque tinha este ou aquele trauma; se sonhava com rãs ou peixes voadores, era porque lhe acontecera isto ou aquilo na infância; se estava absorto, distraído, aéreo, era porque ansiava por qualquer coisa que já tentara realizar sem êxito; se ria muito, era porque pretendia disfarçar os seus sentimentos...; e por aí fora.
De início, Ost achou divertido aquele tipo de relacionamento em que todos os seus gestos, pensamentos e conversas eram implacavelmente dissecados, e ele mesmo até contribuía para alimentar a imaginação de Carolina, acrescentando ideias às dela, comentando, especulando...
Mas, a partir de certa altura, passou a sentir que a sua intimidade havia sido invadida a um ponto que ele próprio já tinha dificuldade em ser natural quando se encontrava a sós consigo mesmo.
Dava por si à procura de explicação para o movimento dos seus dedos (quando pegava na chávena do café, quando acendia o isqueiro...); para a forma do seu penteado (a risca à esquerda...); para a cor dos seus sapatos; para o estilo das suas camisas, para o tom das suas gargalhadas. E não chegava a uma conclusão. Era incapaz de sair de si próprio para se ver com outros olhos, mas também não conseguia viver em paz consigo, tantas eram as dúvidas e incertezas que se lhe haviam instalado no espírito desde que passara a conviver com Carolina.
Admitia a hipótese de ela ter razão, de fazer observações inteligentes (apesar de as suas conclusões não serem demonstráveis), mas sentia-se cada vez mais afastado do homem que pensava ser. E o pior é que, entretanto, nenhuma outra pessoa viera preencher o vazio deixado por um tal Ost que conhecia desde o berço...
O que sempre mais o incomodou, porém, nem sequer eram as teorias dela, mas sim um aspecto aparentemente secundário, ao qual, se calhar, muitos não dariam importância: é que no apartamento de Carolina não havia portas nos quartos, nem sequer na casa de banho!
Ela queria tudo sem barreiras, tudo transparente, tudo virado do avesso diante dos olhos, a fim de que a sua relação fosse o mais íntegra possível.
No entanto, o problema era que Ost não se sentia à vontade num espaço daqueles. E na casa de banho não ia além de um duche apressado por trás da cortina.
O seu problema com a ausência de portas na casa não dizia respeito a Carolina, mas sobretudo a uma filha dela, já crescidota, que se passeava pelos corredores com o maior à vontade, independentemente de haver alguém sentado na sanita, a tomar duche ou a lavar os dentes.
Ost dava voltas à cabeça a ver se era capaz de se libertar, mas acabava sempre por pegar nas suas coisas e voltar para casa, com o argumento de que tinha alguma coisa para fazer.
Depois, telefonava para Carolina e tentava convencê-la a passar algum tempo no seu apartamento, ao que ela tinha por hábito esquivar-se, com o argumento de fazer companhia à filha.
Ost acabava sempre por voltar para junto de Carolina. Fazia-o a contragosto, mas, ao mesmo tempo, impelido por uma força obscura não identificada. Era como se ela o comandasse à distância, fazendo que ele não a tirasse da ideia.
À noite, Carolina tinha o hábito de estender uma manta no chão frio de tijoleira e era aí que ambos dormiam. Ao fim de umas semanas, Ost já não podia virar o pescoço, tal a dor que sentia nas articulações.
Disse a Carolina que achava ridículo continuarem a dormir sobre o chão duro e gelado, mas ela insistia nas vantagens de semelhante solução:
– Faz bem às costas e é uma questão de disciplina!
A seguir, adiantava que era necessário passar por aquele sacrifício para que ambos pudessem, depois, alcançar o verdadeiro amor.
– Se não conseguires lidar com uma dificuldade tão elementar, como te podes considerar preparado para viver o sentimento mais sublime que temos em nós?... – inquiria ela.
Ost não tinha argumentos para a fazer mudar de opinião. E quando Carolina dizia que os motivos dele não passavam de desculpas por parte de alguém que estava conformado com as facilidades da vida, Ost reduzia-se ao silêncio, para não dar a ideia de que consentia numa existência de vícios.
Carolina tinha alguns anos mais do que ele, mas a sua forma jovial e desinibida de estar ajudava a atenuar as diferenças entre os dois.
Mesmo assim, Ost desconfiava que as liberdades que ela patenteava tinham um certo fundo de espectáculo. Até porque, um dia, numa paragem de eléctrico, Carolina não deixou de lhe fazer uma careta estranha, ao reparar que ele estava de olhar fixo num cartaz publicitário em que se via uma mulher insinuante estendida num sofá com uma bebida na mão. Ele pôs a hipótese de ser impressão sua o olhar tremendo que viu no rosto dela com a face contraída e tentou nunca mais pensar no assunto.
Carolina falava muitas vezes em ir acampar com ele para a Serra da Estrela. Mas Ost ia sempre adiando o momento decisivo, embora não recusasse frontalmente a ideia.
