Ester tinha um cheiro insuportável. Era uma mulher bonita, inteligente, meiga. Possuía todas as qualidades que se desejam numa pessoa, mas tinha o defeito de cheirar a produtos farmacêuticos ou a uma qualquer enfermaria de hospital.
Não se tratava de uma questão de higiene. Nada disso. Ester era especialmente limpa e nem sequer trabalhava em qualquer farmácia ou hospital. Simplesmente, aquele era o seu cheiro e pronto! Não havia nada a fazer.
Ost amava-a, mas não conseguia superar a repulsa física que sentia por ela. Deitava-se com aquele odor a seu lado. Adormecia. Acordava a meio da noite e a situação mantinha-se. Era um cheiro intenso que lhe fazia companhia pelas horas dentro. Ficava sempre com aquele fedor na cama, nos móveis, nos quartos, em toda a parte. Levantava-se, ia à cozinha, aos lavabos, à sala de estar e nada se alterava.
Como Ost era especialmente avesso a doenças, hospitais, medicamentos, fazia um enorme sacrifício em partilhar com ela os principais momentos da sua vida.
Sempre que ele se aproximava de Ester, havia uma força que o empurrava para trás e que o impedia de consumar qualquer gesto no corpo dela.
Durante o dia, Ost procurava esquecer, pensar noutras coisas, distrair-se com isto e com aquilo. Mas raramente conseguia libertar-se do cheiro de Ester, apesar de reconhecer que, no fundo, ela tinha uma forma de ser extremamente atenta e delicada, o que aumentava ainda mais a contradição em que vivia.
Com o tempo, a situação tornou-se cada vez mais intolerável para Ost. Era incapaz de se habituar ao cheiro de Ester.
Contudo, não encontrava coragem para falar com ela sobre o assunto, dizendo-lhe quanta repugnância sentia nas alturas em que estavam juntos. E Ester, por seu lado, parecia não se aperceber do problema.
Ia ter com ele sempre feliz e cheia de projectos. Fazia-lhe perguntas sobre a sua vida, sobre como decorrera o dia, sobre como se sentia, sobre o que pretendia fazer e, depois, falava dela, das suas tarefas, dos seus planos, dos seus momentos de cada dia com uma graciosidade incomparável que deixava Ost completamente vergado ao peso das suas próprias repulsas.
A partir de certa altura, já quase o aterrorizava pensar que teria que estar com ela. Então, perguntava a si mesmo por que motivo havia de continuar uma tal relação, ainda por cima sabendo que nunca conseguiria, um dia, deitar-se com Ester na mesma cama. Mas não encontrava resposta para a sua dúvida fundamental.
Só conseguia perceber que gostava muito de Ester e que a consideraria, até, a mulher ideal, caso não houvesse aquele problema do cheiro que inundava o seu corpo e tudo em redor.
Ost não sentia à vontade para falar com quer que fosse acerca do assunto. Tinha a certeza de que os amigos não o compreenderiam, ou que não dariam importância à sua preocupação. Se calhar, algum até o aconselharia a consultar um psiquiatra, pondo a hipótese de tudo não passar de imaginação da sua parte.
Sentia-se como quem estava fechado num quarto sem janelas para respirar. Depois de Ester sair de sua casa, passava o tempo em limpezas: desinfectava os móveis, esfregava a loiça várias vezes consecutivas, punha a roupa a lavar na máquina durante o dobro do tempo, tomava duche, sacudia os objectos como se estes pudessem estar impregnados de um vírus contagioso e, ao fim de horas, sentava-se a pensar no que havia de fazer, sem chegar a qualquer conclusão.
Os olhos azuis perspicazes e vivos de Ester acabavam por sobrepor-se a todas as soluções que procurava construir para se libertar daquele medonho cheiro. Procurava descobrir-lhe outros defeitos, mas não os encontrava. Aventureira, fiel e bem formada, Ester tornara-se praticamente indestronável no seu coração.
