Contos

Contos de I a VII
Título: Sem coração
1ª edição: 1997
Editora: Europa-América
Nº de páginas: 151
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Conto VIII
Título: A pedra sensível
1ª edição: 2000
Revista Atlântida,
Editora: IAC
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Conto IX
Título: História de uma janela
1ª edição: 2004
Até ao Oriente & outros
contos para Wenceslau
de Moraes
Editora: D. Quixote.
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Conto X
Título: Papel quente amarrotado
1ª edição: 2008
Revista Neo
Editora: Univ. Açores

I

Ester tinha um cheiro insuportável. Era uma mu­lher bonita, in­te­ligente, meiga. Pos­suía todas as qualidades que se desejam nu­ma pessoa, mas tinha o de­feito de cheirar a pro­­­du­tos farma­cêuticos ou a uma qualquer en­fer­maria de hospital.

Não se tratava de uma questão de higiene. Nada disso. Ester era espe­ci­al­mente limpa e nem sequer trabalhava em qualquer farmácia ou hospital. Simplesmente, aquele era o seu cheiro e pron­to! Não ha­via nada a fazer.

Ost amava-a, mas não con­seguia superar a repulsa física que sentia por ela. Deitava-se com aquele odor a seu lado. Ador­mecia. Acor­dava a meio da noite e a situação mantinha-se. Era um cheiro intenso que lhe fazia com­pa­nhia pelas horas den­tro. Fi­cava sem­pre com aquele fedor na cama, nos móveis, nos quartos, em toda a parte. Levan­tava-se, ia à cozinha, aos lavabos, à sa­la de estar e na­da se alte­rava.

Como Ost era especialmente avesso a doenças, hospitais, me­dicamentos, fazia um enorme sacrifício em partilhar com ela os principais mo­mentos da sua vida.

Sempre que ele se aproximava de Ester, havia uma força que o empurrava para trás e que o impedia de consumar qualquer gesto no corpo dela.

Durante o dia, Ost procurava esquecer, pensar noutras coisas, dis­trair-se com isto e com aquilo. Mas raramente conseguia li­ber­tar-se do cheiro de Ester, apesar de reconhecer que, no fundo, ela ti­nha uma forma de ser extremamente atenta e de­licada, o que au­­­­mentava ainda mais a contradição em que vivia.

Com o tempo, a situação tornou-se cada vez mais intolerável para Ost. Era incapaz de se habituar ao cheiro de Ester.

Contudo, não encontrava coragem para falar com ela sobre o assunto, dizendo-lhe quanta repugnância sentia nas alturas em que estavam juntos. E Ester, por seu lado, parecia não se aperceber do problema.

Ia ter com ele sempre feliz e cheia de projectos. Fazia-lhe per­gun­tas sobre a sua vida, sobre como decorrera o dia, sobre como se sentia, sobre o que pretendia fazer e, depois, falava dela, das su­as tarefas, dos seus planos, dos seus momentos de cada dia com uma graciosidade incomparável que deixava Ost com­ple­­ta­mente vergado ao peso das suas próprias repulsas.

A partir de certa altura, já quase o aterrorizava pen­sar que te­ria que estar com ela. Então, perguntava a si mesmo por que mo­tivo havia de continuar uma tal relação, ainda por cima sa­ben­do que nunca conseguiria, um dia, deitar-se com Ester na mes­ma ca­ma. Mas não encontrava resposta para a sua dúvida fun­da­men­tal.

Só conseguia perceber que gostava muito de Ester e que a con­­si­­deraria, até, a mulher ideal, caso não houvesse aquele pro­blema do cheiro que inundava o seu corpo e tudo em redor.

Ost não sentia à vontade para falar com quer que fosse acer­ca do assunto. Tinha a certeza de que os amigos não o com­pre­en­deriam, ou que não dariam importância à sua preocupação. Se ca­lhar, algum até o aconselharia a consultar um psiqui­atra, pon­do a hi­­pótese de tudo não passar de imaginação da sua parte.

Sentia-se como quem estava fechado num quarto sem janelas para respirar. Depois de Ester sair de sua casa, passava o tempo em limpezas: desinfectava os móveis, esfregava a loiça várias ve­zes consecutivas, punha a roupa a lavar na máquina durante o do­bro do tem­po, tomava duche, sacudia os objectos como se estes pudessem estar impregnados de um ví­rus contagioso e, ao fim de horas, sentava-se a pensar no que ha­via de fazer, sem chegar a qualquer conclusão.