– Com certeza, deve ser interessante... – dizia ele. – Um dia destes, havemos de ir.
– Parece que não estás muito interessado... – replicava ela.
– Estou interessado, claro, mas não achas que é preferível esperarmos por um tempo mais quente?
Ost não era lá muito aventureiro quando se tratava de fazer longas distâncias. Pensava logo que ia ter saudades de casa e dos objectos que o rodeavam. Todavia, acabava sempre por acompanhar Carolina a todos os sítios, até porque não conseguia estar muito tempo afastado dela.
O dia em que arrancaram para a Serra da Estrela sempre chegou. O objectivo era acamparem a cerca de mil metros de altura, longe de tudo e de todos.
Com mochilas às costas, chegaram cedo à estação de comboios que os faria esquecer a cidade. Não levaram comida nem bebidas, pois Carolina garantira que na serra havia um pequeno estabelecimento comercial que abria de vez em quando para servir os clientes que passassem nas redondezas. Assim lho tinham dito e ela confiava.
– Tens a certeza de que vamos encontrar mesmo um sítio onde poderemos comprar alguma coisa para comer? – perguntou Ost.
A resposta de Carolina foi uma gargalhada, o que afastou as dúvidas mais imediatas da cabeça de Ost. Se ela ria daquela maneira seria porque estava segura quanto ao destino que os esperava.
No fim da viagem, desceram do comboio e subiram a serra a pé, conforme planeado.
– Achas que este é o caminho certo?... – perguntava Ost com alguma impaciência.
– Está descansado – respondia Carolina. – Se nos perdermos, acampamos em qualquer sítio.
Ost, contudo, preferia chegar exactamente ao sítio que ela dizia ter-lhe sido indicado por uns amigos e onde ninguém os perturbaria. Lá em cima na serra, só encontrariam céu azul e campos verdes até perder de vista, segundo o informara Carolina poucos dias antes da viagem.
Após algumas horas de caminhada, Carolina seguia várias dezenas de metros à frente de Ost, avançando com passo firme, parecendo disposta a nunca mais regressar ao ponto de origem.
Ele, por seu turno, ia cada vez com menos vontade de subir o piso íngreme pelo qual se aventuravam como dois adolescentes esquecidos de responsabilidades.
Se ela dissesse, naquela altura – "vamos embora para trás!" – ele teria acedido sem a mínima hesitação.
Mas Carolina era uma mulher de princípios. Por isso, continuou a marcha pela serra acima, levando Ost conformado no seu encalço, embora muitas dezenas de metros atrás.
Numa altura em que ele já nada via à sua frente a não ser clarões de azul incendiado, Carolina fez-lhe sinal para que se afastassem do caminho principal, metendo por uns atalhos e atravessando campos atrás de campos, onde realmente só faltava aparecer Deus a todo o instante, saudando-os pelo glorioso esforço de terem chegado ao reino da eternidade.
– Que tal achas acamparmos por aqui? – perguntou Carolina de olhos a brilhar.
– O sítio é mesmo este? – quis saber Ost.
– Mais ou menos... – esclareceu ela.
– Pode ser – acrescentou ele, sem forças para discutir.
Montaram a tenda com requisitos e pormenores, puseram lá dentro as suas roupas e sentaram-se à sombra de uma árvore a descansar.
Ost quis saber se o tal sítio onde poderiam comer ficava muito longe e ela respondeu que mais tarde iriam lá tomar qualquer coisa.
– Mas não sei se aquilo tem horário de funcionamento – salientou Carolina.
A meio da tarde, foram dar um passeio pelos campos e encostas a ver se descobriam o tal café. Não deram com ele. Ao fim da noite, voltaram a procurar. Nada. Foram deitar-se muito cedo, sem comer, cansados, sem nada para fazer. Voltou-se cada um para seu lado, sem palavras, deixando que a noite se lhes enterrasse na alma.
No dia seguinte, voltaram a procurar o tão ansiado estabelecimento comercial. Andaram às voltas por atalhos, entre verduras e animais que pastavam naquelas alturas imensas, até que, algures adiante, Carolina disse ter vislumbrado um casebre.
Aceleraram o passo e em pouco tempo estavam à porta de uma espécie de café que fazia de restaurante para aqueles que a certa altura da serra eram surpreendidos pela fome ou pela sede.
Carolina e Ost banquetearam-se o melhor que puderam e, antes de saírem, ele meteu conversa com a empregada, que era gorda e peluda, a fim de saber a que horas poderiam recorrer aos serviços da casa.
Quando deu por si, Carolina tinha desaparecido. Foi à sua procura e reparou que ela se afastava à velocidade da luz. Depois, viu-a meter-se dentro da tenda para não voltar a sair de lá nas horas seguintes.
