Romance de uma sereia

1ª edição: 1985
Editora: Europa-América
Nº de páginas: 165

I

Certa manhã, Olíria recusou-se a abrir a porta do quarto na casa onde vivia com os pais. Estava decidida. Não voltaria a abri-la. Dali por diante, a sua vida passaria a acontecer dentro daquelas quatro paredes.

Na primeira manhã, como era de esperar, a mãe de Olíria, surpreendida com a demora da filha, foi ao quarto ver o que se passava.

Olíria ouviu forçarem o trinco da porta. Depois, uma voz:

- Abre! – Era a mãe, apreensiva. – Aconteceu alguma coisa? – insistiu. – Ao menos podes falar…

Dentro do quarto, Olíria continuava estendida sobre a cama, mirando as unhas dos pés.

- Mete-te na tua vida – respondeu Olíria, com secura. Pouco depois, ouviu a mãe afastar-se com passos que pareciam os de um gato surpreendendo a mornaça do soalho.

Olíria voltou a meter-se entre os lençóis, puxou a roupa da cama até ao queixo e prometeu de novo a si mesma que não voltaria a abrir a porta do seu quarto. Diriam que estava louca, mas tanto se lhe dava. Só queria ficar no seu espaço, abrir a janela que dava para as traseiras, olhar as águas revoltas para além das rochas…

A sua casa ficava mesmo sobre o mar, à beira dos rochedos. Não queria saber de ninguém, não queria ouvir nada. O tempo havia de passar. “Que passasse”, pensou Olíria com os lábios apertados sobre a dobra do lençol. “É isso mesmo, que passasse o tempo…”.

Não estaria só na sua aventura. Tinha a companhia de Barba Branca, que havia de olhá-la e ouvi-la. Barba Branca era um retrato. O retrato de um velho com o qual Olíria não tinha problemas. Não constava que alguma vez um retrato tivesse importunado alguém. Um retrato não emitia palavra. Apenas ouvia. E, quem sabe, talvez Barba Branca, com os seus olhos fixos e provocantes, fosse mesmo capaz de apreciar Olíria… Chamavam-lhe Barba Branca, mas o seu verdadeiro nome era Roberto. Morrera há uma série de anos. Diziam ser tio-avô de Olíria. Tinha uma expressão calma no retrato, mas por trás dessa aparente serenidade podia adivinhar-se um vigor felino na alma desfeita. O que não surpreendia, tendo em conta a fama do seu espírito aventureiro.

Barba Branca olhava Olíria de alto a baixo com olhos de vitral meio fechados. A partir de agora, estariam sempre juntos, fechados no quarto. Poderiam falar do que quisessem que ninguém teria acesso aos seus diálogos. Às vezes, Olíria tinha a impressão de que Barba Branca acenava ligeiramente a cabeça no retrato, sinal de que a compreendia melhor que toda a gente.

Não pensem que Olíria tinha grandes razões para justificar a sua decisão de se afastar definitivamente do mundo. Nada disso.

Olíria estava apenas farta e não queria que a aborrecessem. Depois, havia o desejo de uma relação exclusiva com Barba Branca. Ou com alguém que o velho lhe fazia lembrar. Na prática, ia tudo dar ao mesmo.

Pouco lhe interessava o que os amigos iam pensar da sua atitude. Pouco lhe interessava o que iam dizer os conhecidos, a família, os pais. Tinha vinte e quatro anos, era solteira, chamava-se Olíria, encerrara-se de vez no quarto onde sempre tinha vivido e pronto.

Estava bem com Maida e com o pai Jusa. Crescera sem grande incidentes, tivera uma infância normalíssima, rodeada de cuidados, e uma adolescência sem sobressaltos. As suas relações com a família nunca haviam fugido aos padrões tradicionalmente aceites pela sociedade. Estava bem com toda a gente. A esta hora, os amigos ainda nem sonhariam o que tinha firmemente decidido sem dar explicações a ninguém. Esperava que não dramatizassem a sua atitude ao ponto de recorrerem aos serviços da autoridade para a arrancarem do seu quarto. Por mais comentários que viessem a fazer sobre a sua atitude, Olíria não encontrava qualquer estranheza no seu comportamento. Era livre de querer ficar para sempre dentro do seu quarto. Quando saía à rua, só via rostos apáticos; corpos doentes, amarelecidos e sem esperança. Esperança ia criar ela agora que decidira abandonar tudo.