Os olhos azuis perspicazes e vivos de Ester acabavam por so­brepor-se a todas as soluções que procurava construir para se li­bertar daquele medonho cheiro. Procurava descobrir-lhe outros de­fei­tos, mas não os encontrava. Aventureira, fiel e bem formada, Ester tornara-se praticamente indestronável no seu coração.

Quando estavam juntos, falavam de música, de literatura, de ar­­tes em geral, de po­lítica, de filosofia, de pedagogia, de um nunca mais acabar de uni­versos que podiam muito bem tornar o futuro de ambos promissor e estimulante.

As famílias aprovavam a relação, considerando que Ost fize­ra uma excelente escolha. E ele não tinha outro remédio senão con­cordar com os argumentos que lhe apresentavam. Toda a gen­te gostava de Ester. Diziam dela o melhor, realçando a sua serieda­de, a sua beleza física, a sua simpatia, a sua capacidade de aten­ção, a sua inteligência, a sua disponibilidade.

Depois, o círculo de amigos dela era verdadeiramente invulgar: pessoas sensatas, trabalhadoras, estudiosas, cumpridoras, since­ras, empe­nha­das em cau­sas sociais e intelectuais.

No meio de tanta virtude, Ost até já duvidava do seu olfacto! Provavelmente, o defeito era dele. Provavelmente, encontrara aque­la desculpa para acabar a relação com Ester, por não ter co­ra­gem de assumir qualquer outro motivo que estaria oculto no seu inconsciente e que, no fundo, provocaria aquela desalmada re­pul­sa por ela. Provavelmente, não acreditava que fosse possível uma mulher ser tão perfeita. E, então, desconfiava, duvidava, sus­pei­ta­va intima­mente…

Nessas alturas, punha-se a andar pela casa à procura de uma outra ori­gem para o maldito cheiro a enfermaria de hos­pital: revi­rava papeis, espiolhava talheres, desfazia a cama, es­preitava para dentro dos armários, investigava os produtos da ca­sa de ba­nho, mas não encontrava nada.

E o pior é que mesmo não estando Ester presente, o treslou­ca­do odor se mantinha em todos os quartos com uma intensidade in­justificável.

Um dia, Ost decidiu mesmo partir por uns tempos, a ver se no regresso a situação estaria resolvida. Tomou avião para os Aço­res e ficou por lá um fim de semana inteiro, sem dizer ai nem ui a quem quer que fosse.

Imaginou que o telefone não pararia de to­car em sua casa, com Ester tentando saber do seu paradeiro, mas decidiu que de­pois inventaria uma desculpa qualquer. Ela não era desconfiada, por is­­­so não haveria problema. E, se houvesse, tanto melhor, fi­ca­ria a questão do seu namoro resolvida de uma vez por todas!

Ost hos­pe­dou-se em Angra do Heroísmo. Passeou pelas ruas, entrou em lugares, cheirou as manhãs da cidade, encontrou-se com dois ve­lhos amigos, conheceu pessoas novas, viveu despre­ocupado. E ti­rou todas as dúvidas que pudessem existir acerca do odor de Ester: o problema era mesmo dela!

Regressou a casa decidido a resolver a questão de uma vez por todas. Telefonar-lhe-ia e diria que precisava de ter uma con­ver­­­­sa muito franca com ela. Abrir-lhe-ia o seu coração, contar-lhe-ia o seu sofrimento, descrever-lhe-ia a mágoa que o torturava e Ester, decerto, seria compreensiva com ele, aceitando as suas ex­­­­plicações.

Marcaram encontro num café e Ester compareceu pontualís­si­ma. Vinha sorridente, leve, arejada. Sentou-se à mesa diante de Ost e quis saber por onde andara ele. Depois de saber que es­ti­ve­ra nos Açores, abriu os olhos de espanto e comentou sem uma ponta de ressentimento:

- Mas que bom, Ost. Tiveste uma óptima ideia! Divertiste-te muito?