Ost pôs-se a pensar o que teria feito para lhe causar uma tal reacção. Mas não foi capaz de perceber o que pudesse ter acontecido. Pôs a hipótese de ela se ter recordado de qualquer incidente na sua vida, daí aquela atitude de súbito recolhimento numa tenda minúscula, quando o dia cá fora estava magnífico.
Procurou não dramatizar o acontecido e sentou-se por perto, brincando com os dedos nas ervas e na terra sobre os ramos secos.
Teve a ideia de abrir um canivete e de se pôr a cortar num pequeno tronco de madeira. Recordando a infância, foi esculpindo com golpes firmes o bico de uma ave esguia num dos extremos da madeira, contando com a bifurcação do lado oposto para servir de pé ao corpo, uma vez terminado o trabalho essencial de aperfeiçoamento das formas.
Animado com a primeira experiência, Ost decidiu ir à procura de outros troncos velhos e abandonados nos quais pudesse dar largas à sua imaginação e talento de mãos.
Horas depois, já tinha três esculturas prontas para guardar no saco de viagem. E foi aí que se apercebeu que Carolina continuava sem dar acordo de si. Foi a correr até junto da tenda onde ela se metera e espreitou, divisando o seu corpo imóvel sobre o chão.
– Carolina – chamou ele. – Sentes-te bem?!
Mas não obteve resposta. Nem viu qualquer movimento que denotasse vida no seu corpo. Sentiu um calafrio. Aproximou os olhos e notou que ela respirava. O que se passaria, então, para não reagir?
Deprimido e confuso, afastou-se, indo encostar-se a um muro baixo que ficava a poucos metros da tenda. "Não imagino o que possa ter acontecido", pensou.
Mesmo que quisesse desabafar ou falar com alguém, não se via vivalma nas redondezas. Só se voltasse ao café onde haviam estado naquela manhã. Mas talvez ainda fosse cedo demais para pedir ajuda. Não valia a pena ser alarmista. Carolina podia estar, apenas, a passar por um momento menos bom. Por isso, Ost decidiu esperar.
De vez em quando, aproximava-se da tenda e chamava por ela. Mas o silêncio continuava. Absoluto.
Quando a noite caiu, não teve outro remédio senão abrigar-se. Entrou com cuidado, sentou-se ao lado de Carolina e acendeu um isqueiro para se certificar, mais uma vez, se ela estava viva. Tocou ao de leve no seu corpo, que estava quente, mas duro como uma pedra desprovida de alma. Parecia uma estátua caída do pedestal das nuvens.
Ost desistiu de tentar trazê-la de regresso à vida e deitou-se a seu lado, de barriga para cima, na mesma posição em que estava Carolina. Procurou afastar ideias negativas e ameaçadoras, esforçando-se por não pensar.
A noite era um enorme balão cheio de vazio. Ost evitou mexer-se para não tocar em Carolina, cuja respiração nem se ouvia.
Abandonado e sozinho no alto da serra, Ost sentia-se como quem acabava de chegar a um mundo desabitado.
Manteve os olhos abertos, mas nem assim via coisa alguma. Olhava para o lado e era o mesmo que ter um cadáver com a corda do silêncio à volta do pescoço.
– Carolina! – chamou mais uma vez.
Parecia que tinham passado anos desde que ali chegara. Sentia como se o seu corpo tivesse envelhecido sem motivo, sem cansaço, sem desilusão. Ost tinha chegado ao lugar do nada, da completa ausência de coisas, pessoas, movimentos.
Num esforço titânico de afastar tudo o que pudesse perturbá-lo, viu-se, de repente, a ele mesmo caminhando, à noite, numa estrada deserta iluminada por algo que vinha de cima, mas que ele não era capaz de identificar.
Talvez Deus tivesse vindo finalmente ajudá-lo a sair daquela prisão tenebrosa no alto da serra. Mas que Deus?
Podia ir-se embora a qualquer momento, sem dúvida. No entanto, a atitude de Carolina prendia-o à serra. Se pegasse nas suas coisas e partisse sem mais explicações, corria o risco de a entregar ao imprevisto ou até mesmo à morte. Era sua obrigação fazer-lhe companhia. Contudo, ela não estava em parte alguma, embora se encontrasse estendida a seu lado.
Por isso, a estrada deserta iluminada que, de súbito, lhe surgira pela frente, parecia libertadora. O caminho não tinha fim. Nem curvas ou ziguezagues misteriosos que conduzissem ao infinito. Era uma estrada que ultrapassava todos os obstáculos. Mas Ost sabia que não precisaria de ir longe para que lhe acontecesse o que veio a acontecer. E via-se a ele mesmo andando na estrada larga e recta que se lhe apresentava diante dos olhos.
Procurou deter a marcha na visão que o possuía, mas não conseguiu, como se uma força exterior a ele, que repentinamente tivesse dado entrada no seu corpo, o comandasse para um destino desconhecido.