Quando estavam juntos, falavam de música, de literatura, de artes em geral, de política, de filosofia, de pedagogia, de um nunca mais acabar de universos que podiam muito bem tornar o futuro de ambos promissor e estimulante.
As famílias aprovavam a relação, considerando que Ost fizera uma excelente escolha. E ele não tinha outro remédio senão concordar com os argumentos que lhe apresentavam. Toda a gente gostava de Ester. Diziam dela o melhor, realçando a sua seriedade, a sua beleza física, a sua simpatia, a sua capacidade de atenção, a sua inteligência, a sua disponibilidade.
Depois, o círculo de amigos dela era verdadeiramente invulgar: pessoas sensatas, trabalhadoras, estudiosas, cumpridoras, sinceras, empenhadas em causas sociais e intelectuais.
No meio de tanta virtude, Ost até já duvidava do seu olfacto! Provavelmente, o defeito era dele. Provavelmente, encontrara aquela desculpa para acabar a relação com Ester, por não ter coragem de assumir qualquer outro motivo que estaria oculto no seu inconsciente e que, no fundo, provocaria aquela desalmada repulsa por ela. Provavelmente, não acreditava que fosse possível uma mulher ser tão perfeita. E, então, desconfiava, duvidava, suspeitava intimamente…
Nessas alturas, punha-se a andar pela casa à procura de uma outra origem para o maldito cheiro a enfermaria de hospital: revirava papeis, espiolhava talheres, desfazia a cama, espreitava para dentro dos armários, investigava os produtos da casa de banho, mas não encontrava nada.
E o pior é que mesmo não estando Ester presente, o tresloucado odor se mantinha em todos os quartos com uma intensidade injustificável.
Um dia, Ost decidiu mesmo partir por uns tempos, a ver se no regresso a situação estaria resolvida. Tomou avião para os Açores e ficou por lá um fim de semana inteiro, sem dizer ai nem ui a quem quer que fosse.
Imaginou que o telefone não pararia de tocar em sua casa, com Ester tentando saber do seu paradeiro, mas decidiu que depois inventaria uma desculpa qualquer. Ela não era desconfiada, por isso não haveria problema. E, se houvesse, tanto melhor, ficaria a questão do seu namoro resolvida de uma vez por todas!
Ost hospedou-se em Angra do Heroísmo. Passeou pelas ruas, entrou em lugares, cheirou as manhãs da cidade, encontrou-se com dois velhos amigos, conheceu pessoas novas, viveu despreocupado. E tirou todas as dúvidas que pudessem existir acerca do odor de Ester: o problema era mesmo dela!
Regressou a casa decidido a resolver a questão de uma vez por todas. Telefonar-lhe-ia e diria que precisava de ter uma conversa muito franca com ela. Abrir-lhe-ia o seu coração, contar-lhe-ia o seu sofrimento, descrever-lhe-ia a mágoa que o torturava e Ester, decerto, seria compreensiva com ele, aceitando as suas explicações.
Marcaram encontro num café e Ester compareceu pontualíssima. Vinha sorridente, leve, arejada. Sentou-se à mesa diante de Ost e quis saber por onde andara ele. Depois de saber que estivera nos Açores, abriu os olhos de espanto e comentou sem uma ponta de ressentimento:
- Mas que bom, Ost. Tiveste uma óptima ideia! Divertiste-te muito?
Perante um tal entusiasmo, é evidente que ele ficou logo atolado em dúvidas sobre o que diria a seguir. Ester era, de facto, um caso à parte. Nunca o condenava, nunca o reprimia, nunca o impedia de fazer o que quer que fosse – nunca discordava dele, sequer.
Acabar com uma relação daquelas só por causa de um cheiro, ainda que horrível, era quase um crime. Ost decidiu, por isso, repensar a sua posição. E, para não magoar Ester, contou-lhe o que fizera nos Açores, o que vira, o que descansara.