Perante um tal entusiasmo, é evidente que ele ficou logo ato­la­do em dúvidas sobre o que diria a seguir. Ester era, de facto, um ca­­­­­so à parte. Nunca o condenava, nunca o reprimia, nunca o im­pedia de fazer o que quer que fosse – nunca discordava dele, se­quer.

Acabar com uma relação daquelas só por causa de um cheiro, ainda que horrível, era quase um crime. Ost decidiu, por isso, re­pensar a sua posição. E, para não magoar Ester, contou-lhe o que fi­zera nos Açores, o que vira, o que descansara.

E ela só acrescentou:

- Não te esqueças que, para a próxima, também quero ir!

Como não tinha coragem de lhe dizer de frente o que sentia, Ost optou por ir mudando, suavemente, o seu convívio com Ester. Passou a telefonar-lhe menos vezes e, quando se encontrava com ela, acabava por apresentar uma desculpa de ter que ir a um sítio qualquer.

Ester, no entanto, nem por isso parecia acusar a diferença da sua postura. Aceitava sempre da melhor forma o que ele dizia, in­dependentemente de as situações lhe serem mais ou menos fa­vo­ráveis.

Quando se encontravam juntos, Ost chegou mesmo a te­lefonar para umas amigas, a ver se Ester dizia alguma coisa, a ver se de­notava perturbação, a ver se mani­fes­ta­va ponta de ciú­me. Mas nun­ca! A mulher era absolutamente su­perior a tudo o que Ost pu­desse fazer.

Intrigado com o que se passava, ele entendeu dar mais aten­ção a Ester. Seria que ela funcionava normalmente? Seria que al­gu­ma coisa na infância a havia traumatizado de forma que, uma vez ultrapassado o problema, não havia nada que a pu­desse dese­quilibrar minimamente? Seria que Ester vivia neste mundo? Não ti­nha olhos para ver que ele estava farto do seu cheiro até à mais re­côndita ima­ginação e que só não lho comunicava porque sim­ples­mente não tinha coragem para isso?

Um dia, Ester contou-lhe que só tivera um namorado na vida. Ost quis logo saber pormenores, tendo em vista o esclarecimento do drama interior que vivia.

Então, ela disse-lhe que o indivíduo era um brutamontes, que não lhe dava um minuto para respirar, que todos os dias a tentava violentar, que ia esperá-la à porta do emprego para que outros ho­mens não olhassem para ela, que não a compreendia de forma al­guma, que ridicularizava os seus desejos mais sinceros, que a agredia verbalmente sem motivos, um sem número de mi­sérias e tristezas.

Ost ficou boquiaberto a olhá-la, tendo dificuldades em perce­ber como tinha sido possível Ester conviver com seme­lhante ener­gúmeno.

Ela comentou, entretanto, que a vida tinha os seus aspectos misteriosos e que, por isso, nem tudo era fácil de explicar.

- Imagina que ninguém na minha família concordava com o na­­moro – sublinhou – e mesmo assim mantive-o durante dois anos!

Ester tentou mudar o estafermo do antigo namorado, mas não conseguiu. Por isso, um dia, mandou-o passear. Contudo, nem as­sim se viu livre dele. O ho­mem perseguia-a, ameaçava-a, conti­nu­ava a ir esperá-la à por­ta do emprego, implorava a sua atenção e chegara mesmo a ajoe­lhar-se-lhe na rua aos pés, chorando e pe­dindo perdão pelo seu compor­ta­mento.

Ela ainda voltou a fazer mais uma tentativa de relação, mas, ao fim de uma semana, o fulano já se esquecera de todas as pro­mes­sas que fizera. Por isso, ela arrumou o caso de uma vez por todas. E ele aca­bou por aceitar o fim do namoro, reconhecendo que não me­recia viver com uma pessoa tão impecável como Es­ter.

Em toda a história, não houvera uma única referência ao chei­ro de Ester, o que deixava Ost cada vez mais só com o problema.

- Assim, vim cair nos teus braços – acrescentou ela para Ost, apa­nhando-o desprevenido.

E, em resposta, ele apenas gaguejou qualquer coisa, sem saber o que dizer, mas reflec­tindo profundamente no que aca­bara de ou­vir.