Verificou se estava a sonhar. Mas não. Tinha os olhos bem abertos, os braços e as pernas no lugar em que os deixara quando se estendera ao comprido, sentia os tornozelos, mexia os dedos das mãos, respirava, pensava, tinha medo.
Só não era capaz de se mover. A imobilidade era a sua única limitação. Contudo, na visão que tinha, andava com toda a naturalidade do mundo, como se nada de estranho estivesse a ocorrer.
E por mais que tentasse travar a marcha, uma força interior empurrava-o no sentido contrário. Começou a entrar em pânico, pensando que podia acontecer--lhe algo de medonho. Pôs a hipótese de estar alguém à sua espera uns metros adiante. Alguém que seria a morte, sem dúvida. Porque só a morte o intimidava, ao fim e ao cabo. Sobretudo uma morte que não se fizesse anunciar, apanhando-o desprevenido numa esquina imprevista.
Fez um esforço para pedir socorro a Carolina, mas embora ela se encontrasse deitada a seu lado, não conseguia tocar-lhe com a ponta de um dedo.
Tentou gemer, suspirar, respirar fundo, para que ela percebesse a sua agonia. Em vão. Carolina continuava estendida na tenda, com o corpo a poucos milímetros do seu, podendo mesmo imaginar-se que estaria a passar por uma situação semelhante à dele.
Pareciam dois mortos vivos numa tenda de campismo, prontos a apodrecer ao longo dos anos, sem comunicação, sem amor, sem ternura nem outras emoções, tudo isto apesar de nada, realmente, os separar.
Entretanto, Ost continuava a ver-se caminhando na estrada deserta e nocturna, em passos lentos e calculados, como se levasse por direcção um objectivo determinado que, todavia, não se revelava.
"Tenho de parar", disse a si mesmo. "Se continuo, passo para outra dimensão".
Mas os seus passos teimavam em conduzi-lo para a frente, sempre para a frente, com uma firmeza em que não se revia, não se reconhecia, não se compreendia.
E, a partir de certo instante, convenceu-se mesmo de que não tinha hipóteses de resistir à força invisível que o empurrava.
Deixou-se ir. Desolado, sozinho, vergado ao peso daquele novo e estranho mundo em que subitamente caíra.
À medida que avançava, teve a impressão de vislumbrar um objecto ao longe, ali tão perto, algo indefinível, obscuro, imóvel, que se aproximava cada vez mais.
Apurou o olhar e distinguiu uma caixa! Uma caixa azul. Procurou recordar-se de alguém a quem pudesse associar semelhante objecto, mas não foi capaz. Tudo indicava que se tratava de uma coisa nova na sua vida. Ou, pelo menos, de algo que a sua memória não conseguia esclarecer no momento.
Fez uma última tentativa de parar, de recuar, de fugir o mais depressa possível, de inverter o rumo dos seus passos, tão aflito se encontrava com o que lhe acontecia. Porém, o impulso para diante era mais poderoso do que toda a sua vontade reunida naquele momento assustador e inultrapassável.
Convenceu-se de que tinha mesmo que ser. Aceitou que o encontro com a caixa azul seria o seu destino. E acreditou, piamente, que dali não sairia vivo!
"Pronto", reflectiu sozinho. "Um dia, tinha que ser. Este é o meu fim. Não há nada a fazer".
Foi como um cordeiro a caminho do altar onde seria sacrificado que Ost continuou a caminhada em direcção à caixa azul que, surpreendentemente, se havia interposto no seu percurso.
A cerca de um metro de distância do estranho objecto, quando o via com toda a nitidez, e sem saber como, os seus passos detiveram-se! Mas ele sabia que aquela seria uma paragem efémera, como se lhe tivessem dado apenas uma oportunidade para respirar fundo antes de subir os degraus do cadafalso.
Não tirava os olhos da caixa e, entretanto, procurava acelerar as ideias, a ver se descortinava uma solução que o pudesse salvar. Ost tinha já a certeza de que seria obrigado a abri-la e a mirar olhos nos olhos o que estivesse lá dentro. Não sabia quem o coagiria a isso, mas não tinha dúvidas de que assim havia de ser nos milésimos de segundo que se seguiriam.
Tremendo da cabeça aos pés, preparou-se para a golpada final. Pensou que o melhor seria acabar com semelhante tortura e decidir-se de uma vez por todas a avançar, nem que fosse apenas para desvendar o mistério que o esperava. É que, de outra forma, corria o risco de permanecer na escuridão dos tempos para o resto dos seus dias. E a verdade é que é preferível enfrentar o maior perigo, nem que seja a morte, do que viver na ignorância eterna.
Assim, foi já também por vontade própria (não esquecendo a obrigação superior que conduzia todos os seus movimentos) que estendeu a mão direita para a caixa azul.
Mediu com o olhar o encurtamento da distância, milímetro a milímetro, enquanto organizava os últimos raciocínios, e tocou com a ponta do dedo indicador na pequena fechadura metálica que guardava o segredo.
