Amor com sapatos

romance


1ª edição: 2000
Editora: Europa-América
Nº de páginas: 137

I

Na sala de espera de um cinema, um homem dirigiu-se ao bar e pediu um café, enquanto a alguma distância uma mulher se entretinha a ver os cartazes que anunciavam os próximos filmes. Ele chamava-se Armando e ela Artemísia.

Saído dos lavabos, um segundo homem, Arnaldo, seguiu para o bar e, reconhecendo Armando, cumprimentou-o efusivamente.

A conversa ruidosa entre os dois chamou a atenção de Artemísia que, de longe, reconheceu Arnaldo. Acenou e logo a seguir foi cumprimentá-lo.

Feita a apresentação de Armando, Artemísia e Arnaldo falaram de banalidades, perguntando por este e por aquele.

E quando Armando se preparava para falar sobre o filme, Arnaldo, que acabara de ver a fita, deu meia volta, quase sem se despedir, e desapareceu logo a seguir por entre as dezenas de pessoas que entretanto tinham chegado e se aprestavam para entrar na sala.

Artemísia e Armando ficaram entregues um ao outro. Nos primeiros momentos, olharam-se sem saber o que fazer ou dizer. Era a primeira vez que se encontravam, mas tudo indicava que veriam o filme juntos. A amizade comum com Arnaldo seria suficiente para evitar que fosse cada um para seu lado.

Como não tinham tema de conversa, Armando disse sem grandes cuidados:

- Podias ter trazido outros sapatos!

Artemísia hesitou uns segundos, olhou-o como se não compreendesse os motivos de tão súbita familiaridade, mas recompôs-se e acabou por replicar, embora sem disfarçar a surpresa:

- Não me digas que os meus sapatos te incomodam… – E logo a seguir, num tom de voz mais desembaraçado: – És sempre assim tão descarado e ofensivo?!

- Só em situações especiais – retorquiu ele.

- Nem sequer rodeaste a questão…

- Gosto de ir directo aos assuntos…

- De qualquer maneira, não me conheces o suficiente para falares nesse tom.

- Mas só falando nesse tom posso conhecer-te melhor.

Artemísia estava de braços cruzados e olhos fixos em Armando. Defendeu que não era possível conhecer as pessoas de um momento para o outro, mas ele retorquiu que era preciso ganhar tempo, acelerando e encurtando distâncias nas conversas.

Na opinião de Artemísia, porém, as conversas não ajudavam grande coisa, porque as pessoas eram geralmente superficiais e esquivas. Só se tinha acesso à verdadeira face de alguém no dia a dia, na vida concreta, nos momentos difíceis…

Armando defendeu que as palavras eram essenciais, mesmo quando não davam um retrato fiel da pessoa. Porque também se podia conhecer alguma coisa ou alguém através da mentira.

Mas ela replicou que não era bem assim, que a mentira afastava as pessoas do seu verdadeiro caminho e que, por isso, as palavras eram uma perda de tempo.

- Estás a partir do princípio que as palavras só sabem mentir… – disse Armando.

- Se não mentem, servem bastante para contornar a verdade – disse ela.

- Mas as palavras são um instrumento para a primeira aproximação entre as pessoas!

- Acho que não, o olhar está geralmente primeiro…

- O olhar tem mais a ver com o cinema…

- E alguma vez tiveste dúvidas de que o cinema é a grande verdade que podemos encontrar na vida?

Entretanto, ouviu-se o sinal para o começo do filme e ambos avançaram para as escadas, enquanto Armando procurava os bilhetes no bolso da camisa, das calças, da camisa outra vez…

À medida que subiam para a sala, Armando quis saber de onde Artemísia era natural, mas obteve uma resposta evasiva sobre o filme que se preparavam para ver, o que o levou a pensar que aquele não era o melhor momento para abordar o assunto.

O importante, agora, era não deixar fugir Artemísia, não fosse ela encontrar alguém conhecido e relegá-lo para segundo plano, deixando-o sozinho às voltas numa sala escura entre as sombras das cabeças mergulhadas no brilho do Verão.

Mas ela apressou-se a encontrar lugar e a fazer-lhe sinal para que se sentasse a seu lado.

- Espero que não voltes a meter-te com os meus sapatos… – disse com um sorriso malicioso.

- Resolvemos isso depois do filme – respondeu ele.

Nessa altura, as luzes da sala diminuíram de intensidade e o écrã encheu-se de claridade e movimento.

Os dois não voltaram a falar. A proximidade a que se encontravam deixava-os protegidos de qualquer aspecto menos previsível.

Por mais atenção que desse ao filme, Armando não conseguia concentrar-se. Estava sempre a pensar em Artemísia. Percebeu que seria ridículo não ter ideias, depois, para trocar impressões acerca do filme. Poderia alegar umas quaisquer dores de cabeça, mas isso deitaria por terra a possibilidade de a convidar para tomar um copo a seguir à sessão.

