A história que passo a contar deu-se numa terra onde as pessoas tinham uma dimensão física singular. Eram grandes, fortes, altas, musculosas, verdadeiros gigantes. Mas quem chegava a essa terra a uma hora em que não se via ninguém nas ruas notava as casas de tamanho vulgar amontoadas umas de encontro às outras. E algumas construções eram tão frágeis que nada fazia prever o tamanho descomunal dos seus habitantes.
Mas era verdade. Imaginem que as linhas de que se forma esta página inicial poderiam ser as simples marcas digitais de um dos dedos desses gigantes. Por aqui se fica com uma ideia.
Os gigantes ocupavam tudo à sua volta, roçando com as cabeças nos tectos, as barrigas enormes espremidas contra os móveis, acotovelando-se, famílias inteiras nos quartos exíguos. Dificilmente algum deles que fosse mais avantajado de gordura atravessava uma porta.
Esse dito povo gigante foi ganhando forma e vulto, à medida que, um por um, família a família, iam todos sendo expulsos de outras localidades, onde não eram aceites, devido à sua superioridade física, ou simplesmente não eram fáceis de integrar, por esta ou aquela razão. Eram temidos pelos vulgares cidadãos e, por isso, foram marginalizados.
Acabaram por ser reunidos numa zona abandonada por falta de segurança nas construções.
A partir dessa altura, escorraçados os monstros como temíveis leprosos, tudo era possível de acontecer, desde o maior amor ao ódio mais sublime e carregado de vingança.
As mulheres passavam os dias acocoradas de tristeza e ressentimento dentro dos lares. Esperavam algo que não vinha, talvez uma paz longínqua, um sonho irrealizável, um silêncio sempre adiado na paisagem cheia de vibrações, rumores distantes, notícias confusas que circulavam sem precisar de jornais ou correio. As gigantas sofriam nas suas poses de encolhimento com xaile pela cabeça.
E assim ficavam as tarefas desarrumadas nas casas, porque um gigante, como se pode calcular, dava sempre muito que fazer em seu redor. Uma simples volta na cama durante a noite podia virar candeeiros, mesas, vasos.
No outro dia é que se notavam os estragos. Além de que as abundantes crianças, com as suas traquinices e brincadeiras, conseguiam resultados devastadores um pouco por toda a casa.
Mas as gigantas não estavam para se ralar com isso e quase adormeciam sobre o caos dos lares.
Quanto aos homens, a maior parte deles passava o dia nas tabernas, bebendo, jogando cartas, dominó ou damas. Se fazia bom tempo, muitos vinham para o lado de fora encostar-se às paredes, em conversas mornas e trovejantes, lentas e longas, como as tardes dos Verões insuportáveis. Passavam horas derreados ao sol, apodrecendo os corpos, a começar pelos dentes. Cheiravam a suor e comida azeda nos estômagos. E para ali estavam naquela terra de coisas por saber, segurando o movimento da luz nos seus rostos sebentos e escuros.
Não foi de ontem, nem é de hoje. A história dos gigantes está sempre nas nossas cabeças, é uma sombra imensa que fica, que teima em habitar a memória do mundo, essa sim, casa grande bastante para albergar os seres de que vos falo.
Os acontecimentos que se seguem tiveram lugar dentro de espaços vulgares com paredes e tectos encardidos, janelas com vidros a flamejar para as ruas inundadas de violência, como em nenhuma outra terra se ouvira ainda contar.
A história começa com dois gigantes que, desde o primeiro dia em que se encontraram, e sem que alguma palavra tivesse sido trocada entre eles, se odiaram para sempre, nada tendo sido possível fazer ante a dimensão de tão estranha e repentina inimizade.
Júlio e Noé olharam-se e pronto! Foi uma aversão definitiva, funda, sem remédio. A partir do momento fatal em que se conheceram, qualquer pormenor podia desencadear a luta mais encarniçada entre ambos. E que ninguém se atrevesse a apartá-los. Porque todos sabiam que Júlio e Noé disputavam entre si o título de o homem mais forte da cidade. Era um ceptro feroz, que não admitia partilhas nem acordos de espécie alguma.
Estes dois gigantes eram mais bravos que os outros, que aceitavam resignados a sina de serem relegados para segundo plano.
Até se chegar aí, porém, fizeram-se muitas lutas, que foram a pouco e pouco seleccionando os mais resistentes. Júlio e Noé saíram sempre vencedores sobre os adversários que tiveram de enfrentar.
Faltava decidir, apenas, o resultado do ódio entre os dois mais fortes da cidade. Pelos olhares furibundos e incendiados que ambos trocavam, temia-se a hora em que um venceria o outro. Era uma questão de disparar contra o alvo certeiro a última flecha endoidecida de veneno. Depois, a cidade repousaria sobre as cinzas do vencido e entregaria o ceptro ao vencedor, que passaria a dominar a vida de todos como um boi capaz de roçar as nuvens com os chifres.
Mas ainda havia muito para ver e ouvir, até que se encontrasse um vencedor para aquele litígio. Ainda circulariam notícias de muitos vidros partidos e lâminas rodopiando nos ares de relâmpagos, com portas desancadas por trovões sobre os carros amolgados, de mesas e cadeiras estilhaçadas em mil pedaços de chumbo invadindo tabernas e lares.
De cada vez que Júlio e Noé se confrontassem seria sempre como se uma dúzia de bombas-relógio estourassem sincronizadas no mesmo milésimo de segundo. A destruição de um deles seria, com toda a evidência, a única saída para aquele ódio, cujos contornos escapavam ao próprio Deus.
Por isso, era necessário deixar que tudo acontecesse, que nada ficasse por resolver, que a disputa chegasse às últimas consequências. Então, era deixá-los esgrimir os punhos cerrados, enormes, como as luvas de boxe vistas num écrã de estádio olímpico, as facas atravessando os medos, os gritos desesperados das gigantas descabeladas às janelas, doidas e feridas de lágrimas cinzentas como chuva a escorrer pelos beirais. Os dois monstros aspergiam a sua maior violência contra as fachadas das casas de uma forma tal que até o Universo parecia correr o risco de desabar quando a luta tivesse o seu desenlace.
Júlio e Noé viviam o dia a dia com o objectivo de se espatifarem mutuamente com murros, pontapés, gumes afiados na goela, de que num último instante um deles conseguia sempre libertar-se, ao atirar o objecto de morte para longe, ante os olhos arregalados dos circunstantes que lhe seguiam a rota, dando àquela fracção de segundo uma imobilidade de séculos.
Ao fim de horas, as gigantas fechavam as janelas e aferrolhavam as portas, prevendo-se que ficavam a vigiar cuidadosamente por detrás das cortinas. Porque o mais certo era o desfecho das brigas entre Júlio e Noé nunca ser claro, podendo o ódio entre ambos ressurgir quando menos se contasse. Mesmo que um deles estivesse caído por terra com o rosto em postas de sangue e o outro se encontrasse colado de exaustão a uma parede ou de cabeça metida na bagageira de um automóvel, qualquer deles era capaz de ressuscitar num ápice e voltar ao ataque perante o gáudio maldisfarçado da massa de gigantes que não arredava pé.
Durante anos, nunca houve descanso na cidade habitada por aqueles dois colossos do ódio. Ao ponto de se ter tornado um hábito fazer apostas a dinheiro, ou a copos, sobre o desfecho das brigas que faziam com que a cidade fosse temida muitos quilómetros em redor.