Nesse preciso instante, sentiu uma calma enorme e repentina, que vinha contrastar, abrupta e paradoxalmente, com tudo o que se passara com ele nos momentos anteriores.
"Agora, já não posso fazer nada", pensou. “Não posso fugir mais”.
E deu a volta à chave, levantando o tampo da caixa, já sem coragem para mais nada, muito menos para virar a cara.
Um pequeno vulto acocorado mirou-o nos olhos, como se dissesse:
– Só agora me libertas!
Era um animal bebé, semelhante a um ser humano, de pele encarquilhada como quem viveu centenas de anos, enclausurado, por castigo, na jaula das suas contradições, prazeres e desgraças.
De início, Ost não esboçou reacção. Ficou a olhar o bicho, sem se mexer, como se procurasse reconhecê-lo, situá-lo, identificá-lo. E, a dado momento, pareceu-lhe que o animal se assemelhava bastante a ele mesmo quando era criança, conforme se recordava de uma fotografia de menino que a mãe tivera exposta durante anos sobre a mesa-de-cabeceira.
E quanto mais olhava para o pequeno animal desprotegido, melhor compreendia que, afinal, o monstro que tinha na sua frente era ele próprio, muitos anos antes e muitos anos depois, sem que o tempo tivesse exercido qualquer efeito sobre aquele corpo que lhe pertencia, apesar de se encontrar fora dele, durante tanto tempo encerrado numa mísera caixa de madeira, que alguém pintara de azul e lançara para o vazio do cosmos.
Mas o destino quisera que ambos se reencontrassem. O bebé envelhecido estendeu os pequenos braços na direcção de Ost e este compreendeu que tinha chegado a altura de o recolher, finalmente, depois de tantas andanças, desencontrado de si mesmo, ao deus dará, sem ninguém que com ele se identificasse, sem ninguém que o amasse, que o ouvisse, que o explicasse.
Correspondeu ao gesto do bicho, estendendo-lhe igualmente os braços. Segurou a sua carne mole e tirou-o da caixa. Quando o trazia para o colo, olhou-o de perto, outra vez, de um ângulo mais directo, e teve a certeza de que era ele, realmente, quem acabava de conquistar a liberdade.
Logo a seguir, reparou que uma lágrima grossa, pesada e silenciosa caía pela face do bebé de pele ressequida e encostou-o ao peito como uma mãe que agasalha o filho do gelo da noite. O encontro dos dois corpos deixou-o com uma sensação de calor, de braseiro junto à alma cansada.
Depois, sem que tivesse passado qualquer tempo sobre o movimento, foi abanado por um ligeiro sobressalto e viu-se de novo dentro da tenda, deitado ao lado de Carolina, imóvel como sempre, como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, corria-lhe uma lágrima pelo rosto abaixo, a mesma lágrima grossa, pesada e silenciosa que deslizara pela face da criança que a ele se abraçara como um náufrago.
Não voltou a ver o animal que se anichara no interior do seu peito. Mas sentia-o lá dentro, como uma aragem, uma bola de espuma que cresce e depois se perde no ar.
No dia seguinte, Ost acordou aos trambolhões dentro da tenda. Carolina estava a desmontá-la, arrancando estacas e fios com toda a garra de que era capaz.
Ele ergueu-se apressado e saiu pela abertura que ela se preparava para fechar, como se fosse de todo indiferente ao facto de haver alguém ainda deitado.
A roupa de Ost estava espalhada pelo chão, como se tivesse sido vítima de uma ventania danada.
Ele não pediu a Carolina que esperasse, nem lhe perguntou coisa alguma.
Sentou-se no chão frio, enquanto ela se afastava com o saco às costas, arrastando a tenda sobre a poeira.
Depois de ter arrumado as suas coisas, Ost pôs-se a descer a serra, a caminho da estação de comboios.
Encontrou Carolina já dentro de uma das carruagens, sentada, hirta, olhando a paisagem através da janela.
Sentou-se à sua frente, sem nada dizer. O comboio arrancou. Fizeram a viagem, assim, ora evitando que os seus olhares se encontrassem, ora fazendo-os colidir nos solavancos dos carris, o que fazia o trajecto parecer mais longo.
Os quilómetros andavam e tudo parecia continuar no mesmo sítio, ao ponto de Carolina e Ost, de tanto cabecearem sobre a monotonia dos relógios, já deixarem tombar os corpos para o lado, como dois bonecos desarticulados, tal a convicção com que evitavam olhar-se...

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CLARISSE e Ost encontraram-se, por acaso, numa viagem que ambos faziam pela Europa. Ela tinha nascido em Portugal, mas o seu destino era andar pelo mundo fora ao deus dará.
Conheceram-se num comboio entre duas cidades e, desde então, passaram a estar sempre juntos. Iam a museus, jardins, monumentos, galerias de arte e a uma infinidade de sítios que seria fastidioso nomear.