E ela só acrescentou:
- Não te esqueças que, para a próxima, também quero ir!
Como não tinha coragem de lhe dizer de frente o que sentia, Ost optou por ir mudando, suavemente, o seu convívio com Ester. Passou a telefonar-lhe menos vezes e, quando se encontrava com ela, acabava por apresentar uma desculpa de ter que ir a um sítio qualquer.
Ester, no entanto, nem por isso parecia acusar a diferença da sua postura. Aceitava sempre da melhor forma o que ele dizia, independentemente de as situações lhe serem mais ou menos favoráveis.
Quando se encontravam juntos, Ost chegou mesmo a telefonar para umas amigas, a ver se Ester dizia alguma coisa, a ver se denotava perturbação, a ver se manifestava ponta de ciúme. Mas nunca! A mulher era absolutamente superior a tudo o que Ost pudesse fazer.
Intrigado com o que se passava, ele entendeu dar mais atenção a Ester. Seria que ela funcionava normalmente? Seria que alguma coisa na infância a havia traumatizado de forma que, uma vez ultrapassado o problema, não havia nada que a pudesse desequilibrar minimamente? Seria que Ester vivia neste mundo? Não tinha olhos para ver que ele estava farto do seu cheiro até à mais recôndita imaginação e que só não lho comunicava porque simplesmente não tinha coragem para isso?
Um dia, Ester contou-lhe que só tivera um namorado na vida. Ost quis logo saber pormenores, tendo em vista o esclarecimento do drama interior que vivia.
Então, ela disse-lhe que o indivíduo era um brutamontes, que não lhe dava um minuto para respirar, que todos os dias a tentava violentar, que ia esperá-la à porta do emprego para que outros homens não olhassem para ela, que não a compreendia de forma alguma, que ridicularizava os seus desejos mais sinceros, que a agredia verbalmente sem motivos, um sem número de misérias e tristezas.
Ost ficou boquiaberto a olhá-la, tendo dificuldades em perceber como tinha sido possível Ester conviver com semelhante energúmeno.
Ela comentou, entretanto, que a vida tinha os seus aspectos misteriosos e que, por isso, nem tudo era fácil de explicar.
- Imagina que ninguém na minha família concordava com o namoro – sublinhou – e mesmo assim mantive-o durante dois anos!
Ester tentou mudar o estafermo do antigo namorado, mas não conseguiu. Por isso, um dia, mandou-o passear. Contudo, nem assim se viu livre dele. O homem perseguia-a, ameaçava-a, continuava a ir esperá-la à porta do emprego, implorava a sua atenção e chegara mesmo a ajoelhar-se-lhe na rua aos pés, chorando e pedindo perdão pelo seu comportamento.
Ela ainda voltou a fazer mais uma tentativa de relação, mas, ao fim de uma semana, o fulano já se esquecera de todas as promessas que fizera. Por isso, ela arrumou o caso de uma vez por todas. E ele acabou por aceitar o fim do namoro, reconhecendo que não merecia viver com uma pessoa tão impecável como Ester.
Em toda a história, não houvera uma única referência ao cheiro de Ester, o que deixava Ost cada vez mais só com o problema.
- Assim, vim cair nos teus braços – acrescentou ela para Ost, apanhando-o desprevenido.
E, em resposta, ele apenas gaguejou qualquer coisa, sem saber o que dizer, mas reflectindo profundamente no que acabara de ouvir.
Dias mais tarde, teve a ideia que há tanto tempo procurava: passaria a sair com outras mulheres, com o objectivo de esquecer Ester. A alternativa não lhe agradava por aí além, mas ante o bloqueio que sentia, chegou à conclusão que não havia outra hipótese. Aquela era a única solução.