Dias mais tarde, teve a ideia que há tanto tempo procurava: passaria a sair com outras mulheres, com o objectivo de es­quecer Ester. A alternativa não lhe agradava por aí além, mas ante o blo­queio que sentia, chegou à conclusão que não havia outra hi­pó­te­se. Aquela era a única solução.

A primeira tentativa que fez não foi propriamente animadora. Estava numa paragem de autocarro e reparou que uma mulher não tirava os olhos dele. Pensou em abordá-la, mas não foi capaz de decidir que palavras lhe dirigiria. Se calhar, até se tratava de um equívoco. Ela devia estar a confundi-lo com outro indivíduo. As­sim, se ele lhe dissesse alguma coisa, seria com certeza mal in­ter­pre­tado. A mulher podia reagir agressivamente e humilhá-lo di­an­te das outras pessoas que se encontravam na paragem. Ainda pensou em arranjar um pretexto qualquer, mas depressa concluiu que a situação soaria a falso e não estava disposto a correr quais­quer riscos.

O melhor era aguardar pela altura certa. Não tinha necessi­dade de abordar mulheres na rua, por pior que fosse a sua vida afectiva.

No emprego, convidou uma colega para jantar. A resposta foi negativa, mas ela apresentou-lhe uma prima nesse mesmo dia, tendo ficado combinado que iriam ao cinema no fim de semana a seguir.

A primeira coisa que Ost fez quando se encontrou com a pri­ma da colega foi aproximar-se dela para verificar o seu cheiro. Só que a mulher reajiu com estranheza e perguntou se ele não estava a ir longe de mais!

- Não é por nada – explicou ele – mas é que ando com umas dú­vi­das que gostava de esclarecer…

- Olha que não sirvo para essas coisas – foi o comentário pron­to e ríspido que ouviu.

Entraram para o cinema e Ost não conseguiu dizer mais nada. A reacção pouco amigável da prima da colega deixara-o inibido e revoltado consigo mesmo.

“Não tinha nada que me pôr a cheirar a mulher…”, reflectiu in­teriormente. “Já estraguei o serão”.

Durante o filme, ele só pensava em como reparar a sua dese­legância. Não se atrevia a aproximar-se dela para além do braço da cadeira e, conforme via pelo canto do olho, a mulher mantinha-se hirta, sem mexer um dedo, ou um músculo da face sequer.

“Já não tenho quaisquer hipóteses”, pensou Ost. “Tudo o que possa fazer agora só irá piorar a situação”.

No fim da sessão, ele ofereceu-se para ir levá-la a casa, mas ela respondeu que não era preciso, pois sabia muito bem o cami­nho.

Ost sentiu-se tão mal que até desejou que Ester estivesse ali na­­­­quele momento só para se lançar nos braços dela e pedir-lhe perdão por aquela tentativa frustrada de traição.

Entrou em casa a correr e deitou-se na cama, tentando recom­por-se do momento desagradável que vivera. O pior seria o que a pri­ma iria contar à colega, se calhar ainda naquela mesma noite, acusando-o de actos que nunca lhe haviam passado pela cabeça.

Depois, toda a gente comentaria no emprego o seu com­por­ta­mento, pensando dele coisas absolutamente nefastas.

Ost não pregava olho. Sentia-se angustiado com o rumo que a sua vida estava a tomar. Mas nem por isso havia de desistir de encontrar uma solução pa­ra o seu caso. E então recordou-se que aquela não era a pri­mei­­ra vez que tinha problemas com o cheiro de uma mulher.

Quando ainda era adolescente, apaixonou-se pela sobrinha de uma amiga da mãe. A partir dessa altura, passava o tempo todo atrás dela, pedindo-lhe namoro e escrevendo-lhe poemas com ri­mas que copiava de um caderno secreto do irmão mais velho.

Um dia, quando teve oportunidade de estar a sós com ela, ten­tou beijá-la de surpresa. Mas, ao levantar o braço para se defen­der, a rapariga deixou que um cheiro nauseabundo a sovaco en­tras­se pelas narinas de Ost. E, nesse preciso instante, toda a po­esia que lhe havia escrito mor­reu na sua alma como uma pom­ba de coração atravessado por um míssil terra ar.

Ost nunca mais voltou a estar com a rapariga. Quando a via na rua, cumprimentava-a de longe, semi-envergonhado, e conti­nu­ava o seu caminho, não fosse ela abraçá-lo, de repente, e ele ter que suportar mais uma vez o odor repelente do seu sovaco.