Mas Clarisse só pensava em roupas. É verdade que acompanhava Ost a lugares com significado histórico e cultural, todavia, notava-se que o seu pensamento não fugia dos trapos.
E foi exactamente por isso que ele se sentiu atraído por ela, embora nunca tivesse chegado a confiar por aí além na sua forma de vida. A diferença de personalidades entre os dois seduzia-o, mas depois havia sempre um ponto de conflito, de obscuridade, de incompreensão, que o fazia retroceder.
Como não a conhecia bem, achou que o melhor seria lidar com ela na base da aparência, dos pormenores, dos silêncios, dos comentários triviais, até porque não passaria o resto dos seus dias em viagem. Mais semana menos semana, haviam de separar-se.
Não o preocupava em demasia o facto de Clarisse ser um furacão. Em qualquer circunstância, estivesse onde estivesse, ela mostrava-se sempre pronta a defender os seus interesses que, geralmente, se prendiam com uma saia assim, umas botas assado, um vestido muito comprido ou um casaco excessivamente caro.
Clarisse falava pelos cotovelos acerca de tudo e mais alguma coisa. No entanto, nunca fazia qualquer referência à sua vida pessoal.
Ost andava pela Europa de férias, mas Clarisse não era clara quanto aos motivos e objectivos da sua viagem. Das suas viagens. Porque ela nunca parava. Saltitava de cidade em cidade como quem se diverte num jardim-de-infância do tamanho de um continente.
Durante o tempo em que conviveram, os dois foram sempre coordenando os sítios para onde iam, os hotéis onde ficavam, o destino dos comboios que utilizavam.
Ost soube que Clarisse não tinha qualquer ocupação profissional, por isso não podia dizer-se que estivesse de férias. Dava a impressão de que o turismo era a sua actividade permanente. Devia ser filha de uma família abastada, caso contrário não poderia viver como vivia. Quando ela passava numa loja de pronto-a-vestir, não resistia a entrar. E vinha à porta chamar Ost que tinha ficado a ver as montras, enquanto ela se entretinha a experimentar roupa:
– Vem ver este camiseiro tão bonito que está ali à venda! Vem ver estas meias de lã que são um espanto! Vem ver estas calças fenomenais para eu vestir no Inverno!...
Ele fazia-lhe a vontade, visivelmente contrariado. E sentia uma enorme vergonha quando verificava que ela se limitava a vestir e despir roupa só para se observar diante do espelho, porque, na maioria das vezes, acabava por não comprar coisa alguma. Dava um trabalhão às empregadas das lojas, que não a deixavam, na esperança de fazerem alguma venda e, depois, saía porta fora sem dizer ao menos obrigado.
Ost ficava para morrer nessas alturas. Vexadissimo. Apetecia-lhe desaparecer pelo chão abaixo. Porque ele era exactamente o oposto: quando entrava num estabelecimento comercial, acabava sempre por comprar alguma coisa, pois sentia-se mal por dar trabalho aos empregados e no fim não comprara nada.
Mesmo que não fosse do seu agrado o artigo que lhe mostravam, mesmo que as calças ou a camisa não lhe servissem, mesmo que os sapatos não fossem do seu número exacto, comprava por uma questão de delicadeza. Certa vez, houve até uma empregada de balcão que lhe disse directamente que não era obrigado a comprar, mas ele insistiu mais de cinco vezes que gostava muito, que era exactamente aquilo que pretendia, que tinha umas calças que condiziam na perfeição com aquela camisa e acabou mesmo por adquirir o artigo que, na verdade, estava muito longe de apreciar.
Depois, conforme se metia pelos olhos de qualquer pessoa mais atenta, a sua aparência era um verdadeiro desastre: cada peça de roupa destoava das outras de uma forma preocupante, mas Ost nem parecia dar-se conta da enorme falta de gosto com que se vestia.
O caso mais marcante foi quando se decidiu pela compra de uns sapatos que não eram do número que calçava, mas ele sentiu-se de tal modo inibido com as atenções do comerciante que puxou de um cheque e saiu porta fora com os pés apertados no par de sapatos novinho em folha, coxeando como um mendigo pela rua adiante.
Poucos metros adiante, teve que voltar a entrar noutra loja para resolver o problema. Viu umas botas que lhe caíram no agrado, mas também não havia o seu número. Pelo seguro, comprou um par dois números acima. Guardou os sapatos apertados e calçou as botas novas, dentro das quais os seus pés dançavam como folhas de árvore. Mas ele só olhava para os pés, sentindo-se muito feliz com a aquisição que fizera. E, na rua, quase atropelava as pessoas, por não estar habituado àquele gigantesco tamanho de botas.
Para Ost, as peças de vestuário eram praticamente um acaso na vida. Para Clarisse, eram uma obsessão.
