Não chores pela minha morte

 
  romance
edição ambar
à venda em www.fnac.pt
 
     
  Primeiro capítulo  
 

Vi partir o avô Celestino, Auxiliadora, os meus pais, a tia Márcia, duas amigas da tia Márcia, um vizinho que nunca foi com a minha cara, a mulher dele e a mãe da mulher, o carteiro do bairro, um garoto de oito anos que passava as manhãs aos pulos na rua, antigos professores, o primo Ascênsio que teimou em ir fardado de militar e os seus dois filhos, pessoas de quem me lembro ou de quem guardo apenas uma ideia vaga, algumas que se apaixonaram por mim e outras que nunca amei. Vi partir gente sem nome, gente sem história, para os confins do tempo, gente aqui tão perto.
Por vezes, ouço o eco da voz de Auxiliadora ao fim da tarde:
“Anda cá! Vem falar comigo…”, gritava ela da porta de sua casa, longe de saber que, décadas depois, eu recordaria a sua voz nítida e azul como se não tivesse passado um minuto desde o último instante em que nos víramos.
Auxiliadora falava com a segurança e a alegria dos que acreditam, dos que confiam. Falava como se tivesse o mundo inteiro ao dispor, olhando-me com malícia, com rebeldia. Eu não lhe respondia, não lhe ligava, na certeza de que a deixaria vibrante de fúria.
“Anda cá… tenho uma coisa para te dizer”.
Eu fingia-me sem interesse, deixava-a falar, barafustar, irritar-se, encostada ao umbral da porta, descalça, irrequieta por baixo do vestido desalinhado acima dos joelhos, na expectativa de que o seu entusiasmo desaparecesse.
“Não quero saber de ti para nada”, protestava ela ao fim de pouco tempo quando se dava conta da minha indiferença. “Estou farta. Não me voltes a procurar. Esquece-me. Só me arrependo de não ter dado ouvidos a quem me avisou…”.
Não terminava a frase com o propósito de me ferir, de me obrigar a uma reacção, mas nem assim eu lhe fazia a vontade. Metia-me em casa e não lhe punha os olhos em cima até ao dia seguinte.
Auxiliadora era magra, morena, de cabelo curto. Fervia em pouca chama. A nossa amizade durou até ao dia em que partiu. Cortámos relações milhões de vezes e milhões de vezes as reatámos. Quando recebi a notícia da sua morte, senti a cabeça oca e um aperto na alma que se prolonga até ao presente. Não voltar a ver Auxiliadora foi um rude golpe. Havia coisas que eu só a ela confessava, coisas que só ela compreendia. Eu acabara de completar trinta anos e ela vinte e oito. Não tínhamos a certeza do que nos esperava. Ela não chegou a compreender o que vinha a seguir. O seu desaparecimento foi um livro que ficou por escrever.
Mexo e remexo nas páginas de um caderno seu que guardo desde há anos, fazendo que Auxiliadora regresse, reviva através de palavras, rabiscos, garatujas. Está longe a minha Auxiliadora, está não sei onde, embora a sua presença seja tão real como o sol que me entra no quarto.
O primeiro capítulo deste meu livro é um dia claro, arrebatador, que se confunde com as páginas luminosas do caderno que Auxiliadora me deixou.
Auxiliadora está por aí repleta de coisas para contar, inquieta para acrescentar novidades às frases rascunhadas no caderno da sua memória, que se resume a umas notas breves, apontamentos vagos, ideias dispersas, desabafos. Com ela, há sempre tanta coisa a acontecer.
Auxiliadora foi-se e não se foi. Morreu, mas está viva, está viva em outros, está perene, indomável, rondando-me ainda como um tigre em busca da sua presa, um tigre cujas garras o tempo não envelheceu. Detecto os seus sinais, as suas marcas no ar, os suspiros com que me enfeita a casa ao entardecer. Não sei se continua a dar pelo nome de Auxiliadora, ou se dá por outro nome. Tanto me faz.
Por agora, estou na cama, à espera que me venham buscar. Senti uma ligeira indisposição e chamei uma ambulância que me possa transportar aos serviços de urgência. Na minha idade, não convém facilitar. Antes de recorrer ao hospital, telefonei a Rute, mas não obtive resposta. Há vários dias que Rute não me aparece. Quando passo algum tempo sem a ver, sinto-me outra pessoa, sinto que me falta algo de essencial e fico com a impressão de que tudo corre o risco de se desmoronar.
Rute é uma amiga médica que se habituou a visitar-me com alguma assiduidade. A indisposição que senti talvez se deva à sua ausência. Espero que a ambulância não demore, a ver se ainda resisto uns tempos. Quero ir juntar-me a Auxiliadora, mas há tarefas que por enquanto me impedem de partir.
Vejo as sombras de espíritos inquietos pairando à minha volta. Suplicam-me para que eu diga tudo, para que não interrompa a escrita, para que me deixe de sentimentalismos, para que esqueça Auxiliadora. Ela teve o seu tempo, enquanto o meu se aproxima do termo, um termo que me abrirá as portas do tempo todo.
Sei que têm razão. Não discuto, embora concorde que não é fácil desligar-me de Auxiliadora, nem de Rute, nem de ninguém. Afastar-me de um sítio ou de uma pessoa é o pior que me podem fazer. Sinto-me desintegrar por dentro, como numa orfandade insuportável, fico com ganas de ir à janela e renegar o que me ensinaram, perco as referências, desanimo, desisto. Desisto por uns tempos, mas depois sei que volto a ser quem era. Aconteceu-me tantas vezes, acumulei tanta dor.
