Prazer em pó

romance


1ª edição: 2003
Editora: Europa-América
Nº de páginas: 131

I

Só depois de ter pago o primeiro mês de renda ao senhorio e de este se ter despedido de forma seca e breve é que me dediquei a ver o novo apartamento com atenção. Se houvesse alguma coisa realmente desagradável com a casa que acabara de alugar eu já não teria hipóteses de recuperar o meu dinheiro. E como não tinha disponibilidade financeira imediata para arrendar outra, teria que viver ali pelo menos durante um mês.

Foi com espírito construtivo, por isso, que me pus a olhar para o que me rodeava. A sala de estar, que também servia de hall de entrada, era ampla, alcatifada de azul e as paredes estavam impecáveis. Depois, havia uma passagem para um quarto de dormir com duas janelas que, por sua vez, ligava a outro só com uma abertura para o exterior. A casa não tinha portas a separar as divisões. À esquerda da sala de estar ficava a cozinha. Já não me recordo onde se situava exactamente a casa de banho, mas, segundo a lógica, só podia ser por baixo da escada comum que conduzia ao andar de cima, mesmo ao lado da pequena cozinha.

Era assim o primeiro apartamento que aluguei. Móveis não havia e eu também não os possuía. No carro que estacionara três andares abaixo, tinha um colchão, dois pares de lençóis, um ou dois cobertores, meia-dúzia de pratos e talheres trazidos de restaurantes, para além da minha roupa pessoal.

Da zona onde alugara o apartamento, não sabia se era boa ou má. Nem me preocupara em apurar. Acabara de chegar à cidade, sem qualquer noção sobre o Norte, o Sul e o resto.

Combinara encontrar-me com o senhorio no local que ele me indicara e chegara lá, às apalpadelas. Nos semáforos, aproveitara para ir perguntando às pessoas que atravessavam as passadeiras onde ficava a rua tal e depois fora-me safando com manobras por entre as centenas de carros que surgiam das transversais como se para me abalroar.

A dada altura, furiosa com uma das minhas demoras em arrancar num semáforo verde, uma mulher taxista atarracada saiu de dentro da sua viatura e veio com gestos ameaçadores na minha direcção. Para mostrar que não a temia, saí também do carro e mandei-a para a outra banda. A taxista não esteve com meias medidas. Ofendida pelas minhas palavras, deu meia volta, entrou no táxi e voltou a sair, armada com uma barra de ferro, desatando a correr para mim com a mão bem erguida ao alto. Não perdi tempo a pensar. Meti-me no carro e acelerei a toda a força sob o buzinão de uma fila de veículos que se tinha formado atrás do táxi. Só segundos depois me dei conta de que a precipitação em escapar à taxista me fizera passar o semáforo vermelho, provocando travagens forçadas numa quantidade de veículos que atravessavam a grande velocidade na minha frente. Nem me atrevi a olhar para trás, a ver se tinha causado algum acidente. Acelerei sempre.

Dois ou três quarteirões adiante tive consciência do que acabara de fazer. Senti um constrangimento no peito, mas continuei. Tinha escapado mais uma vez. Até àquele momento, escapara sempre. Habituara-me a medir o risco das situações, abrindo caminho a qualquer preço. Faltava-me saber o que seria de mim na próxima ocasião em que o perigo se atravessasse à minha frente sem piedade.