As suas viagens não foram muito para além disso. Às vezes, Ost queria descansar, sentar-se num jardim ou num banco de museu, mas ela punha-se a refilar, dizendo que pareciam dois velhos em fim de estação. E se ele insistia em ficar sentado algures, ela não hesitava em meter conversa com este ou com aquele a propósito dos assuntos mais vulgares.
Depois, levantava-se e punha-se, de novo, a ver montras, a espreitar para dentro de restaurantes, a mirar as roupas das mulheres que passavam, chegando mesmo por vezes a detê-las na rua para lhes perguntar onde haviam comprado esta ou aquela peça que traziam no corpo.
Como não falava fluentemente qualquer língua, era frequente vê-la recorrer a gestos, quase sempre febris, apontando para um lado e para o outro, ou agarrando no casaco das pessoas, no lenço, na borda da saia, com vista a fazer entender-se.
E Clarisse conseguia geralmente o que pretendia. Mas, certa vez, teve o azar de travar o passo a uma mulher que não achou graça aos seus gestos, ou por não a ter percebido, ou por ter considerado inoportuna a sua intromissão, e que agrediu Clarisse ali mesmo no meio da multidão que deslizava pelos Campos Elíseos, o que gerou um enorme burburinho, pois a portuguesa entendeu responder na mesma moeda.
As duas embrenharam-se numa imprevista contenda, empurrão para cá, ameaça para lá, cada uma a falar a sua língua, até que a francesa começou a gritar que a queriam roubar.
E antes que aparecesse a polícia, Ost precipitou-se na direcção de Clarisse, agarrou-a por um braço e desapareceu com ela dali sem mais explicações.
– A cabra ainda teve o descaramento de me bater! – exclamou Clarisse logo que recuperou o equilíbrio.
– Mas olha que tu é que te meteste com ela... – recordou Ost.
No entanto, Clarisse entendia que não se havia metido coisa nenhuma e que a mulher é que a interpretara mal.
À medida que o tempo passava, Clarisse foi acalmando e dando a sua atenção às montras das lojas que faziam a sua felicidade.
Ost, por seu turno, tinha cada vez mais interesse em perceber os meandros da agitação e da leviandade que transbordavam do corpo de Clarisse como uma queda de água a ferver. Ela era imparável. E nem à noite sossegava.
Costumavam ficar cada um no seu quarto de hotel, mas Clarisse não se cansava de arranjar todos os pretextos para lhe ir bater à porta. Queria voltar a sair, alegando que ainda era muito cedo e, então, sugeria que fossem a um dancing, a um pub, a uma sessão de cinema da meia-noite.
Mas Ost não estava geralmente para aí virado. Abria-lhe a porta ensonado e voltava para a cama, mantendo o quarto às escuras, enquanto ela se deixava ficar desgrenhada junto à claridade vinda da luz do corredor.
– Entra e senta-te – dizia ele.
Mas Clarisse não arriscava aproximar-se demasiado. Por qualquer razão, ambos pareciam não confiar inteiramente um no outro.
Ost achava-a excessivamente levantada da cabeça para se comprometer e Clarisse considerava que ele era pacato demais para o seu gosto.
– Não percebo por que vieste viajar – murmurava ela. – Estás sempre cansado e a querer vir para o hotel. Assim, não te divertes e eu acabo por ter a mesma sorte!
Ost respondia que na manhã seguinte haviam de programar qualquer coisa de diferente, que ela tinha alguma razão, mas que os seus gostos eram difíceis de conciliar...
Clarisse voltava finalmente para o seu quarto, contudo não demorava muito tempo até que Ost sentisse que estavam a dar a volta ao puxador.
– Ainda estás acordado?... – perguntava ela, espreitando. E entrava logo a seguir, para se sentar na beira da cama, já menos receosa da aproximação.
Ost convidava-a a deitar-se, mas ela não aceitava, explicando que se conheciam mal e que, por isso, não deviam precipitar qualquer convívio íntimo.
Ao fim de umas horas, ele já confundia Clarisse com outras mulheres nos seus sonhos e dizia coisas sem nexo que a faziam ir embora.
Mais tarde, porém, a porta voltava a ranger, seguindo-se risinhos, bichanares, gemidos e o seu nome pronunciado em diversos tons de voz. A luz apagava e acendia, a porta abria e fechava, Clarisse entrava e saía, patinava no quarto com os pés descalços em cima do tapete e só quando o dia iluminava os objectos e os moveis é que ele conseguia finalmente dormir umas horas descansado.
A certa altura das muitas viagens que fizeram juntos, Clarisse e Ost chegaram a um ponto em que se desentenderam. Ela foi para um lado e ele para o outro da estação de comboios, cada um com as suas razões de queixa. Ambos disseram que nunca mais se falariam, que estavam fartos, que o seu convívio tinha sido uma perda de tempo. Viraram as costas e nem disseram adeus.