Estou a chegar ao início de um outro tempo, que é o fim do meu tempo. Vai sendo altura de descansar. O percurso foi intenso, esforçado, quase no limite, obrigando-me a passar o testemunho a outro – um filho, um vizinho, um amigo, um desconhecido – que continuará a corrida por mim. É uma corrida de estafeta, em direcção à eternidade, à qual dei o meu contributo, ainda que ínfimo. A morte é um momento num percurso de que faço parte, é um instante de lucidez e amor, o instante em que alguém me sucederá na viagem, tal como eu sucedi a Auxiliadora, se é que assim foi realmente. Nunca se sabe com rigor a quem sucedemos, ou quem nos sucede, mas podemos imaginar. É uma questão de amor. O amor que sinto é esse encontro entre o outro e eu, essa identificação, ou tentativa dela, que justifica a eternidade.
Calculo que os seres, os corpos, têm o sentido de se sucederem uns aos outros, tornando possível o eterno. Viver para sempre nos outros talvez seja a nossa felicidade, o nosso bem. Não me refiro a qualquer tipo de reencarnação, mas a uma continuação da existência no outro. Uma passagem de testemunho de uma identidade para outra.
Durante anos, vivi na ilusão do que me diziam, do que me expunham. Depois, percebi como as coisas se passavam e aceitei a morte. Quero descansar. O que posso fazer de melhor, agora, é dar o lugar a outro, para que me seja possível continuar através dele.
A procriação dá forma a este processo imparável. Um filho é a solução mais evidente no caminho para a eternidade. A um filho entrega-se tudo de vontade, sem esforço, por prazer. Ele é parte de nós, nasceu de nós, existiu em nós e, caso a morte não o leve prematuramente, continuará para além de nós. Um filho é a maneira mais fácil de construir a eternidade. Por isso, a educação pesa nos relacionamentos familiares, transmitindo valores fundamentais para o alcance do eterno. Quanto mais os filhos seguirem o caminho dos pais, mais evidente será a passagem do testemunho.
A semelhança física entre pais e filhos alimenta a ideia de que a morte não é o fim de coisa nenhuma porque alguém pode continuar a viver por nós, alguém com um rosto semelhante ao nosso, com uns olhos parecidos aos nossos, com um tom de voz idêntico ao nosso, com uma forma de andar igual à nossa.
Quanto mais parecidas forem duas pessoas, mais fácil, mais óbvia, se tornará a passagem de testemunho porque, ainda em vida, salta à vista a continuidade da existência através do outro. A semelhança com o outro, seja pela aparência, seja pela educação, é a forma mais evidente de eternidade.
Imagine-se uma criança a caminho da escola, rasgando as sombras da manhã, aos saltos pela rua, transportando na mão a pasta que a mãe usou quando ia para a escola da sua infância. Passados anos, a pasta lá vai, testemunho de uma vida que continua e se renova, balouçando na mãozinha de dedos irrequietos, uma outra mão que é a mesma, ou que podia ser a mesma, foi a mesma, só com a diferença do tempo a separá-la.
Mas o tempo não conta. Nós, sim, contamos; nós, ser; nós, acção. E nós somos os outros, à margem do tempo. Estamos lá, na matéria alheia de que somos feitos, contribuindo para a ebulição das vidas que fazem o rodopio dos universos.
Se eu for capaz de olhar o outro, de o compreender, de o acompanhar, estarei a contribuir para a eternidade de um todo e, como tal, para a minha própria eternidade. Como parte do todo, não posso deixar de contar no processo.
A possibilidade de cada um ser eterno sozinho representaria a vitória do egoísmo sobre o amor, a vitória da ignorância sobre o saber, a negação do movimento cósmico e da sua lógica. A eternidade individual significaria o sofrimento para sempre. O horror dos horrores. A vida seria insuportável – e a morte desejada a cada momento.
Por isso a eternidade se materializa num percurso colectivo em que uns vão tomando o lugar de outros, numa caminhada cósmica de milhares, milhões de anos, um tempo ao longo do qual a memória se irá esvaindo, transmutando.
Mas a eternidade não termina com o fim da memória. É compreensível que a partir de certa altura eu deixe de ter consciência da eternidade (pelo menos uma consciência organizada), mas nem assim deixarei de estar nela, nem que seja por ter contribuído para o processo com um determinado tempo da minha existência.
A morte é apenas a inteligência natural a funcionar em nós, é o nosso instinto de sobrevivência no seu mais elevado grau de eficácia.
É a morte que justifica a irrequietude da infância, a precipitação da adolescência, o impulso da juventude, a febre da adultez, a realização da maturidade, a lucidez da velhice. A morte impede-me de ser monstro e, ao mesmo tempo, permite-me dar sentido ao outro. É ante a aproximação da morte que compreendo o incompreensível, aceito o inaceitável, tolero o intolerável. A morte é o que falta acontecer e que aos outros, não a nós, compete viver. Por isso, há os que acreditam na reunião das almas e dos entes queridos. Mas não há reunião, não há outra vida. Há outras vidas, que são as daqueles a quem, através da morte, passamos o testemunho da existência.
É na morte que soluciono as contradições que vivi e me deram a possibilidade de resistir ao furor prodigioso dos momentos felizes.
O meu corpo faz parte do movimento de galáxias, estrelas, cometas, planetas, matérias inúmeras e imensas de fogos e poeiras. O meu corpo fez parte, fará sempre parte, de todas as andanças cósmicas. A soma de todos estes percursos constitui a eternidade do universo que, por sua vez, se integra em outro universo, e este ainda em outros universos, por aí fora, dando lugar ao longínquo infinito, ou ao frenesim de milhões de universos derivados de outras e constantes explosões gigantescas, cuja adição sem limites explica a existência de uma eternidade maior, sempre maior, ao ponto de nos perdermos nas contas desse infinito.

 
 
 
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