Além do retrato de Barba Branca, do lado esquerdo da sua cama, havia um outro quadro com vários corpos tipo borrões, mirando-se, sem se verem. Era o original de um pintor londrino com quem fingira estar interessada em ir para a cama. E a verdade é que fora mesmo, embora ele não tivesse conseguido tanto quanto esperava. Olíria arrepiara-se ao vê-lo despido. Achou que não tinha graça nenhuma ver um homem naquele estado. E recuara no último minuto. Para desespero do pintor.

A cama de Olíria constava apenas de um colchão sobre um estrado de madeira. O roupeiro era uma abertura na parede encoberta por um cortinado de pano cru. Tinha roupa bastante para vestir nos próximos tempos.

Maida ainda não devia ter percebido as suas reais intenções. Mas acabaria por aceitar a sua decisão. Jusa também faria um esforço e Olíria só desejava que o pai se deixasse ficar dentro dos limites do bom senso.

O mar também não era indiferente à decisão de Olíria. O facto de estar tão próxima dele fazia com que ela se sentisse mais livre do que nunca. Abriria a janela sempre que lhe apetecesse e deixaria o cheiro a sal invadir as paredes do seu corpo. E as do quarto. A sua janela dava para um quintal de curtas dimensões após o qual só havia rochedos, abismo e mar. Ela gostava de ouvir as bulhas dos rapazes nos dias em que vinham espalhar musgo para secar sobre as pedras.

Tentando preparar-se para a solidão que a esperava daí em diante, Olíria pensava na quantidade de situações com que poderia distrair-se: da janela do seu quarto veria o céu. À noite as estrelas. De dia, as nuvens (quando as houvesse). Os barcos passariam no horizonte como bolas de sabão deslizando nos sonhos. Veria gaivotas com os bicos rasando a pele das águas lá ao fundo, pássaros esvoaçando do outro lado da vidraça e pousando no parapeito da sua janela.

No terreno que ficava nas traseiras da sua casa, o pai, Jusa, plantara uma laranjeira. Em criança, Olíria subira muitas vezes àquela árvore acompanhada pelas crianças da vizinhança. Era sempre a primeira a atingir o ramo mais alto. Ah, mas tanto que já acontecera depois disso. O que importava era que, finalmente, conseguira separar-se de um tipo de vida em que não se sentia bem. Olíria tinha horrores à hipocrisia, aos risos desmaiados, às formalidades, aos jantares em restaurantes com toda a gente a falar baixinho. Nessas alturas, só lhe apetecia berrar, partir mesas e cadeiras, espetar garfos nos olhos cínicos que a rodeavam.

Quando estava com os amigos, nem sabia que dizer. Eles falavam sempre do mesmo estilo de coisas. Assuntos de pouco interesse. Ela não acreditava que houvesse alguma coisa para além do amor puro.

Para quebrar a rotina, Olíria estava disposta a recriar os seus dias. As pessoas submetiam-se com a maior facilidade aos mais ridículos e desencorajantes padrões de vida. A última festa a que fora em casa de Thomas significara o corte total entre eles. Thomas nunca entendeu que Olíria só tinha amizade por ele. O facto de ela ter feito várias tentativas de irem para a cama não queria dizer que estivesse à procura de uma relação afectiva normal. Thomas estava sempre a dizer que gostava muito das mãos de Olíria. Não se fartava de dizer que se sentia estranhamente atraído por elas.

Aí vinha Maida, outra vez, com passos cuidadosos, culpados, sobre o soalho.

- Estou à espera – disse a mãe do lado de fora da porta, enquanto forçava o puxador. – Porque te fechaste no quarto? – teimou. – Diz qualquer coisa.

Mas a resposta não veio. Maida estava nervosa. Porque ao afastar-se no corredor já não parecia um gato sacudindo o silêncio das horas sobre a madeira. Agora, podia bem falar-se de uma espécie de aranha, calculando escrupulosamente cada passo que vinha a seguir.