— Fecha a porta com força — disse Norberto para Leonardo, logo depois de este ter entrado no carro.
Leonardo obedeceu, mas a porta não. Bateu e voltou a abrir-se. Mais um empurrão seria suficiente para a fazer em pedaços.
Norberto saiu do carro, tirou um cordel da bagageira e pediu ao amigo que prendesse a porta por dentro.
Leonardo amarrou uma das pontas do cordel ao manípulo da porta, passou o fio por trás do seu assento, deu uma volta sobre si mesmo, pôs-se de joelhos, esticou-se e foi amarrar a outra ponta no manípulo da porta traseira do lado oposto àquele em que se encontrava. Retesou bem o fio, segurando-o com três nós apertados.
— Está resolvido — disse.
Norberto não ligou. Habituara-se aos pequenos problemas do Opel branco e enferrujado que possuía há anos e que representava tudo na sua vida, para além da mãe, com quem residia num pequeno apartamento da Rua da Rosa.
Leonardo, seu único amigo, tinha um quarto alugado na Rua da Esperança e uma filha que raramente via.
O carro era onde se encontravam com regularidade. Todas as manhãs, os dois saíam de casa, pontualmente, e dirigiam-se para o Opel, como quem ia para o emprego, embora nem um nem outro trabalhasse. Encontravam-se no automóvel, apenas. Se havia gasolina, davam umas voltas por Lisboa. Se não, deixavam-se estar sentados no veículo, independentemente do sítio onde se encontravam, e ficavam para ali a conversar durante horas.
Às vezes, Norberto ia almoçar a casa, outras vezes não. Quando o fazia, trazia uma sandes para Leonardo, que permanecia no carro à espera. Ambos fumavam muito.
Ao despedirem-se, à noite, deixavam o automóvel onde calhava. Para poupar gasolina, Norberto nem sempre o trazia até à porta de casa. Um veículo no estado em que o seu se encontrava não corria o risco de ser roubado. A sua aparência repelia mais do que atraía. O ladrão que o levasse teria mais complicações do que vantagens. No dia seguinte, os dois faziam a pé o caminho até ao sítio onde tinham deixado o Opel na noite anterior. Sempre era uma maneira de desentorpecerem as pernas.
— Tens aí um cigarro? — perguntou Norberto, distraído a olhar para as sombras da avenida Almirante Reis.
Leonardo estendeu-lhe um maço amarrotado de SG Gigante com dois cigarros dentro.
— O dia promete… — resmungou Norberto.
— A gente desenrasca-se — comentou Leonardo, recostando-se no assento e acrescentando que tinha dormido mal durante a noite. Tivera uma comichão que o deixou todo vermelho de tanto se coçar. Levantou a camisa e mostrou uma parte das costas, mas Norberto mal olhou. Estava absorto, distante, preocupado.
— Vamos ter que fazer qualquer coisa — acrescentou Norberto.
— Não estejas com essa cara — replicou o amigo.
— Hoje é uma coisa, amanhã é outra…
— O que importa é não desanimar.
Norberto acendeu o cigarro e aproveitou o silêncio para deixar morrer a conversa. Tragou, aguentou a respiração e, por fim, expeliu o fumo.