Armando espiou Artemísia pelo canto do olho e viu-a inclinada para o lado oposto ao seu, com a mão sob o queixo, sem olhos para outra coisa no mundo senão para o que acontecia na tela. Tentou adivinhar em que estaria ela a meditar, mas naquele momento não conseguiu. Havia pessoas cujos pensamentos percebia com relativa facilidade, seguindo mesmo a sua evolução, hesitações e múltiplas derivações, mas Artemísia não era uma dessas. Muito mais numa sala às escuras onde não era possível ver os pormenores da sua pele, da sua boca, das suas mãos, elementos que formavam um conjunto essencial para a compreensão dos contextos.

As pernas eram uma pista, conforme estivessem afastadas, cruzadas, aconchegadas, encolhidas, estendidas, etc. Sem grande esforço, podia observá-las, apesar do escuro, devido à ligeira claridade que deslizava do écrã para o pavimento, criando uma névoa subtil que acendia os objectos a partir do nada, a partir da escuridão impenetrável.

Artemísia estava com a perna direita cruzada sobre a esquerda, imóvel, aparentemente serena e esquecida dos sapatos. Entretanto, com o passar do tempo, o corpo foi-lhe amolecendo e, a dado instante, o seu braço tocou no de Armando, sem que nenhum deles tivesse a preocupação de se afastar, até porque a distância entre as duas cadeiras era exígua.

Em poucos segundos, tornou-se evidente que ambos analisavam com rapidez vertiginosa o significado do que estava a acontecer entre os seus dois braços, o primeiro contacto, uma espécie de primeiro beijo proibido no sótão escuro da adolescência.

Pensavam, olhando fixamente o ecrã. E quanto mais fixamente observavam as imagens gigantes e luminosas do movimento na tela, mais concentrados estavam no ponto exacto em que os seus braços se uniam.

O tempo em que se mantiveram imóveis, olhando o desconhecido para lá da tela foi decisivo para tudo o que viria a suceder a seguir. Se qualquer deles tivesse recuado, Artemísia e Armando ainda hoje não se teriam conhecido.

O mútuo consentimento do gesto, da posição dos braços, da pressão nos músculos, encheu de calor a aproximação entre os dois. Sem palavras, de facto, havia qualquer coisa em Artemísia que cativava, que prendia, que convencia. E, em Armando, a mudez inquietava, despertava interrogações, acelerava os intervalos entre pressentimentos.

O contacto físico deu-se numa zona da pele sem grão de areia, sem veia saliente, sem tecido crispado. Era doce o tecido que unia os seus braços sob o feixe solitário de luz que atravessava a sala de um extremo ao outro.

Para Artemísia, o braço de Armando era um cinema que se tinha desprendido da tela iluminada e se lhe colara à pele sem avisar. Não se preocupou com o que ele pensaria. Porém, manter o contacto físico seria fazer passar uma mensagem que Armando naturalmente teria toda a liberdade de interpretar…

Por seu turno, ele não queria dar a ideia de que estava disposto a aproveitar-se de uma situação aparentemente fácil, ou casual. Uma vez que não conhecia Artemísia, era-lhe difícil perceber se o toque dos braços era intencional, ou não. Mas, se se afastasse, poderia dar a ideia de que não queria envolver-se, ou que lhe desagradava o seu contacto. O que não era verdade.

A forma como ela reagira aos seus comentários sobre os sapatos não havia sido totalmente desanimadora. Ao menos, dera-lhe hipótese de argumentar sem inibições, o que garantia, à partida, um bom começo.

Armando adivinhara qualquer coisa nos olhos dela. Qualquer coisa de afirmativo, de aventureiro, de arriscado, de inadvertido, por onde seria possível entrar sem necessidade de recorrer a esquemas pré-concebidos. Mas ele também não era de esquemas. Quando os notava nos outros, afastava-se prontamente. E se, por algum motivo, ele próprio os fabricava, não hesitava em desistir de tudo, mesmo que acabasse por sair prejudicado.

Armando pensou se o que estava a sentir não seria simples ilusão. A própria Artemísia estava a seu lado no contexto de um filme que decidira ver e não exactamente no contexto de um encontro originalmente marcado com ele. Por isso, o mais natural era que o toque entre os seus braços fosse espontâneo e casual. No entanto, essa situação passaria a fazer parte da história de ambos. Independentemente da dimensão e das consequências do seu impacto, Artemísia e Armando ficariam marcados (em maior ou menor grau) pela escuridão imprevista de uma sala de cinema. Pela forma como ela os uniria, ou afastaria.

Artemísia fez as contas sobre o tempo em que o seu braço se encontrava encostado ao de Armando. “Se isto durar mais de dois ou três minutos, será caso para desconfiar…”, pensou ela consigo mesma.

Passado mais ou menos esse tempo, sem que a situação se alterasse, ela considerou a hipótese de se levantar e vir embora, mas enquanto analisava as várias possibilidades, concluiu que, se o fizesse, poderia interferir no destino, de forma drástica, injusta e precipitada. Em alternativa, pensou ir à casa de banho, o que lhe abria portas para uma outra solução: no regresso, perder-se-ia e não encontraria a sua cadeira, o que a obrigaria a sentar-se noutro lugar até ao fim da sessão; depois, poderia sempre explicar mais tarde o percalço a Armando que, decerto, não levaria a mal o sucedido.