A primeira tentativa que fez não foi propriamente animadora. Estava numa paragem de autocarro e reparou que uma mulher não tirava os olhos dele. Pensou em abordá-la, mas não foi capaz de decidir que palavras lhe dirigiria. Se calhar, até se tratava de um equívoco. Ela devia estar a confundi-lo com outro indivíduo. Assim, se ele lhe dissesse alguma coisa, seria com certeza mal interpretado. A mulher podia reagir agressivamente e humilhá-lo diante das outras pessoas que se encontravam na paragem. Ainda pensou em arranjar um pretexto qualquer, mas depressa concluiu que a situação soaria a falso e não estava disposto a correr quaisquer riscos.
O melhor era aguardar pela altura certa. Não tinha necessidade de abordar mulheres na rua, por pior que fosse a sua vida afectiva.
No emprego, convidou uma colega para jantar. A resposta foi negativa, mas ela apresentou-lhe uma prima nesse mesmo dia, tendo ficado combinado que iriam ao cinema no fim de semana a seguir.
A primeira coisa que Ost fez quando se encontrou com a prima da colega foi aproximar-se dela para verificar o seu cheiro. Só que a mulher reajiu com estranheza e perguntou se ele não estava a ir longe de mais!
- Não é por nada – explicou ele – mas é que ando com umas dúvidas que gostava de esclarecer…
- Olha que não sirvo para essas coisas – foi o comentário pronto e ríspido que ouviu.
Entraram para o cinema e Ost não conseguiu dizer mais nada. A reacção pouco amigável da prima da colega deixara-o inibido e revoltado consigo mesmo.
“Não tinha nada que me pôr a cheirar a mulher…”, reflectiu interiormente. “Já estraguei o serão”.
Durante o filme, ele só pensava em como reparar a sua deselegância. Não se atrevia a aproximar-se dela para além do braço da cadeira e, conforme via pelo canto do olho, a mulher mantinha-se hirta, sem mexer um dedo, ou um músculo da face sequer.
“Já não tenho quaisquer hipóteses”, pensou Ost. “Tudo o que possa fazer agora só irá piorar a situação”.
No fim da sessão, ele ofereceu-se para ir levá-la a casa, mas ela respondeu que não era preciso, pois sabia muito bem o caminho.
Ost sentiu-se tão mal que até desejou que Ester estivesse ali naquele momento só para se lançar nos braços dela e pedir-lhe perdão por aquela tentativa frustrada de traição.
Entrou em casa a correr e deitou-se na cama, tentando recompor-se do momento desagradável que vivera. O pior seria o que a prima iria contar à colega, se calhar ainda naquela mesma noite, acusando-o de actos que nunca lhe haviam passado pela cabeça.
Depois, toda a gente comentaria no emprego o seu comportamento, pensando dele coisas absolutamente nefastas.
Ost não pregava olho. Sentia-se angustiado com o rumo que a sua vida estava a tomar. Mas nem por isso havia de desistir de encontrar uma solução para o seu caso. E então recordou-se que aquela não era a primeira vez que tinha problemas com o cheiro de uma mulher.
Quando ainda era adolescente, apaixonou-se pela sobrinha de uma amiga da mãe. A partir dessa altura, passava o tempo todo atrás dela, pedindo-lhe namoro e escrevendo-lhe poemas com rimas que copiava de um caderno secreto do irmão mais velho.
Um dia, quando teve oportunidade de estar a sós com ela, tentou beijá-la de surpresa. Mas, ao levantar o braço para se defender, a rapariga deixou que um cheiro nauseabundo a sovaco entrasse pelas narinas de Ost. E, nesse preciso instante, toda a poesia que lhe havia escrito morreu na sua alma como uma pomba de coração atravessado por um míssil terra ar.
Ost nunca mais voltou a estar com a rapariga. Quando a via na rua, cumprimentava-a de longe, semi-envergonhado, e continuava o seu caminho, não fosse ela abraçá-lo, de repente, e ele ter que suportar mais uma vez o odor repelente do seu sovaco.