“Será por causa desta experiência que, agora, tenho horrores ao cheiro de Ester?”, perguntou a si mesmo, enquanto dava uma volta na cama e logo outra a seguir, para verificar se o desper­ta­dor estava marcado para a hora certa.

Alguma coisa havia de ter acontecido na sua vida que o levava a reagir tão mal ao corpo da mulher com quem andava.

Já nem sabia como havia de estar com Ester. Quando voltasse a encontrar-se com ela, perguntava a si mesmo o que diria, depois de lhe ter tentado ser infiel por duas vezes. Era natural que ela, fi­nal­men­­­te, notasse alguma diferença nele.

Ost há muito que desejava que assim acontecesse, de facto, mas depois do que sucedera no cinema com a prima da colega, já não tinha a certeza sobre o que fazer com os seus sentimentos.

Na segunda-feira seguinte, reparou que não pa­ravam de olhá-lo de sos­laio no emprego. E, assim, confirmou que a prima da co­lega de­via ter dito o pior acerca dele. Tentou abordá-la vá­rias ve­zes para lhe explicar o que acontecera no fim de se­mana, mas ela esquivou-se sem­pre ao longo de todo o dia. Pa­re­cia recear ser as­saltada ali mesmo por um maníaco sem escrú­pu­los.

Quando se encontrou com Ester naquela tarde, notou que ela estava completamente diferente: mais expansiva do que nunca, ti­nha cortado o cabelo à escovinha, trazia uma blusa extre­ma­mente decotada e uma saia vários palmos acima do joelho. Dava a ideia de ser outra pessoa! Ost não resistiu a comentar o que os seus olhos viam…

- Talvez assim te interesses mais por mim – disse ela.

Mas ele apressou-se a explicar que ela não necessitava de re­correr a tais excessos para cativar a sua atenção. – Sabes que sempre me interessei por ti – acrescentou.

- Às vezes, não parece – replicou ela.

E Ost não foi capaz de dizer mais nada. Não era um repen­tista, por isso, geralmente, quando o provocavam, ficava a remoer as palavras, sendo muito provável só encontrar a resposta satis­fatória horas mais tarde, ou até no dia seguinte

Ester sugeriu que fossem para casa dele. De início, Ost ainda he­sitou, receando ver o seu espaço de novo completamente em­pestado pelo cheiro de hos­pi­tal que ela transportava aos om­bros como um Cristo a caminho do Calvário, mas, pensando duas ve­zes, acabou por aceitar a ideia, a ver se as mudanças operadas por Ester no seu aspecto físico teriam contribuído alguma coisa pa­ra atenuar o odor que tanto o perturbava.

Chegados a casa, sentaram-se no sofá e Ester não demorou a encostar-se a ele, enchendo-o de carinhos e de atenções. Só lhe fal­tava sugerir que fossem para a cama!

Mas Ost reparou que, afinal, o cheiro de Ester continuava co­la­­do ao seu corpo como sempre. Nada se alterara nela, apesar da no­va aparência. Por isso, não conseguia suportar a ideia da mí­nima intimidade física naquele momento. Nem sequer mais tarde.

Pensou, então, em meter uns algodões no nariz, a ver se ul­tra­pas­sava a situação inquietante em que se encontrava. É que, na­tu­ralmente, Ester ainda podia pensar que havia qualquer problema com ele… E já lhe bastava a ideia com que haviam ficado a seu res­­peito no emprego, por causa do que acontecera com a prima da tal co­lega. Agora, Ost corria o risco de ver a sua reputação afectada, precisamente pelas razões opostas!

Num rasgo de impaciência, dirigiu-se à casa de banho e enfiou mesmo dois pedaços de algodão nas narinas. “Sempre tenho a bo­ca para respirar…”, pensou sozinho.

Logo a seguir, voltou para junto de Ester e esperou que ela to­masse a inciativa, uma vez que se encontrava tão sedenta de con­tacto físico.

Só que ela fixou-o atentamente, arregalou os olhos e per­gun­tou-lhe se tinha alguma coisa.