Mas Artemísia, de repente, sentiu que poderia estar a ir longe demais. Porque um tal estratagema seria capaz de os afastar irremediavelmente. As relações entre as pessoas nem sempre obedeciam à lógica…

Por isso, continuou sentada, como se tivesse falta de ideias, falta de planos, falta de sítios para onde ir… – muito longe do filme que lhe deslizava perante os olhos.

Por seu lado, Armando chegou à conclusão que o melhor seria pressionar um pouco mais o seu braço, para ver se Artemísia reagia. E em que sentido o faria. É que se, até ao momento, o contacto podia ser encarado como fortuito, depois de um segundo momento de pressão mais óbvia, a atitude que ela tomasse não deixaria margem a quaisquer dúvidas. Então, os campos de manobra de cada um seriam claramente mais reduzidos.

Armando fez o que pensou. E a reacção de Artemísia foi aproveitar para ajeitar o cabelo exactamente com a mão daquele braço, tendo-o feito no instante preciso em que a pressão do braço de Armando aumentou, o que o impediu de tirar qualquer conclusão, uma vez que o gesto dela foi perfeitamente sincronizado com a decisão dele.

Depois, Artemísia não voltou a colocar o braço na mesma posição, deixando Armando manifestamente à deriva, sem saber o que fazer, se recuar, ou se procurar aproximar-se mais do braço que ela mantinha encolhido sobre a anca.

Armando receava ir longe demais porque ela, de repente, podia dar um salto na cadeira e acusá-lo de estar a assediá-la, chamando o responsável pela sala e indo depois queixar-se à polícia. Havia gente para tudo. E a verdade é que ele não sabia até que ponto Artemísia seria capaz de ir.

Para não estragar o serão, preferiu esperar por novo movimento dela, a ver se os braços voltavam a tocar-se, a ver se recebia uma segunda mensagem, a ver se o primeiro contacto não fora simples acaso.

Artemísia, por seu turno, esperava apenas pelo instante em que voltaria a dar um jeito no cabelo, pousando depois o braço de novo junto ao de Armando, procedendo sempre com um ar de aparente naturalidade, para que ele não tivesse hipóteses de descodificar a sua intenção. Ela não queria que ele se precipitasse, nem que desistisse. Para o conhecer, havia que mantê-lo na corda bamba pelo maior período de tempo possível. Só assim poderia estudar as suas oscilações de carácter, as suas hesitações intelectuais, as suas deambulações comportamentais.

Ele queria evitar que um eventual segundo momento de sincronia no movimento dos braços lhe fosse favorável. Por isso, rodeou-se de precauções e ficou a observar Artemísia pelo canto do olho.

Quando viu que ela levava de novo a mão ao cabelo, aproveitou para se endireitar no assento, ao mesmo tempo que punha as mãos entre as pernas, evitando sair embaraçado da situação.

O braço dela ficou imóvel sobre o apoio da cadeira, desprotegido e abandonado. Ele sentiu que vencera, daquela vez. Por isso, não valia a pena estar com grandes rodeios na próxima oportunidade.

Logo a seguir, pôs o braço junto ao dela, tocando-lhe ao de leve, e esperou pela borrasca, pelo grito, pela recusa!

Mas ela não o rejeitou, embora também não tivesse deslocado o braço um milímetro na sua direcção. Se tivesse feito esta última opção, poderia dar a entender que o aceitava sem margem para dúvidas, que o queria, que o desejava.

Na prática, Armando continuava com poucas indicações, enquanto ela achava que o facto de ele ter tirado as mãos de entre as pernas para voltar a assentar o braço junto ao dela não acrescentava muito ao que conhecia dele. Só podia tentar interpretar alguma coisa em função do pouco tempo que ele demorara a reagir à sua aproximação. No fundo, denotava uma insegurança típica.

Depois dos movimentos de braços que se tocavam e afastavam, nenhum deles voltou a ter dados novos e concretos sobre o outro. Ambos optaram pela segurança das suas posições. Os bilhetes que haviam comprado para a sessão determinavam com rigor os milímetros reservados ao descanso dos braços de cada um.

Até ao fim da película, os dois ignoraram-se ao lado um do outro. Parecia que nada alguma vez podia vir a acontecer entre eles. Nem contacto de braços, nem pensamentos secretos, nem gestos cautelosos avançando no rumor das sombras. Davam a ideia de um casal que subitamente se zangou sem motivo, não sendo qualquer deles capaz de propor a reconciliação durante os próximos tempos. Os corpos ficaram imóveis, por tanto tempo quanto a escuridão permitia. Só a luz que rasgava a sala tremelicava metalicamente.

Mas a sua zanga era só aparente. No fundo, Artemísia e Armando acabavam de atingir um nível de entendimento ao alcance de poucos. Se não tinham motivos imediatos para se aproximarem definitivamente, também não os tinham para se afastarem, ou para se antagonizarem, de forma irreversível. A serenidade que se estabelecera no espaço comum ao braço de um e de outro era o sinal evidente de que tinham todo o tempo do mundo para se conhecer.