“Será por causa desta experiência que, agora, tenho horrores ao cheiro de Ester?”, perguntou a si mesmo, enquanto dava uma volta na cama e logo outra a seguir, para verificar se o despertador estava marcado para a hora certa.
Alguma coisa havia de ter acontecido na sua vida que o levava a reagir tão mal ao corpo da mulher com quem andava.
Já nem sabia como havia de estar com Ester. Quando voltasse a encontrar-se com ela, perguntava a si mesmo o que diria, depois de lhe ter tentado ser infiel por duas vezes. Era natural que ela, finalmente, notasse alguma diferença nele.
Ost há muito que desejava que assim acontecesse, de facto, mas depois do que sucedera no cinema com a prima da colega, já não tinha a certeza sobre o que fazer com os seus sentimentos.
Na segunda-feira seguinte, reparou que não paravam de olhá-lo de soslaio no emprego. E, assim, confirmou que a prima da colega devia ter dito o pior acerca dele. Tentou abordá-la várias vezes para lhe explicar o que acontecera no fim de semana, mas ela esquivou-se sempre ao longo de todo o dia. Parecia recear ser assaltada ali mesmo por um maníaco sem escrúpulos.
Quando se encontrou com Ester naquela tarde, notou que ela estava completamente diferente: mais expansiva do que nunca, tinha cortado o cabelo à escovinha, trazia uma blusa extremamente decotada e uma saia vários palmos acima do joelho. Dava a ideia de ser outra pessoa! Ost não resistiu a comentar o que os seus olhos viam…
- Talvez assim te interesses mais por mim – disse ela.
Mas ele apressou-se a explicar que ela não necessitava de recorrer a tais excessos para cativar a sua atenção. – Sabes que sempre me interessei por ti – acrescentou.
- Às vezes, não parece – replicou ela.
E Ost não foi capaz de dizer mais nada. Não era um repentista, por isso, geralmente, quando o provocavam, ficava a remoer as palavras, sendo muito provável só encontrar a resposta satisfatória horas mais tarde, ou até no dia seguinte
Ester sugeriu que fossem para casa dele. De início, Ost ainda hesitou, receando ver o seu espaço de novo completamente empestado pelo cheiro de hospital que ela transportava aos ombros como um Cristo a caminho do Calvário, mas, pensando duas vezes, acabou por aceitar a ideia, a ver se as mudanças operadas por Ester no seu aspecto físico teriam contribuído alguma coisa para atenuar o odor que tanto o perturbava.
Chegados a casa, sentaram-se no sofá e Ester não demorou a encostar-se a ele, enchendo-o de carinhos e de atenções. Só lhe faltava sugerir que fossem para a cama!
Mas Ost reparou que, afinal, o cheiro de Ester continuava colado ao seu corpo como sempre. Nada se alterara nela, apesar da nova aparência. Por isso, não conseguia suportar a ideia da mínima intimidade física naquele momento. Nem sequer mais tarde.
Pensou, então, em meter uns algodões no nariz, a ver se ultrapassava a situação inquietante em que se encontrava. É que, naturalmente, Ester ainda podia pensar que havia qualquer problema com ele… E já lhe bastava a ideia com que haviam ficado a seu respeito no emprego, por causa do que acontecera com a prima da tal colega. Agora, Ost corria o risco de ver a sua reputação afectada, precisamente pelas razões opostas!
Num rasgo de impaciência, dirigiu-se à casa de banho e enfiou mesmo dois pedaços de algodão nas narinas. “Sempre tenho a boca para respirar…”, pensou sozinho.
Logo a seguir, voltou para junto de Ester e esperou que ela tomasse a inciativa, uma vez que se encontrava tão sedenta de contacto físico.
Só que ela fixou-o atentamente, arregalou os olhos e perguntou-lhe se tinha alguma coisa.
Ost respondeu que não, mas o seu falar nasalado denunciou imediatmente o que se passava. Ester pôs-lhe as mãos no nariz e quis saber o que faziam ali os algodões.
