Viviana, o princípio das coisas

romance


1ª edição: 1983
Editora: Vega
Nº de páginas: 156

I

Ela foi até à cama e sacudiu o homem que dormia entre os lençóis enxovalhados:
– Acorda, acorda! – disse a mulher, enganchando-lhe os dedos no pulso.
Ele abriu os olhos e fitou-a mudo, como se ainda sonhasse, acabando por dizer, com a língua entaramelada:
– Que se passa? – perguntou. – Que raio é isto?
– Não sei – respondeu ela. – Não sei nada. Estiveste aí muito tempo sem acordar, mas não sei dizer ao certo por quantos dias. Já não me lembro. Desde que aconteceu aquilo… parece que não voltou a anoitecer. Os dias deixaram de ser normais. Não sei explicar. O ar perdeu a transparência a que estávamos habituados. Tenho saudades da noite, da escuridão, da visão das estrelas, da crista das ondas ao luar. Enquanto estiveste a dormir, perdi a noção das horas e do tempo. Não me perguntes como porque não sei. Não sei nada. Vai à janela e olha.
– Mas o relógio está a funcionar… – argumentou ele.
– Pois está. Mas como podemos saber se a hora que marca corresponde à noite ou ao dia? Estas tardes são quentes e moles…
– Não comeces! Há qualquer coisa de diferente em ti. Não pareces a mesma pessoa. Olha-me, por favor: dá a impressão de que estamos soterrados, apesar de nunca escurecer completamente.
Dirigindo-se a uma das janelas, ele acrescentou que, vista dali, a cidade parecia estar dentro de uma gruta enorme e perguntou, em voz alta, como se falasse para alguém no exterior, em que estado se encontrava o resto do mundo.
– Será que é desta que tudo vai acabar? – continuou, agora em voz quase inaudível para os seus botões. – Sim…, talvez seja mesmo desta que as coisas se vão resolver.
– Lá estás tu a exagerar – replicou ela. – Nem sabemos o que se passa. O sol tem aparecido, embora raramente, e está sempre pálido, muito pálido, quando aparece agora sobre a cidade. Às vezes, ponho-me mesmo a pensar se aquela esfera luminosa não será a Lua, mas logo a seguir percebo que se trata do Sol. Já não sei a quantas ando. Apesar de enfraquecido, aquilo só pode ser o Sol, caso contrário não se justificaria este calor sufocante. Sinto o corpo derreter e o juízo fugindo para outros sítios.
O homem deu uma volta à casa, certificando-se da posição dos objectos, da sua resistência à nova situação que então se vivia. Olhou de novo pela janela: aquilo era uma tempestade, um estado do tempo, sem sombra de dúvida. Mas, estranhamente, havia calma, muita calma, lá por fora. A poeira levantara-se e ficara assim no ar como se fazendo escárnio das casas, ruas e jardins. O dia tinha a cor do cobre, dando a ideia de que o Sol se desintegrara à hora do crepúsculo, misturando as suas partículas com a respiração agitada da Terra. Tudo estava envolvido por uma névoa de ferrugem e chocolate. O calor pairava no quarto como uma massa sólida, ondulante, invisível, derretendo-se à medida que se passava por entre as coisas.
Ardendo, o homem levou as mãos à cabeça, rasgou o pijama, mas nem por isso transpirava. O calor parecia vindo de uma fogueira que seca e suga as reservas de água do corpo mole, deixando em desespero o pensamento. O dia tornara-se uma espécie de sempre crepúsculo, mas sem as cores vivas e berrantes dos verdadeiros crepúsculos.
Todos os objectos na casa mantinham as suas posições iniciais, salvo uns leves desvios, tombos, sobressaltos, que o homem corrigiu. Depois, abriu a porta de um dos quartos – gostava de lhe chamar o quarto das sombras – e viu lá dentro as coisas deformadas, reflexos móveis, entontecidos, ligeiramente ondulantes, mas fixos, porque, afinal, nunca mudavam de sítio. Há anos que aquela porta não se abria. Olhando-a, agora, ele não conseguia evitar uma singular e profunda sensação de vómito. Sentia a garganta apertada e pancadas secas desabando-lhe no cérebro, como o martelo agredindo umas solas na oficina da memória.

…Do princípio de tudo, ele recordava-se de um grande clarão, fazendo lembrar o disparo de uma câmara gigantesca, que fulminara a cidade, as casas, o pensamento. Um clarão silencioso, que abalara paredes, telhados, consciências, objectos que repentinamente mexiam como se tivessem vida própria. Ele perdera a noção das coisas. Agora, dava voltas ao miolo procurando entender o que se passara.
Não sabia quanto tempo havia decorrido. Mas decorrera tempo, com certeza, porque a mulher lhe dissera que ele se deixara dormir, interminavelmente, como uma onda imóvel, entre os lençóis.