Clarisse seguiria para a Suíça e Ost para Itália. Logo que se viu só na carruagem, ele suspirou fundo, reclinou-se no assento e procurou não pensar em nada. Finalmente, tinha conseguido libertar-se de uma mulher que lhe pusera a cabeça em papa durante vários dias e, agora, ia ter oportunidade de repousar à sua maneira, de passear pelos lugares, sem restrições, sem neuroses, sem sacos de compras, sem angústias, sem paranóias.
Já sentado, abriu um guia da cidade de Roma e pôs-se a estudar os percursos, os hotéis, os espaços verdes, as praças, as ruas principais, os cafés estratégicos...
Clarisse, por seu lado, encostou a cabeça para trás no assento, fechou os olhos e simulou dormir, como se estivesse disposta a abri-los a qualquer momento só para ver Ost regressar contristado e pedir perdão por todo o mal que lhe fizera. Ela denotaria indiferença pela sua atitude conciliadora, mas convidá-lo-ia a sentar-se... Depois, ao longo da viagem, recomeçariam tudo.
Porém, ele não mudou de comboio e já tinha Roma refulgindo nos olhos, com os seus monumentos, as suas belas mulheres, as suas artérias antigas, as suas ruínas, os seus telhados sucumbindo à aventura.
Mesmo assim, de vez em quando, Ost olhava de relance para a janela, a ver se Clarisse surgia, milagrosamente, por entre as bichas de passageiros que tomavam assento nas carruagens. Mas, logo a seguir, voltava a debruçar-se sobre o guia de Roma como se procurasse esconder de si próprio a breve expressão de desapontamento que lhe obscurecia o rosto quando se dava conta de que ela não voltava mesmo para junto dele.
Uma separação era sempre uma separação. Por mais superficial que fosse o conhecimento mútuo, havia sempre algo que se mantinha, um fio ténue, a claridade de um simples olhar, o eco de uma palavra sem pretensão. E, assim, Ost pensava que em vez de as coisas terem evoluído de determinada maneira, podiam ter evoluído de outra.
Mas a experiência já lhe ensinara que não valia a pena deixar-se prender por insignificâncias, por sentimentalismos desconexos, por desejos mal arrumados na gaveta.
Passara há muito o tempo em que Ost terminara o seu primeiro namoro: por imaturidade, havia precipitado a relação a um ponto em que ela já a considerava irreversível. Por isso, quando ele lhe disse que não pretendia continuar a vê-la, houve uma tal mágoa no olhar perplexo da rapariga, que só então Ost teve consciência da decisão leviana que tomara.
Abalado com a sua própria atitude, entrou em casa sem explicar o acabrunhamento que transportava no coração, foi para o seu quarto, fechou a janela e deitou-se na cama durante três dias consecutivos. A mãe foi vê-lo diversas vezes, perguntar-lhe se estava doente, se queria ser visto por um médico, se tinha fome... mas a tudo ele respondia ao contrário, esclarecendo que estava bem, só que tinha muito sono e precisava de descansar.
A mãe ainda foi remoer ideias para a cozinha, pondo a hipótese de ele ter feito alguma asneira, ou de se ter envolvido em algum problema delicado, o que a fazia voltar para junto dele a querer saber coisas, mas logo que sentia ranger a porta do quarto Ost fingia que estava a dormir...
Enquanto permaneceu na cama, andou e desandou com a cabeça nas mais diversas direcções, sem conseguir acalmar a dor que lhe trespassava o corpo pela decisão que tomara de abandonar a jovem que nele confiara. A repentina tristeza dos olhos dela, da sua face, da sua boca comprimida e tensa haviam sido mais fortes do que todas as palavras e argumentos do mundo. E, então, ele ficara naquele estado depressivo, prometendo a si próprio que nunca mais se envolveria profundamente com qualquer mulher pela vida fora.
Agora, verificava que a separação de Clarisse também o abalava, embora não quisesse assumi-lo. Dizia-se farto dela, mas a verdade é que, no fundo, se sentia frustrado pelo facto de não ter conseguido conquistar a sua intimidade, por mais complexa ou banal que fosse.
Tudo indicava que o trauma do seu primeiro namoro nunca mais o abandonaria. Porque Ost tinha grande dificuldade em revelar-se, em expor-se, em desnudar-se, perante as mulheres com quem lidava. Algumas notavam-no, outras não. E havia também as que se apercebiam e não emitiam opinião.
Sempre que lhe tocavam no assunto, ele mostrava-se disponível para o diálogo, mas, ao fim e ao cabo, não alterava uma vírgula à sua maneira de ser. Receava ficar definitivamente preso pelo coração de uma mulher e, depois, nunca mais ter oportunidade de encontrar aquela que, realmente, o faria feliz.
Quando chegou a Roma, Ost não voltou a pensar em Clarisse. Logo que saiu da estação, deixou-se ficar no meio da rua, olhando em todas as direcções, observando o movimento dos carros, calculando distâncias, contabilizando horas.
Entrou num café para comprar tabaco e beber qualquer coisa. Junto a uma ba