Embaraçado, Ost esclareceu que às vezes sangrava do nariz, por isso tinha recorrido àquela solução preventiva.
- Oh Ost, tens que tomar cuidado contigo – disse ela. – Não quero que te aconteça mal nenhum. Vais deitar-te a descansar e vou fazer-te um chá imediatamente…
Ester conduziu-o até à cama e, depois, dirigiu-se para a cozinha, enquanto dizia:
- Descontrai que já vou ter contigo…
Ost ficou estirado sobre os lençois a pensar na sua sorte. A vida não lhe reservava saída. Respirava pela boca como um crocodilo a fazer poemas às nuvens. Os algodões no nariz faziam-lhe uma impressão horrível, mas, agora, não podia tirá-los, ou Ester teria um novo acesso de paixão física incontrolável. Daquela forma, ao menos, não sentia cheiro de coisa alguma, nem de hospital, nem de produtos farmacêuticos, nem de coisa alguma que se lhe parecesse. Mais valia morrer, assim, sem qualquer perspectiva diante dos olhos. Não seria necessário ingerir medicamentos ou pedir a Ester que deixasse abertas as torneiras de gás do fogão. Os seus dias estavam perto do fim. Ao menos, era o que desejava. Não lhe apetecia experimentar mais nada. Depois dos odores de Ester, nenhum outro corpo se justificaria. Muito menos o dele.
Iam longe os tempos em que os seus pés corriam sobre a relva dos jardins, despertando os cheiros silvestres das flores em redor da paisagem. E tudo era livre, tudo era puro, tudo era saudável.
Ele via as coisas, as pessoas, os montes, as ruas e imaginava que a vida não tinha segredos, nem complicações.
Por isso, debruçava-se, às vezes, na janela do seu quarto, pela noite dentro, esquecido das horas, a contemplar a escuridão que vagueava sob o luar.
O mundo cheirava a terra molhada, sementes invisiveis, brilhos de astros no firmamento, espumas de mares que vinham de longe rebentar junto às rochas sobre as quais assentava a casa do seu sonho maior.
Mas tudo desaparecera ao longo dos anos. E até a beleza de Ester estava contaminada por um odor nauseabundo que o aniquilava da cabeça aos pés.
Como se continuando os seus pensamentos, como se para o fazer enfrentar a realidade de uma forma ainda mais contundente, ela voltou para junto dele, com o chá quente que lhe prometera.
E Ost teve que bebê-lo até à última gota sem pestanejar.
Sentia-se abatido. Não sabia se por causa dos algodões no nariz, ou se pelo facto de ter que simular semelhantes situações só para se ver livre do corpo da mulher que tinha a seu lado.
Ester comentou o seu aspecto e disse:
- Se calhar, fiz mal em vir vestida desta maneira…
Depois, foi apagar a luz e deixou-se ficar sentada na beira da cama, pondo-se a olhá-lo sem dizer mais nada.
Ost fechou os olhos por uns momentos e sentiu como se os anos passassem a uma grande velocidade, permanecendo ele imóvel, para sempre, ali, com Ester sentada a seu lado simplesmente a olhar…
Via-a enrugada, abatida sob o peso da idade, quase não podendo mexer-se, e ele esquelético, com os ossos à flor da pele, emudecido, enquanto recordava os acontecimentos principais da vida que deixara para trás.
O sono pesava-lhe sobre as pálpebras. Mantinha a boca aberta para respirar. Estava com os lábios ressequidos. Humedeceu-os com a língua.
Já não sabia se Ester era nova ou velha, se estava de saia curta ou comprida, se continuava a seu lado ou se teria partido. Mas não quis abrir os olhos para verificar.
Fez um esforço para se lembrar dos seus dedos das mãos. Já não se lembrava se eram finos ou grossos, grandes ou pequenos.
Os dedos dele e os dedos dela desapareciam no escuro. E surgiam mais à frente, nos anos, transformados em algas, evaporando-se…