Ost respondeu que não, mas o seu falar nasalado denunciou imediatmente o que se passava. Ester pôs-lhe as mãos no nariz e quis saber o que faziam ali os algodões.

Embaraçado, Ost esclareceu que às vezes sangrava do nariz, por isso tinha recorrido àquela solução preventiva.

- Oh Ost, tens que tomar cuidado contigo – disse ela. – Não que­ro que te aconteça mal nenhum. Vais deitar-te a descansar e vou fazer-te um chá imediatamente…

Ester conduziu-o até à cama e, depois, dirigiu-se para a cozi­nha, enquanto dizia:

- Descontrai que já vou ter contigo…

Ost ficou estirado sobre os lençois a pensar na sua sorte. A vida não lhe reservava saída. Respirava pela boca como um cro­codilo a fa­zer poemas às nuvens. Os algodões no nariz faziam-lhe uma im­pres­são horrível, mas, agora, não podia tirá-los, ou Ester te­ria um no­vo acesso de paixão física incontrolável. Daquela for­ma, ao menos, não sentia chei­ro de coisa alguma, nem de hos­pital, nem de produtos far­ma­cêuticos, nem de coisa alguma que se lhe parecesse. Mais va­lia morrer, assim, sem qualquer perspectiva di­ante dos olhos. Não seria necessário ingerir medicamentos ou pe­dir a Ester que deixas­se abertas as torneiras de gás do fogão. Os seus dias esta­vam perto do fim. Ao menos, era o que desejava. Não lhe apetecia ex­pe­rimentar mais nada. Depois dos odores de Ester, nenhum outro corpo se justificaria. Muito menos o dele.

Iam longe os tempos em que os seus pés cor­riam sobre a relva dos jardins, despertando os cheiros silvestres das flores em redor da paisagem. E tudo era livre, tudo era puro, tudo era saudável.

Ele via as coisas, as pessoas, os montes, as ruas e imaginava que a vida não tinha segredos, nem complicações.

Por isso, debruçava-se, às vezes, na janela do seu quarto, pela noite dentro, esquecido das horas, a contemplar a escuridão que vagueava sob o luar.

O mundo cheirava a terra molhada, sementes invisiveis, brilhos de astros no firmamento, espumas de mares que vinham de lon­ge rebentar junto às rochas sobre as quais assentava a casa do seu so­nho maior.

Mas tudo desaparecera ao longo dos anos. E até a beleza de Ester estava contaminada por um odor nauseabundo que o ani­qui­la­va da cabeça aos pés.

Como se continuando os seus pensamentos, como se para o fa­zer enfrentar a realidade de uma forma ainda mais contundente, ela voltou para junto dele, com o chá quente que lhe prometera.

E Ost teve que bebê-lo até à última go­ta sem pestanejar.

Sen­tia-se abatido. Não sabia se por causa dos algodões no nariz, ou se pelo facto de ter que simular semelhantes situa­ções só para se ver livre do corpo da mulher que tinha a seu lado.

Ester comentou o seu aspecto e disse:

- Se calhar, fiz mal em vir vestida desta maneira…

Depois, foi apagar a luz e deixou-se fi­car sentada na beira da cama, pondo-se a olhá-lo sem dizer mais nada.

Ost fechou os olhos por uns momentos e sentiu como se os anos passassem a uma grande velocidade, perma­ne­cen­do ele imó­vel, para sempre, ali, com Ester sentada a seu lado sim­ples­mente a olhar…

Via-a enrugada, abatida sob o peso da idade, quase não po­dendo mexer-se, e ele esquelético, com os ossos à flor da pele, emudecido, enquanto recordava os acontecimentos principais da vida que deixara para trás.

O sono pesava-lhe sobre as pálpebras. Mantinha a boca aber­ta para respirar. Estava com os lábios ressequidos. Humedeceu-os com a língua.

Já não sabia se Ester era nova ou velha, se estava de saia cur­ta ou comprida, se con­tinuava a seu lado ou se teria partido. Mas não quis abrir os olhos para verificar.

Fez um esfor­ço para se lembrar dos seus dedos das mãos. Já não se lembrava se eram finos ou grossos, grandes ou pe­quenos.

Os de­dos dele e os dedos dela desapareciam no escuro. E sur­giam mais à frente, nos anos, transfor­mados em algas, evapo­ran­do-se…